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As Mais Belas Histórias de Amor do Cinema: Felizes Juntos

Felizes Juntos(Happy Together). De Wong Kar-Wai. Com: Leslie Cheung, Tony Leung Chiu Wai, Chang Chen. Felizes juntos

Mais uma de Wong Kar-Wai. Quem acompanha o blog sabe da minha admiração pelo diretor. Gosto dele, do estilo. Se fosse fazer algum filme um dia certamente algumas influências seriam percebidas. E numa série sobre histórias de amor um filme do diretor não podia faltar. Como comprovado emAmor à Flor da Pele e Um Beijo Roubado (e ainda 2046, sobre o qual não escrevi ainda), seus filmes falam disso. Mas não é esse amor convencional, que vemos ou que esperamos ver normalmente. É de amores mal sucedidos que ele gosta de falar. Ou pelo menos aqueles que encontram muitos percalços até que possam dar certo de fato. Os amantes da vez, Ho Po-Wing (Cheung) e Lai Yui-Fai (Leung), saem de Hong Kong e viajam para a Buenos Aires onde vão passar um tempo antes de partir para Foz do Iguaçu, afim de conhecer aquela famosa catarata que vêem estampada no belo abajur que possuem. O fato é que o namoro dos dois não sobrevive a falta de dinheiro e às dificuldades que um país estranho oferece. Se separam. A verdade é que não estão perdidos apenas em um novo país, mas na relação mesmo que vivem! Um passa a fazer bicos e trabalhar como pode. O outro se prostitui. Encontros entre os dois acontecem. E uma nova oportunidade para viverem juntos aparece. Será que vale a pena?

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Impossibilitado de trabalhar após ter sofrido sérias agressões por parte de seus clientes Po-Wing fica aos cuidados de Yui-Fai, que por sua vez acaba conhecendo um rapaz em um de seus empregos, Chang (Chang), que, segundo suas próprias palavras se apaixona mais pela voz do que pela imagem das pessoas – é portanto aquele que está sempre pronto a ouvir, o que de certa forma conforta Yui-Fai.
Brigas, sexo, atração, amor… Recomeço. A primeira palavra do filme. Será melhor conservar as lembranças que se tem de um amor que não deu certo, ou assumir um risco de recomeçar uma relação, o que pode machucar ainda mais ambos?
A beleza está nas pequenas coisas, gestos, falas e objetos, com na cena em que Chang leva as tristezas de Fai para um Farol no fim do mundo, que segundo ele, estavam guardadas numa gravação em fita K7; ou a representatividade que um objeto (o tal abajur) pode trazer: o sonho de um dia ser felizes juntos e realizar projetos, que se despedaça quando vai de encontro às variações dos sentimentos daqueles dois.

É inconfundível o estilo do diretor (que ganhou a Palma de Ouro em Cannes pelo filme). O abuso de trilha sonora (a imagem das cataratas que os dois amantes queriam visitar juntos, com Caetano Veloso ao fundo: coisa linda!). A forma como transporta o olhar do personagem para a câmera, daquele que sofre pelo amor que tem que suprimir, pela não reciprocidade: utilizando da falta de foco nas imagens, do preto e branco melancólico, automáticamente as sensações são experimentadas. E o trato dos personagens, que em momento algum vivem uma história de amor que desejaríamos viver. Mas que nunca deixa de ser significativa por fazer parte desta eterna busca pela felicidade que todos experimentamos de uma forma ou de outra; juntos ou sós. É sobre o desencanto e a vida que tem que seguir, mesmo sem aquele amor que se acreditava ser eterno. Como se a eternidade estivesse apenas guardada na lembrança das coisas boas que aquele sentimento nos trazia quando ainda vivo. Vale a pena. O próximo da lista é Nós que nos amávamos tanto, de Ettora Scola

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