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Petra Costa em Vertigem

Indicado ao Oscar 2020 de melhor documentário, Democracia em Vertigem é a visão tórpida de uma documentarista sobre a realidade brasileira.

A PRIMEIRA FRASE AUDÍVEL de Democracia em Vertigem (Brasil, 2020) é de autoria de Eliane Cantanhêde, jornalista e comentarista da Globo News, canal de notícias do Grupo Globo. Hoje acusado de “petista”, num país presidido por Jair Bolsonaro, o veículo recebia a sonora pecha do “golpismo” durante o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, no ano de 2016 – episódio histórico que este filme se propõe a retratar. Petra Costa, realizadora da produção, provavelmente esteve entre as pessoas que entoaram esse último coro.

DEMOCRACIA EM VERTIGEM TEM CHANCE NO OSCAR?

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Num lamento perceptível pelo tom de sua voz (Costa narra o longa-metragem), a diretora relata as três derrotas de Luís Inácio Lula da Silva em eleições presidenciais (1989, 1994 e 1998). Ilustrada por imagens de arquivo pessoal, sua vitória no pleito de 2002 registra a esperança originada da alçada de um operário à presidência. O auge da carta de amor da cineasta se dá na descrição de uma cena: “Olha quanto tempo ele leva para atravessar o Congresso. Um escultor, cujo material é a argila humana” (!).

Num raríssimo suspiro, a obra se permite criticar o presidente Lula, em função da coalizão de seu governo com o PMDB: “Eu esperava que Lula reformasse eticamente o sistema político”, diz a narração. A seguir, oferece um mea culpa ao seu ícone: “Ao mesmo tempo, eu estava vendo 20 milhões de pessoas saindo da fome”

Costa e seu Democracia em Vertigem emulam a representação de um grupo que, sem fazer juízo de valor sobre sua honestidade, acredita inadvertidamente nos anos de governo do Partido dos Trabalhadores (2003-2016) como transformadores do Brasil numa nação livre de desigualdades sociais, frutífera de oportunidades para todo e qualquer um de seus cidadãos e dotada de uma epidemia de promoção de justiça. Essa visão interpreta um país, hoje, fragmentado entre um povo honesto e trabalhador que venera o ex-presidente Lula.

Pode-se compreender a legitimidade da percepção deste último grupo, uma vez que as oportunidades que recebeu foram justamente durante os seus mandatos, como revela o depoimento de uma mãe cuja filha ingressou na faculdade graças a medidas públicas promovidas no período. Por outro lado, temos os “manifestantes da Paulista”, gente de elite, preconceituosa, contra cotas e antipática aos mais pobres. Não à toa, o primeiro depoimento crítico ao político é o de uma mulher que personifica com precisão esse estereótipo. 

No que diz respeito a alguém que não se enquadra em nenhum dos dois “grupos”, contudo, trata-se de uma visão torpe ou intelectualmente desonesta da realidade. É natural que as pessoas que tiveram vidas de miséria factualmente alteradas por medidas públicas promovidas entre 2003 e 2010 adorem Lula. Desonesto é instrumentalizá-las para arquitetar uma versão infactível da história. Os mesmos brasileiros amplamente beneficiados pelos programas petistas têm a noção das cruéis desigualdades que persistem no país – e as sentem à sua volta. Não parece crível, também, que elas encarem a classe média que se manifestou contra Dilma de forma tão estigmatizada e sórdida. Exceto para quem as reduz a personagens de sua própria narrativa – à lá Democracia em Vertigem.

Quando assistimos ao filme O Processo (2018), produção pouco anterior sobre o mesmo episódio, o mesmo não ocorre. Não que se trate de certo ou errado – rótulo inexistente quando se analisa uma obra de arte -, mas é difícil imaginar que sua diretora, Maria Augusta Ramos, perpetuasse tal visão. Isto porque ela teve contato próximo com a injustiça do sistema carcerário no trato com crianças e adolescentes pobres em Juízo (2008), gravado durante o governo Lula. Em certo momento, Costa descreve a vitória de Dilma como “uma realidade mais próxima daquela com a qual eu sonhei”. Ramos, por sua vez, sabe que a realidade do sonho nunca se concretizou; ao menos para os menos abastados. Seu documentário pode estar longe da perfeição, mas não promove uma percepção tão quimérica da realidade – ainda que nenhum documentário precise assinar um termo de compromisso com ela.

Até aqueles que não se atêm à pureza da forma documental, porém, preferem fazê-lo. Os filmes de Adirley Queirós, por exemplo, são reflexos muito mais fidedignos do que, de fato, é o Brasil. A cena em que Dildo, protagonista de A Cidade é uma Só? (2011), caminha sozinho em sua humilde (e fictícia) campanha para deputado distrital até esbarrar com uma grandiloquente carreata de campanha petista, ilustra o sintoma: tal qual os outros, o PT passou a representar uma política das elites, pouco acessível às massas trabalhadoras que, no discurso, afirma representar. O operário Luís Inácio, que há menos de duas décadas chegou à presidência, hoje não seria autorizado a subir num carro de som do PT. Como Dildo, o veria de longe. Essa é uma visão muito mais complexa – e, portanto, lúcida – daquilo que se construiu no Brasil do chamado “lulopetismo”. Aquela que aponta a verdade de suas melhorias, mas sabe que a realidade não se tornou doce e colorida.

Recém-indicado ao Oscar, Democracia em Vertigem, no entanto, acredita rigorosamente em conluios das elites e entidades mal-intencionadas (forças do mal, quem sabe?) contra o projeto nacional do PT. Uma versão conspiratória e, provavelmente, mais divertida da vida real. Torpe, porque entorpece. Um fotógrafo sabe que, embora fotografias não sejam ou sequer tenham a pretensão de ser retratos puros da realidade, há limites para as alterações que pode fazer em uma – exceto quando se trata, assumidamente, de um experimento ficcional.

Um documentarista, sobretudo ao lidar com um episódio político recente, inflamável e marcante para o espectador, deve ter a mesma noção do que representa. Costa prefere desprezar esse entendimento. Não que o filme se torne, de qualquer forma, ameaçador por causa disso – há menos desinformação proposital do que no longa “1964: O Brasil entre armas e livros” (2019), por exemplo. Na verdade, ele quase soa inocente. Quase como se desejasse um conselho, um choque de elucidação. Pois bem: não é que houvesse um paraíso sendo construído, Petra. O pesadelo apenas ficou pior. Isso pode confundir um pouco as coisas.