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Pacto de Sangue

Após os créditos sobrepostos à silhueta de um homem que caminha sombriamente de muletas em direção à câmera até deixar a tela completamente negra, um carro surge em disparada na madrugada descendo as ruas de Los Angeles, derrapa no asfalto molhado, avança o sinal de pare e estaciona diante de um prédio. Sai do carro um homem com sobretudo às costas, caminhando com dificuldade, envolto em sombras e de costas para a câmera. Um velho porteiro abre-lhe a porta, estranhando seu aparecimento no prédio tão tarde da noite. O homem sobe de elevador até o 12º andar (Seguradora Pacífico) e, sempre acompanhado de sua sombra negra, dirige-se até uma sala onde começa a falar em um gravador: “Memorando. Walter Neff para Barton Keyes, diretor de indenizações. Los Angeles, 16 de junho de 1938…”. Ele, Walter Neff, vendedor de seguros, 35 anos, solteiro, “sem cicatrizes visíveis” – a não ser o que parece ser um tiro no lado esquerdo do peito –, confessa o assassinato de um homem, por dinheiro e por uma mulher, além de seu fracasso: “não consegui o dinheiro… e não consegui a mulher”. Ele continua: “Tudo começou pelo final de maio passado…”. Ocorre uma fusão, para o mesmo carro que, agora, sobe tranquilamente uma rua e estaciona diante de uma casa, num dia ensolarado, dando início ao flashback.

Assim começa Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944), do mestre Billy Wilder, escrito em colaboração com Raymond Chandler (baseado na novela policial de James M. Cain): um homem está morrendo e resolve confessar a seu amigo (e ao espectador) seus pecados – ambição e luxúria. A partir dessa confissão, o espectador já começa a prever os próximos lances do jogo estabelecido por Wilder, assim que é explicitado o primeiro olhar entre o personagem de Fred MacMurray e a mulher fatal interpretada por Barbara Stanwyck, que surge enrolada em uma toalha, no momento em que ele bate a sua porta para tentar renovar a apólice de seguros de seu marido.

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Pacto de Sangue é um marco do subgênero do filme policial denominado pela crítica francesa de film noir, em que, de um modo geral, as obras possuem uma iluminação expressiva – influenciada pelo Expressionismo alemão – gerando um clima sombrio que reflete um mundo de luz e sombras no qual uma moral maniqueísta e uma divisão simplista entre “bons” e “maus” cede espaço à decadência e ambiguidade dos personagens – que vão desde o narrador em off, onisciente de toda a história depois de ela já haver ocorrido, até a figura marcante da femme fatale, perigosa e sedutora, causadora dos principais conflitos internos que assolam o herói/anti-herói.

A estética noir está presente desde as primeiras cenas e perpassa o filme, ampliando o clima sombrio que desvela como o personagem de MacMurray acaba cedendo a seus impulsos mais obscuros, acarretando em seu trágico destino – já prenunciado no prólogo. Desde o asfalto molhado das ruas de Los Angeles aos interiores que sugerem “prisões” de luz e sombras (os reflexos das persianas nas paredes dos ambientes pouco iluminados), em que os personagens se veem cada vez mais encurralados. Na verdade, Pacto de Sangue tornou-se inspiração para vários filmes noir que se seguiram, ajudando a desenvolver as combinatórias e estratégias narrativas deste subgênero que se estabelecia naquele momento e, até hoje, é reverenciado como fundamental exemplar desta fascinante modalidade dramática.

Além do estilo visual funcional à trama de caráter sombrio, o filme conta com a grande habilidade de Wilder como narrador, criando cenas e diálogos memoráveis, encenados por um excepcional elenco que vai desde MacMurray, perfeito comoo bonachão e esperto Walter Neff que revela seu lado obscuro ao abraçar o crime, passando por Edward G. Robinson, compondo o sagaz e emotivo amigo Keyes, até Barbara Stanwyck, a ardilosa e fria Phyllis Dietrichson (com sua peruca absurdamente falsa – exatamente como Wilder gostaria que a personagem soasse) que nada poupa para atingir seus objetivos mesquinhos – destaque à cena em que o marido é assassinado e o enquadramento se detém no close-up com a expressão sutil e maliciosa de Stanwick, uma das atrizes mais admiradas pelo cineasta.

“A obra de Billy Wilder é uma das mais versáteis do cinema, percorrendo vários gêneros e subgêneros, conseguindo o difícil mérito de agradar tanto a crítica quanto o grande público”. Em seus filmes divertidos e acessíveis, inserem-se metáforas cínicas e sempre atuais sobre os aspectos mais contraditórios do ser humano. Este grande cineasta da chamada Hollywood Clássica soube utilizar-se dos elementos da linguagem cinematográfica, procurando contar histórias envolventes com eficácia e elegância, sempre buscando a funcionalidade entre forma e conteúdo. Tudo com muito sarcasmo e bom humor.

“Através de filmes engraçados ou sérios, Billy Wilder falava indiretamente de coisas profundas, tocando em tabus sociais e aspectos patéticos da natureza humana de forma divertida, bem-humorada, prazerosa: o verdadeiro entretenimento inteligente. Assim, acabou legando para a história do cinema um de seus acervos mais preciosos”.

* OBS: Trechos do livro Entretenimento inteligente:o cinema de Billy Wilder (Ed. UFMG, 2004), da autora deste artigo.

Nota:

 

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