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O Estranho Thomas

O Estranho Thomas

SEMPRE QUE OUÇO O NOME DE STEPHEN SOMMERS, penso em efeitos visuais medíocres e excessivos em produções duvidosas. Creio que a carreira do cineasta seja incapaz de desmentir meu preconceito: além de dirigir, Sommers também se meteu no roteiro de filmes como Tentáculos, A Múmia, Van Helsing: O Caçador de Monstros e G.I. Joe: A Origem de Cobra. Por essa razão, fui assistir a O Estranho Thomas com um pé e meio atrás – e acabei surpreendido por um filme divertido que, frente ao perfil dos demais citados, soa quase como uma obra autoral do cineasta.

Baseado no primeiro livro da série de fantasia “Odd Thomas”, criada por Dean R. Koontz, o filme se passa na cidadezinha californiana fictícia de Pico Mundo, onde o personagem-título, um jovem e carismático cozinheiro com poderes clarividentes vivido por Anton Yelchin, estabelece uma parceria informal com o chefe de polícia Wyatt Porter (Willem Dafoe) para combater o crime na região. Entretanto, em meados de certo mês de agosto, Odd Thomas passa a enxergar uma quantidade anormal de espíritos escoceses – nome que o protagonista atribui aos espectros demoníacos que rodeiam tanto algozes quanto possíveis vítimas de fatalidades -, antecipando a ocorrência de uma massiva tragédia nas redondezas.

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O Estranho Thomas

Em boa parte do tempo (especialmente na abertura do longa, que conta com uma narração pretensamente descolada do protagonista), Sommers se esforça ao máximo para imprimir estilo e conferir uma atmosfera cool à produção, mas é sabotado não só pelas restrições orçamentárias (o efeito de algumas transições, por exemplo, é visivelmente comprometido pela limitação dos efeitos especiais), mas também por sua própria falta de talento para caracterizar aquele universo de forma diferenciada: Stormy Llewellyn (Addison Timlin), a namorada do protagonista, surge como uma garota dispersa e sem qualquer senso de perigo, que parece viver em uma sintonia completamente diferente de todos os demais personagens – mas isso não só a transforma em uma figura um tanto irritante, como também jamais assume alguma função prática ou soa como uma decisão interessante. Por outro lado, o diretor acerta em pelo menos uma tentativa de subverter convenções: é no mínimo divertido notar que, em todas as ocasiões em que Odd liga para o chefe de polícia com alguma informação nova e urgente fora do horário de serviço (especialmente à noite), o personagem está transando com a esposa – algo perfeitamente plausível, mas raramente abordado (convencionalmente, ele está dormindo).

O Estranho Thomas

Abraçando um mistério muito menos intrigante e complexo do que parece acreditar ser, o roteiro tenta subverter as expectativas do público utilizando mais de uma vez um truque (popularizado por certo suspense de 1999) extremamente comum em tramas nas quais apenas um dos personagens é capaz de ver pessoas mortas, o que não torna o texto mais inteligente (embora seja possível dizer que as reviravoltas até que funcionam). Além disso, Sommers não se intimida nem mesmo em inserir coincidências absolutamente ofensivas na narrativa, como a decisão completamente arbitrária tomada por Odd Thomas ao presentear um personagem com um medalhão que, pouco tempo depois, viria a impedir que um par de balas atravessasse seu coração.

Entretanto, a forma inquietante como os tais espíritos escoceses (criados com efeitos especiais razoáveis, mas adequados) são trabalhados ao longo da narrativa e a amarração consistente das pontas soltas no ato final transformam O Estranho Thomas em uma experiência bem mais interessante que a carreira predecessora de seu realizador poderia sugerir, embora também um tanto aquém do que um profissional mais talentoso poderia realizar.

Título original: Odd Thomas
Direção: Stephen Sommers
Roteiro: Stephen Sommers, baseado no romance “Odd Thomas” de Dean R. Koontz
Elenco: Anton Yelchin, Addison Timlin, Nico Tortorella, Kyle McKeever, Shuler Hensley, Gugu Mbatha-Raw, Laurel Harris, Patton Oswalt e Willem Dafoe.
Lançamento: 25 de fevereiro de 2014, em DVD e Blu-ray
Nota:[tres]