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O Rei da Comédia

por Guilherme de Paula

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A LINHA TÊNUE ENTRE admirar e invejar as celebridades é o tema principal do longa, não menos cultuado, embora pouco conhecido O Rei da Comédia, de Martin Scorsese. Lançado em menos de dez anos após dois dos maiores clássicos do diretor (Taxi Driver e Touro Indomável), o filme satiriza o culto a celebridade, o sentimento de rejeição, e a incapacidade das pessoas de seguirem o seu próprio caminho. Reféns da sua mediocridade, o outro (celebridade) serve como uma fuga do seu mundo em direção ao suposto paraíso do qual elas não pertencem.

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Lançado no mercado norte-americano em 1983, o filme não teve a receptividade que merecia. A dupla Scorsese/De Niro dessa vez fracassara. Ambientado em uma Manhattan dos anos 80, antes da limpeza geral que o prefeito Rudolph Giuliani faria na cidade, e a política do “Stop and Frisk” (clique aqui para saber do que se trata), de Bloomberg, Robert De Niro interpreta um aspirante a comediante chamado Rupert Pumpkin, cuja obsessão é se tornar, ou mais, é ser, o enfadado apresentador do talk show onde a estrela é Jerry Langford, brilhantemente interpretado por Jerry Lewis.

Para conhecer seu ídolo, Pumpkin arquiteta um plano com Masha (Sandra Bernhard) na saída de um dos seus programas. Enquanto ela invade a limusine do apresentador com os hormônios a flor da pele, Pumpkin o resgata e se apresenta como a nova estrela da comédia de Nova York. Cinco minutos de conversa entre um artista que quer se livrar do seu fã é o bastante para Pumpkin começar a ter delírios de intimidade com Langford, a ponto de imaginar que o apresentador lhe implore que assuma o seu programa por seis semanas.

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No porão da sua casa, onde os delírios são mais constantes, Pumpkin realiza uma entrevista com Langford e Liza Minelli feitos de papelão em tamanho real, interrompida aos gritos pela sua mãe. A alucinação é tanta que Pumpkin, que conhece todos os detalhes da vida de Langford, viaja acompanhado de uma amiga de tempos de escola para passar um fim de semana na casa de campo do ídolo. Quando tocado para fora da mansão, ele atribui o ato de Langford ao cansaço. E quando sai para jantar com Rita, para impressioná-la, mostra o seu caderno de autógrafos. Ao chegar ao limite, Pumpkin e Masha sequestram o ídolo para conseguirem o que querem: aparição no programa de Langford para Pumpkin, e uma noite de sexo com ele para Masha.

Entre os devaneios do protagonista, é possível observar a belíssima fotografia do filme que nós remete a uma espécie de claustrofobia, presente nos personagens. É interessante lembrar que O Rei da Comédia foi rodado logo após o presidente americano Ronald Reagan levar um tiro de John Hinckley, um jovem obcecado por Taxi Driver, em especial Jodie Foster.

Escrito por Paul D. Zimmerman, em mãos menos hábeis O Rei da Comédia poderia ter virado um filme de estilo humor negro, debochado, em busca do riso fácil. Não é o caso. Há algumas risadas, em especial os delírios no porão da casa da mãe de Pumpkin. Mas ele não é todo engraçado. E provavelmente nem era para ser. O que Scorsese busca é a reflexão, o que torna a obra tão atemporal.

Portanto, dizer que O Rei da Comédia não foi bem aceito pelo público por estar à frente do seu tempo, é cair no discurso raso, sem argumentos, que encerram uma discussão. O filme não foi adotado pelo público porque faltava a raiva dos anteriores, e não trouxe a comédia que o título do longa promete. Scorsese não deixa sua obra cair na gargalhada. Sua obra não escorre para o humor negro. Diferentemente de outros trabalho do diretor, não queremos ser o De Niro. Ele é patético. E por isso o filme é tão bom.

Assista ao trailer:

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Texto de autoria de Guilherme de Paula Pires. 27 anos, Jornalista e curitibano de leite quente. Ele é o editor do blog Quase Um Sequestro.

Nota:[tresemeia]