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Romance

Um Sonho de Amor

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UM FILME GRANDIOSO QUE TRATA DOS SENTIMENTOS NAS SUAS MAIS DELICADAS MANIFESTAÇÕES. Assim pode se resumir a intenção de Luca Guadagnino em Um Sonho de Amor (péssima tradução para Il Sono L’amore). Desde as cenas iniciais, onde além dos créditos vemos uma Milão filmada com intenções de frieza, até as cenas paradisíacas em Sanremo cujo calor anuncia sensações que serão em breve estimuladas na vida daqueles personagens, descobrimos que acompanhamos a história de pessoas que o tempo todo estão cercados pelas regras e conveniências típicas de uma abastada família italiana. Há algo ali por se dizer. Há sempre uma sensação de que não se conhece bem aqueles personagens, de que algo está para acontecer. Para olhos mais atentos a sólida família Recchi está prestes a  revelar a verdade sobre si mesma. É este processo que o filme acompanha.

Seria mais justo descrever o filme apenas através de imagens. A sensação que se tem é que ele poderia prescindir dos diálogos para acontecer. A união da câmera de Guadagnino, da trilha sonora de John Adams (de Ilha do Medo) e das performances contidas do afiado elenco já funcionariam sem uma fala sequer. De fato é aí que está o poder de Um Sonho de Amor: quando consegue captar aquilo que está entre, aquilo que não foi dito: um olhar que procura reconfortar o outro; o movimento de lábios prestes a dizer algo, quando se cala; a mão que espera pelo toque daquele que se deseja.

As sensibilidades que estavam escondidas encontram lugar no personagem da matriarca Emma (Tilda Swinton, perfeita), uma mulher que se esqueceu de suas origens russas em favor de seu casamento com Tancredi (Pippo Delbono). É interessante perceber como o processo pelo qual passa a personagem a leva a perceber que a felicidade ainda não estava ali, em sua vida, apesar da família formada, bem sucedida e bem representada pela figura desta mulher impecável e perfeccionista (percebe-se isto com o cuidado com que pensa os lugares que seus convidados irão tomar à mesa, no jantar em comemoração ao aniversário do avô).

É numa simples refeição com a sogra e a nora que ela redescrobre sensibilidades adormecidas, prazeres não mais experimentados, e se deixa levar quase que num impulso por sobrevivência, por um respiro buscando aquilo que ela acredita (sem ainda racionalizar sobre isto) ser aquilo que ela merece: viver o amor. Libertar-se. E é quando há a ruptura com a realidade (no caso, a partir da morte) que há também a falta de compromisso com o olhar do outro: Emma que viver.

A expressividade de Swinton é um capítulo à parte e a humanidade que ela confere à personagem que se encontra numa avalanche de sentimentos diversos e mutantes é importantíssima para o sucesso do filme. As sequências finais de Um Sonho de Amor surpreendem pela sensação que causam: se passam em lugares gigantescos – catedrais, mansões, mas são assustadoramente opressoras. Assistir à libertação de Emma é como assistir a um parto.
Repleto de sequências de grande apuro visual, que ao lado do roteiro que acerta quando opta pelas subjetividades, Um Sonho de Amor consegue ser magnífico. Um filme que apetece todos os sentidos. Imperdível.


Il Sono L’amore (2009)
Diretor: Luca Guadagnino
Roteiro: Luca Guadagnino, Barbara Alberti, Ivan Cotroneo e Walter Fasano
Elenco: Tilda Swinton, Flavio Parenti, Edoardo Gabbriellini, Pippo Delbono


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Comédia

Crítica de Alguém Avisa: comédia sólida sobre sexualidade

Quando anunciaram Alguém Avisa (Happiest Season, EUA, 2020) em 2018, achei o projeto interessante por causa da questão da representatividade. Porém, não esperava muito mais do que uma divertida história de amor entre duas mulheres. Após assistir ao filme, preciso dizer que fui surpreendida. 

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alguém avisa crítica filme 2020

Crítica de Alguém Avisa: comédia sólida sobre sexualidade.

Quando anunciaram Alguém Avisa (Happiest Season, EUA, 2020) em 2018, achei o projeto interessante por causa de sua representatividade. Porém, não esperava muito mais do que uma divertida história de amor entre duas mulheres. Após assistir ao filme, preciso dizer que fui surpreendida.

Abby (Kristen Stewart) e Harper (Mackenzie Davis) estão juntas há um ano. A introdução do filme serve para nos apresentar, por meio de imagens, a história do casal. Conheceram-se numa festa pouco antes do Natal e, desde então, têm um relacionamento feliz e apaixonado. Em um momento de impulsividade, Harper convida Abby – que pretende pedi-la em casamento – para passar o Natal com sua família. O problema é que os pais (Mary Steenburgen e Victor Garber) e irmãs (Alison Brie e Mary Holland) não sabem da sua sexualidade, o que obriga a namorada a voltar ao “armário” por alguns dias, até o fim da celebração.

O que o filme tem de especial?

Alguém Avisa? é uma comédia romântica de Natal, com todos os clichês e previsibilidade desse tipo de produção. Temos momentos de humor, dramas familiares, alguns personagens irritantes, outros engraçados. Nenhuma novidade para quem já viu Simplesmente Amor (2003), O Amor Não Tira Férias e/ou Uma Segunda Chance para Amar (2019). Mas não acredito que a proposta de Clea Duvall, que dirigiu e co-escreveu o filme com Holland, tenha sido inovar as comédias românticas natalinas.

O que Duvall faz em seu segundo filme como diretora é algo semelhante ao que Greg Berlanti fez em Com Amor, Simon (2018). Trata-se de um longa leve, sutil, mas que tem êxito ao abordar o tema sexualidade. É fácil se identificar com a chateação de Abby, pois a pessoa que ama ainda não dá conta de dizer à família que a ama também. Assim como é fácil compreender o medo de Harper em assumir quem realmente é, pois teve, ao lado das irmãs, uma criação rígida e competitiva, que a fez se esconder durante grande parte da vida e somente mostrar o que era esperado dela.

Julgar é fácil

Inicialmente, podemos julgar Harper e suas atitudes. Riley (Aubrey Plaza), um relacionamento passado da personagem, entra em cena para trazer à tona as questões mal resolvidas que esta tem consigo mesma. Não é vilã. Aliás, bem longe disso! Mas John (Dan Levy) está lá para nos fazer ter mais empatia. Harper tem seus defeitos, como todos nós, só que é fácil julgar de fora a vergonha dela em “sair do armário”. Nem todo mundo tem a mesma família, criação ou sofre as mesmas pressões. Cada um vive a sua realidade e age da maneira que consegue no momento. Existem pessoas que assumem a sua sexualidade na adolescência; outras já adultas; e outras que nem chegam a fazer isso. São escolhas fruto do livre-arbítrio de cada um, e cabe a nós respeitá-las. Quem vai lidar com as consequências disso são elas e não a gente.

Duvall e Holland aproveitam o tema da sexualidade para também discutir sobre família. Por mais que os indivíduos sejam, em teoria, livres para fazerem o que quiserem, o exemplo que têm dos pais faz a diferença. Criar um ser humano é algo de tamanha responsabilidade, portanto, muitas ações dos filhos são um reflexo do que foram ensinados ou do que viam em casa. Os acontecimentos do terceiro ato deixam isso em evidência para Tipper (Steenburgen) e Ted (Garber).

Veredito

Alguém Avisa? junta os ingredientes de comédias românticas, o clima de Natal e traz uma pitada leve, mas saborosa, de sexualidade. O elenco também é ótimo, especialmente Stewart (finalmente a vi em uma comédia!), Plaza (exala sexualidade por todos os lados) e Levy (o amigo gay que todo mundo ama).

https://www.youtube.com/watch?v=OX2KysLFLI0

 

Crítica de Alguém Avisa: comédia sólida sobre sexualidade

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Críticas de filmes

Vanilla Sky (2001)

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crítica de vanilla sky - tom cruise

melhores filmes de romance dos anos 2000 - vanilla sky posterVANILLA SKY É UM DAQUELES FILMES QUE NUNCA CANSAMOS DE DISCUTIR. Dirigido por Cameron Crowe, o longa é uma adaptação norte-americana do espanhol Preso na Escuridão (Abre los Ojos, Alejandro Amenábar, 1997) e coloca Tom Cruise, Penélope Cruz, Cameron Diaz, Kurt Russell e Jason Lee numa trama misteriosa em que nada é o que realmente parece ser.

Cruise, que havia trabalhado com Crowe anos antes em Jerry Maguire, vive o protagonista David Aames. Um homem cuja vida é um verdadeiro sonho para outras pessoas: ele tem dinheiro, ele é bonito, tem várias garotas interessadas, talentoso etc, MAS não sabe ao certo como VALORIZAR o que tem ao seu alcance. Isso faz com que leve uma vida descuidada até conhecer a personagem de Penélope Cruz.

Sofia Serrano faz David Aames parar e refletir sobre o estilo de vida que está levando. Bastou apenas um único encontro para que a espanhola (que curiosamente também está no elenco do original) para tudo mudar e ele desejar se tornar uma pessoa diferente. No entanto, somos feitos de atitudes, e não de nossas vontades.

Como um teste cruel do destino, assim que deixa a casa de Sofia, após passarem uma noite em claro sem foderem como coelhos apenas conversando e se apaixonando, Aames é surpreendido por Julie Gianni (Cameron Diaz), que na noite anterior ganhou o apelido de “garota mais triste segurando um Martini”. Ela usa sua lábia para convencê-lo a entrar em seu carro. Notem como Cruise faz uma expressão maravilhosa de “por que Deus está me testando assim? Logo agora que decidi ser uma pessoa melhor?”, que só quem SABE o que é ser um cuzão com o sentimento de outras pessoas sabe o que significa.

Durante o caminho, Julie dá uma pirada básica. Se para Aames, todas as relações em sua vida eram casuais e sem importância, quase como uma carta branca para nunca precisar se preocupar com o sentimento das suas conquistas (que são apenas isso), Julie pensava totalmente diferente. “Eu engoli a sua porra”, ela diz. Para ela isso significa um comprometimento profundo, uma relação verdadeira. E claro, ser deixada para dançar sozinha com o garçom ou ficar conversando com o amigo desprezado, não é exatamente o que ela chama de relacionamento. Cameron Diaz é uma atriz maravilhosa, que a gente talvez nunca tenha valorizado do jeito certo. O que ela faz em Vanilla Sky é muito especial.

Lembrando daqueles minutos iniciais de Vanilla Sky quando Julie e David parecem “encenar” uma vida de casal bem teatral, é fácil questionar se para ela era apenas “fingimento”. Aliás, a vida toda de David é como se fosse uma encenação, não é mesmo? Até quando conhece Sofia, eles agem com aquele encantamento que causa frio na barriga e nos faz agir de forma impulsiva, engraçadinha e atenta para chamar a atenção um do outro.

Cruise cria um personagem maravilhoso mesmo quando usa a máscara. Para um ator tão acostumado a se apoiar nos sorrisos sedutores e olhares que dizem tanto, ficar sem esses recursos e conseguir surpreender é um grande mérito. Aames é um cara que TENTA mudar, tenta ser um cara do bem, viver algo legal com uma mulher, mas se dá mal ao provar o quanto a vida pode ser doce e amarga.

Ainda no elenco, nós temos Kurt Russell vivendo um psicólogo que ao mesmo tempo que pode ser tanto a própria encarnação do próprio Aames feita pelo seu inconsciente quanto a idealização de uma figura paterna compreensiva que faltou em sua vida. Qualquer que seja o caminho que você escolher interpretar, Russell dá um show com um personagem aparentemente pequeno, mas que faz grande diferença.

Cameron Crowe é um cineasta que veio do mundo da música, com experiência como jornalista musical (retratada em Quase Famosos), e casado com Nancy Wilson, da banda Heart (eles se divorciaram em 2010). Por isso, não é de surpreender que as músicas tenham papel fundamental na narrativa. Seja pela capa do cd do Bob Dylan no quarto de David que logo depois é reencenada por ele e Sofia, pelo Radiohead tocando em dois momentos especiais (“Everything is in this Right Place” no começo; “I Might Be Wrong” numa cena num bar), Joan Osborn emprestando “One of Us” para uma gritaria louca de Tom Cruise, ou o anjo Jeff Buckley sendo ouvido após o final do encontro com Sofia, somos presenteados com momentos especiais.

Gosto das brincadeiras com sonhos que Crowe faz ao longo da história. Ele é cruel na sequência da balada, desde a iluminação azulada remetendo a sonho até Tom se embebedando no meio das pessoas; depois quando ele acorda na sarjeta com Sofia e eles andam juntinhos para longe da câmera, como num sonho, e no frame seguinte, temos Cruise aprisionado caminhando para perto da câmera, como a triste realidade; enfim, temos alguns momentos assim, mas o forte são as questões colocadas.

Existem algumas teorias sobre Vanilla Sky. Você certamente tem a sua, né? Um adesivo no parabrisa do carro de David tem a data de 31 de fevereiro, o que pode (ou não) significar que nada daquilo é real. Outra ideia, que me parece interessante, é imaginar que toda a vida de David no começo da história era um sonho. Ele tem TUDO que alguém pode querer, né? E por último, podemos imaginar que, cansado de viver de aparências, o David quis viver um sonho em que ficasse feio para ver se alguém seria capaz de se apaixonar por ele.

A verdade é que NÃO existem interpretações incorretas para Vanilla Sky. A certa é aquela que fizer mais sentido para você, como espectador.

Cameron Crowe pode não ter tido uma carreira tão bem sucedida após Quase Famosos, mas é inegável que seu trabalho seguinte tenha alcançado o seu objetivo de produzir uma história que pudesse sobreviver após a experiência cinematográfica. Vanilla Sky é muito mais interessante do que parece. Quase como um verdadeiro sonho que nos faz questionar o que acreditamos ter entendido até que abrimos nossos olhos… E bem, eu gosto do que vejo.

Assista a crítica do filme Vanilla Sky na edição 223 do projeto 365 Filmes em um Ano:

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Críticas de filmes

O Lagosta (2015)

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critica o lagosta

O CINEMA DE BUTECO ORGULHOSAMENTE RECEBE A CONVIDADA ESPECIAL ALINE PARA ESCREVER A CRÍTICA DE O LAGOSTA.

O que é isso que eles chamam de “amor”? cantam Sophia Loren e Tonis Maroudas na melancólica música que encerra esta história de amor pouco convencional, dirigida pelo grego Yorgos Lanthimos.
No roteiro escrito em parceria com Efthymis Filippou, os acontecimentos se passam numa distopia na qual pessoas solteiras são obrigadas a encontrarem seus pares confinadas num hotel, dentro de um prazo de 45 dias. Caso a missão falhe, serão transformadas, literalmente, em um animal de própria escolha.
Para quem não está acostumado com as premissas excêntricas que costumam habitar os projetos desse diretor, que tampouco se preocupa em dar maiores explicações, pode ser difícil enxergar um romance nessa história.
Além disso, a forma apática como os personagens articulam suas falas, como desprovidos de emoção e vontade própria, pode prejudicar o processo de identificação.
Porém, o que torna este filme fascinante é a forma como ele critica a concepção de relacionamento ideal. Tudo permeado por um humor deliciosamente sarcástico, que nos faz rir das regras absurdas impostas pela sociedade nessa eterna caçada pelo amor.
Desde o processo da conquista, o que buscamos no outro, como nos caracterizamos para as pessoas, o porquê da necessidade de se estar em um relacionamento e enfim, o que é preciso para manter um casamento bem-sucedido. A piada sobre filhos para “resolver” as crises é apenas uma das críticas sutis do filme que, apesar do tom absurdo, não deixa de manter relação com a nossa realidade.
Num determinado momento, somos apresentados aos rebeldes desse sistema, os Solitários, que vivem na floresta nos arredores do hotel. Eles, por sua vez, vivem sob outras regras, tão rígidas quanto as da instituição que desejam destruir. São proibidos o afeto e a intimidade. As punições partem desde mutilações até a morte solitária, numa cova cavada pelo próprio “infrator”. Mesmo durante uma comemoração, cada um dança sozinho sua própria coreografia de música eletrônica. Até mesmo o vislumbre de uma personagem isolada jogando seu Resta 1, demonstram a frieza da solidão.
Entre esses dois extremos, surge uma história de amor, que se inicia como tantas outras: num meio adverso e improvável, evoluindo para o encantamento e a criação de todo um mundo particular, com direito até a uma bizarra linguagem própria. No entanto, o caminho para o final feliz se depara com os velhos obstáculos: a inveja, os ciúmes e as dúvidas em relação aos sentimentos.
Afinal, o amor é algo que foi construído culturalmente e, por isso, deve seguir as regras sociais para perdurar ou é mesmo um sentimento livre que para perseverar necessita se libertar das amarras impostas tanto pelo coletivo como as individuais? Até que ponto vale se sacrificar por amor? Vale a pena viver numa mentira apenas para manter um relacionamento?
Eu particularmente adoro obras que me deixam cheias de perguntas, bagunçam minhas visões do mundo, demonstram outros pontos de vista. Agora, se a vibe é de ver uma história de amor fofa, que dê um calorzinho gostoso no coração, fuja para as montanhas! Os gregos não brincam em serviço!
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Bombando!