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Crítica de Perfume de Mulher (1992)

poster perfume de mulherO CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A crítica de Perfume de Mulher possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação.

UM JOVEM INGÊNUO DECIDE TRABALHAR NO FERIADO E ACABA TOMANDO CONTA DE UM GROSSEIRO TENENTE CORONEL CEGO. A premissa básica de Perfume de Mulher (Scent of a Woman, 1992) é essa, mas não se engane menosprezando (ou se assustando com) os 156 minutos de filme.

Estrelado por Chris O’Donnell (que desbancou Ben Affleck, Matt Damon e Leonardo DiCaprio) e Al Pacino (que ganhou o seu primeiro Oscar vencendo Robert Downey Jr. e Clint Eastwood), Perfume de Mulher é uma aula de paciência, amor, honra e lealdade.

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Em determinado momento do filme, uma parente do tenente coronel diz que “apesar de difícil de lidar, ele era uma pessoa incrível. Ele vai crescendo em você e aposto que serão amigos até o fim do feriado”. Não poderia estar mais certa, pois é notável como a relação entre os dois personagens evolui de um nível insuportável de humilhação e ofensas gratuitas para algo paternal cheio de cumplicidade e respeito.

Como espectadores, nós sentimos isso graças ao trabalho do roteirista, que ao preparar essa adaptação de um romance italiano, dedicou toda a sua atenção para desenvolver os personagens deixando a história em segundo plano.

Como bem observado por uma amiga numa das edições do projeto 365 Filmes em um Ano, Perfume de Mulher poderia ser considerado como uma obra que aborda o “coming of age”, ou seja, o amadurecimento de um adolescente nessa transição para a vida adulta.

O jovem Charles (O’Donnell) começa a narrativa como um jovem tímido, ingênuo e travado para a vida. Após testemunhar um ato de vandalismo e decidir não apontar culpados, ele começa a conviver com o coronel, que se torna uma espécie de pai. Charles passa a viver coisas inéditas que o ajudam a entender melhor a si mesmo, o homem com que está convivendo e a vida em geral.

Destaco a reunião para um jantar de família que acaba muito mal. Naquela sequência inteira fica claro para Charles (e nós, como espectadores), que a angústia e depressão do coronel Frank Slade está na sensação de ser um inútil odiado pelo irmão e sobrinhos. Esse jantar marca a virada na relação entre os dois, que deixam de apenas se tolerar para começar a se respeitar.

A sequência mais marcante de Perfume de Mulher é aquela em que Pacino mostra seu talento dançando tango. Dizem que foram duas semanas treinando para um trabalho de filmagem em 3 dias. O resultado é arrepiante. Primeiro porque começa com a dupla cortejando uma jovem insatisfeita e magoada pelo atraso do parceiro.

A sutileza e confiança com que Frank se comunica com as mulheres é magnética. Deixa gente menos talentosa se perguntando o que diabos ele fez. Engraçado como um cara desbocado assim consegue se transformar totalmente para mostrar toda a classe e respeito que mantém guardada apenas para lidar com as garotas.

Aliás, sei que não é a intenção da crítica de Perfume de Mulher entrar na discussão entre filmes dublados ou legendados, mas qualquer defensor da dublagem deveria conhecer o trabalho de Pacino. Seja gritando ofensas ou pérolas do sarcasmo, Pacino mostra (para quem não entendeu ainda) que a entonação é FUNDAMENTAL no trabalho do ator. Sua comunicação é marca registrada do longa.

Perfume de Mulher é um trabalho excepcional de Al Pacino – e apenas por isso já valeria a recomendação. Caso você ainda não tenha tido a oportunidade de se aventurar com essa história, não espere muito para mudar isso. Tenho certeza que será um verdadeiro presente cinematográfico daqueles que você ficará se perguntando porque demorou tanto tempo para assistir.

Veja a crítica de Perfume de Mulher no projeto 365 Filmes em um Ano: