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O Juízo – Crítica (2019)

Lucas Siqueira avalia o filme nacional, dirigido por Andrucha Waddington.

Será que para um filme ser bem sucedido é necessário que ele tenha um gênero bem definido desde sua pré-produção, ou seria esse conferido pelos seus espectadores no intuito de categorizar a obra, de forma a dar ordem à arte? O Juízo (Brasil, 2019), dirigido por Andrucha Waddington (não confundir com Juízo, de 2007, da cineasta Maria Ramos), mesmo partindo de alguns modelos, com certeza não se preocupa em pertencer a nenhum gênero.

Falta de foco

O filme transita entre uma obra de terror sobre fantasmas, um suspense sobre loucura com pitadas sobrenaturais e um drama crítico de conteúdo histórico sobre heranças, traição, vingança e maldições passadas de geração a geração. Infelizmente, essa falta de identidade prejudica o longa. Ao se desvincular de qualquer categoria, ele se utiliza sempre de resoluções anticlimáticas para seus conflitos internos, quebrando com as expectativas da audiência e deixando-a à deriva, sem nunca saber o que esperar do desenrolar do filme, por não compreender a que tipo de obra assiste.

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Nos momentos em que são esperados sustos e medo, a plateia é correspondida com agonia e tristeza. Já nas horas em que tristeza e agonia são aguardadas, o roteiro surpreende com uma frágil crítica social de ambientação histórica — na ocasião em que explicações psicológicas sobre um personagem parecem adequadas, quando o suspense chegaria ao clímax e destrincharia um mistério frágil mas aparentemente importante — e traz um frustrante beco sem saída, que não explica nem traz uma conclusão lógica ao enredo.

o juizo 2019

Aspectos técnicos

Em termos técnicos, O Juízo tem uma belíssima direção de arte assinada por Azul Serra, que trabalha sempre com tons sombrios, dando um clima denso e claustrofóbico ao filme. O que a princípio é trunfo, torna-se cansativo com o uso excessivo dessas sensações por duas horas, e faz o espectador ansiar por tomadas mais claras, a fim de “respirar”. Até mesmo cenas que se passam durante o dia trazem o mesmo clima denso, escuro e opressivo, algo massacrante para algumas plateias.

A trilha da produção é comandada por Antônio Pinto. Ele realiza um excelente trabalho, com fantásticas composições que dão o tom adequado às cenas e funcionam perfeitamente com o clima da obra. As músicas fornecem tensão e confinamento, que dialogam e se mesclam com a fotografia, ditando o ritmo do filme — mesmo que este se perca constantemente pelas más escolhas estilísticas do diretor e o amadorismo do elenco.

Atuações

A obra de Andrucha conta com um grande elenco, como Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Felipe Camargo e Carol Castro. No entanto, certas opções deixam muito a desejar e depõem contra a película. Um dos personagens principais é vivido pelo músico paulistano Criolo, que claramente foi escolhido para participar da obra para dar um hype no filme e atrair um público mais jovem, fã de seu trabalho musical. Agora, chamar o trabalho de Criolo de amador seria um pecado e uma ofensa com os atores amadores.

O músico interpreta Couraça, um escravo traficante de diamantes, que é traído e assassinado junto à filha em uma emboscada arquitetada por um antepassado de Augusto (Camargo), protagonista. O personagem aparece na trama como um fantasma nada amigável, cuja motivação é a busca por vingança do além-túmulo, 200 anos depois de sua morte. Por infelicidade, Criolo não consegue minimamente passar a carga dramática exigida pelo papel, gerando desconforto ao espectador toda vez que profere suas falas (tal qual um aluno que não estudou a matéria e deve se apresentar diante da classe).

Outra má escolha em termos de elenco se dá com o personagem Marinho que, em um evidente caso de Francis/Sofia Coppola, é vivido por Joaquim Torres Waddington, filho do diretor e da roteirista. A má atuação de Waddington pode ser facilmente justificada pela sua falta de experiência no ramo, uma vez que é sua estreia em um longa-metragem. No entanto, a performance engessada do ator, aliada à falta de expressões faciais, é tão precária que ele não consegue fazer o público ter qualquer tipo de empatia com seu personagem; nem mesmo para torcer contra.

De forma geral, O Juízo sofre muito com personagens mal interpretados, pois parece que a má ação é contagiosa, igual ao mau humor. Nas cenas em que maus atores precisam contracenar com os bons, os últimos acabam sofrendo e descendo seu nível para se nivelar aos primeiros. Assim, o filme perde em termos de imersão e faz com que a audiência se descole da ficção. Ao obrigar atores de diferentes níveis de profissionalismo a interagirem entre si, os realizadores produzem atuações mecânicas e robotizadas, capazes de causar vergonha alheia e de serem descritas como “cãibras na alma” por quem assiste.

História

O roteiro traz a assinatura de Fernanda Torres e, em alguns momentos, é bom. Ele consegue gerar certa curiosidade no espectador e prender a atenção, com sugestões de que algo interessante vá se desenrolar para a resolução do enredo. Porém, há nele algumas construções de personagens que, como quase tudo na película, não levam a lugar nenhum, além de dar a sensação de que foram desenvolvidos só para preencher espaços e ocupar mais tempo. Também é impossível não pensar em um nepotismo nesta produção, ao ver grandes atores como Fernanda Montenegro (mãe da roteirista, sogra do diretor e avó de um dos atores) fazendo pequenos papéis que em nada contribuem para a narrativa.

É sempre interessante ver o cinema brasileiro caminhar em direção a outros gêneros que não só o drama de favela ou comédias de besteirol. E, com certeza, é muito gratificante ver produções de terror psicológico que abordam temas como a escravidão e o nosso legado colonial. Entretanto, este filme em questão termina se perdendo por não estabelecer um gênero principal, pois, em sua tentativa de fugir de uma rotulação, termina confundindo o público, que não sabe como reagir ou o que esperar. Enquanto isso, a obra vai seguindo sem direção e culmina em um final agridoce, decepcionante e anticlimático, valendo-se de alguns clichês óbvios e fórmulas hollywoodianas.

Vale a pena ou não?

O Juízo está longe de ser uma péssima obra cinematográfica produzida no Brasil, mas suas falhas são evidentes e acaba sendo difícil deixá-las de lado. Isso inviabiliza a concentração do expectador no filme, diante de tanto amadorismo. Por outro lado, por mais que não seja uma boa obra, a película possui algo de salutar em seu âmago: a tentativa de criar e desenvolver novos caminhos para o surgimento de uma cara mais plural e interessante no cinema nacional. Vale a pena ver para apreciar a sensação de que “estamos trabalhando para melhor atendê-los”.