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Crítica: Tudo Acontece em Elizabethtown (2005)

CAMERON CROWE TALVEZ SEJA UM DOS MEUS CINEASTAS FAVORITOS porque sabe combinar a arte de contar uma boa história usando referências pop e uma trilha sonora de impacto. Se a pessoa tem um estilo (influenciado pelas comédias de Billy Wilder) e bom gosto musical, não tem como dar errado, né?

Pior que tem.

Tudo Acontece em Elizabethtown (Elizabethtown, 2005) não passou no teste do tempo e das revisões. Quando o longa-metragem foi lançado e fui até a locadora para alugar o DVD, pois sou velho assim, tinha certeza que estava conferindo uma história única e apaixonante com a qual consegui me identificar mais do que gostaria.

Sempre me vi como o excluído que não tinha resultados em nada e inadequado para viver qualquer coisa boa. Orlando Bloom e Kirsten Dunst deram nome ao termo que até hoje me parece um eco fantasmagórico: “os substitutos”. Aquelas pessoas quebra-galho que só servem para passar o tempo enquanto os protagonistas não chegam.

Quando eles passam horas conversando pelo celular (e Crowe é sensível ao ponto de retratar com perfeição esse momento em que você fica com cara de idiota achando que tá falando com a mulher da sua vida) e depois se encontram para ver o nascer do sol juntinhos é algo que ainda funciona, mas perde todo o encanto justamente por todos os problemas que Elizabethtown possui.

Fracasso, relacionamentos familiares, luto, autoconhecimento, uma viagem, busca pelo amor… Todas essas coisas poderiam gerar belos filmes – aliás, geram belos filmes. Talvez esse seja o grande problema do trabalho de Crowe em Tudo Acontece em Elizabethtown: ele tenta colocar coisa demais num único longa-metragem e acaba sendo punido por isso. Claro que escolher um Orlando Bloom para viver o protagonista não ajudou, especialmente com tantas possibilidades de caminhos a serem seguidos, o que implica em nuances que o eterno Legolas simplesmente não possui.

É uma pena que o longa tenha os minutos iniciais tão brilhantes com a narração em off e uma sutileza ímpar de que não precisa falar para mostrar ao público o que se passa com o personagem, mas logo perca o controle e vire uma salada de frutas cinematográfica que se encerra num road movie.

Até o lançamento de Kingsman, Elizabethtown tinha o título de melhor utilização de “Free Bird” da história do cinema no velório do pai do protagonista. Mas ver um agente secreto matando um monte de religioso pirado dentro de uma igreja numa narrativa toda estilizada e ao som dessa música é insuperável. Como fãs de Cameron Crowe gostam de música, acho pertinente dar a dica.

Não estou dizendo que desgosto de Tudo Acontece em Elizabethtown, mas a real é que precisamos ter foco na vida em qualquer coisa. Se seu desejo é preferir ver FRIENDS ao invés de ficar com quem te ama, então faça isso. Mas não tente fazer maratona de FRIENDS enquanto prepara o jantar, lava o banheiro e tenta parecer atraente para sua lagosta. Simplesmente não dá. Você precisa escolher o que quer e seguir esse caminho.

Preservo um imenso carinho por tudo que esse filme significou uma vez e passou a significar agora, mas o carisma do personagem e o senso de humor leve de Crowe não foram o bastante para ignorar que existe um clima excessivamente de sessão da tarde que contribui negativamente para o legado do cara responsável por Jerry Maguire e Quase Famosos.

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