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O Homem Invisível (2020) – Crítica do filme

O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A crítica do filme O Homem Invisível possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação.

poster o homem invisível - melhores filmes de terror de 2020A UNIVERSAL TENTOU CRIAR UM UNIVERSO CINEMATOGRÁFICO DOS SEUS MONSTROS e desistiu após o fracasso de A Múmia, com Tom Cruise. Isso abalou a ideia de uma releitura de O Homem Invisível mais próxima da obra de H.G. Wells, mas em compensação, o estúdio não desistiu de trazer de volta essa história para os cinemas e apostou no competente Leigh Whannell (Jogos Mortais) para cuidar da nova versão desse personagem tão curioso.

No entanto, de forma acertada, O Homem Invisível (The Invisible Man, 2020) que chega aos cinemas não foca num cientista ambicioso com tendências homicidas. Ele toma a feliz decisão de usar o terror da maneira inteligente que os cinéfilos foram acostumados, lembrando aqui obras como O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski; O Iluminado, de Stanley Kubrick; e mais recentemente Hereditário, de Ari Aster; e O Farol, de Robert Eggers.

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Terror não é sobre levar sustos. Se eles acontecerem é porque fazem parte da sensação de medo causada na obra.

Terror não é sobre cenas sangrentas o tempo inteiro.

Terror não é sobre o que é óbvio.

O Homem Invisível coloca Elizabeth Moss, da série The Handmaid Tale, como uma mulher que escapa de um relacionamento abusivo e começa a se sentir perseguida pelo ex, que se suicidou após ser abandonado. O grande trunfo do longa-metragem é apresentar detalhes sutilmente, sem a necessidade de precisar investir em explicações profundas, e tudo isso funciona muito para a experiência do espectador – que sem ter todas as informações ao seu alcance pode facilmente morder a isca de Whannell e acreditar que a protagonista esteja louca.

Pois é exatamente essa a sensação que muitas mulheres sentem quando denunciam seus relacionamentos abusivos. Afinal, se algo acontece apenas entre quatro paredes, e o sujeito se apresenta de forma amável para os olhos das outras pessoas, não seria um problema invisível? É sempre a palavra da vítima contra a palavra do agressor, que numa sociedade machista costuma ser inocentado sob acusações de “loucura” ou “paranoia” da mulher.

Sabendo que ela acabou de passar por uma situação traumatizante e cientes que o ex se matou, todos os amigos da protagonista ficam se questionando sobre suas ações. Há um momento em que mesmo após o seu amigo policial dar um “cala a boca e escuta” para o babaca do advogado do ex, o próprio amigo arregala os olhos como se não acreditasse no que sua amiga está dizendo. E vamos lembrar que é uma pessoa com o emocional destruído acusando o ex-morto de continuar atormentando a sua vida. Dadas as devidas proporções, seria o mesmo que uma mulher dizer para seus amigos que apanha do namorado, aquele mesmo que aparece em público como se fosse um anjo incapaz de qualquer ato de violência.

A mão do diretor conta bastante, pois ele consegue criar suspeitas sobre a condição psicológica abalada da nossa protagonista (lembrando que não recebemos nenhum detalhe específico sobre o que exatamente era o trabalho do namorado abusivo) e aos poucos vamos percebendo que uma ameaça maior está cada vez mais próxima. (Destaque para a sequência em que Moss está no sotão e toma um susto ao derrubar um balde de tinta)

Whannell não abusa em momento algum. Sabe quando usar trilha sonora, quando o silêncio é fundamental. Sabe deixar seu diretor de fotografia explorar os ambientes vazios sem ceder ao desejo de mostrar a ameaça (inclusive, boa parte da sensação de tensão presente no longa é graças ao trabalho da câmera, que tortura o público flutuando de um lado para o outro sem pressa).

Extremamente desconfortável, e imagino que a sensação seja ainda mais sufocante para mulheres que tiveram o desprazer de se relacionar com esses verdadeiros cuzões da vida real, O Homem Invisível é desde já um dos melhores filmes de 2020 e candidato forte ao topo da lista de melhores filmes de terror de 2020. Leigh Whannell dá uma grande aula sobre como atualizar um clássico de um jeito ousado e capaz de levantar uma discussão que infelizmente é extremamente necessária.