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O Relatório (2019)

Estrelado por Adam Driver, drama investigativo estreia hoje nos cinemas brasileiros.

 

No cinema estadunidense, há um conjunto de produções dedicadas a contar as histórias verídicas de personagens aparentemente incorruptíveis, que travaram grandes batalhas para proteger os valores, princípios éticos e direitos fundamentais de sua nação. Suas epopeias contra um sistema corrompido configuram uma espécie de “espírito moral” do cidadão norte-americano – mesmo que boa parte delas se deem contra instituições e práticas do próprio país. Daniel Jones (Adam Driver) entra neste leque de figuras ao ter sua jornada narrada em O Relatório.

Naturalmente desconfiado, Dan (como o tratam as outras personagens da trama) faz perguntas frequentes e olha para trás a cada instante para eliminar a suspeita de possíveis perseguidores. Seu comportamento denuncia: não há indivíduo mais obstinado e dedicado do que ele para conduzir uma investigação como a retratada.

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Sob cargo da senadora democrata Dianne Feinstein (Annette Benning), ele trabalha árdua e prolongadamente – o filme começa em 2003, avança para 2007 numa elipse, 2009 na seguinte e assim por diante – para reunir informações que atestam irregularidades e abusos cometidos pela CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA) contra suspeitos investigados (normalmente relacionados a grupos terroristas do Oriente Médio) durante os anos anteriores. Sob o pretexto da “eficiência no contraterrorismo” – afirmação desmentida pelas informações relatadas -, a agência empregou métodos de interrogação violentos que, em 2010, levaram um suspeito (Gul Rahman) à morte.

Os conflitos despertados pelo trabalho do protagonista se assemelham, dadas as devidas proporções e considerando as relevantes diferenças, é importante reforçar, aos questionamentos que incidem sobre a chamada “Vaza Jato” (série de reportagens iniciada pelo The Intercept Brasil, que revela mensagens trocadas por membros da Operação Lava Jato). De acordo com os que o contestam, o conteúdo divulgado poderia desmoralizar o trabalho da CIA e sua importância no combate ao terrorismo; na ótica de seus defensores, a proporção das irregularidades encontradas possui fundamental e irrefutável interesse público, não podendo ser ocultadas.

Os dilemas que se colocam acirram a esfera política, onde Feinstein calcula cotidianamente as consequências de assumir a defesa irrestrita da divulgação do relatório. Nos EUA, o compromisso com o antiterrorismo se converte em capital eleitoral da mesma forma que, no Brasil, acontece com o discurso de combate à corrupção.

O Relatório crê religiosamente na força representativa dos atos que encena. Por isso, o roteiro de Scott Z. Burns (também diretor) investe em grandes discursos idealistas nos lugares onde, normalmente, estariam diálogos mais reveladores de suas personagens. A potencialização política sempre ocupa o lugar da emocional – numa aposta de que este aspecto possa envolver o espectador. Ainda que o protagonista seja voraz na realização de seus ideais – e a performance segura de Driver dá legitimidade a cada indignação de Dan com as ilicitudes que encontra -, lhe faltam nuances e conflitos para que o público se identifique verdadeiramente com sua luta.

As narrativas mais envolventes são aquelas que colocam as certezas à prova. E, se isto não vale para tudo na vida, ainda vale para o cinema. Enquanto dilemas políticos impactam tudo aquilo que cerca seu trabalho, Jones não dá qualquer sinal de titubeio ou temor: se isto o tornaria mais frágil enquanto indivíduo, certamente o fortaleceria como personagem.

 

O Relatório

The Report, EUA, 2019. De Scott Z. Burns.

Veredicto do Buteco: ★★½