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Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1

DE UMA COISA EU NÃO GOSTARIA DE SER ACUSADO NUNCA: de ser injusto quando falo de qualquer filme da Saga Crepúsculo. Eu assisti Lua Nova (devidamente resenhado aqui) e Eclipse (o meu favorito, mas que o texto acabou sendo publicado recentemente pelas mãos do nosso DJ Wendel Wonka) acompanhado, fazendo o papel de bom moço. Em Lua Nova tive que lidar com os suspiros da menina que estava comigo e com metade da sala praticamente gemendo cada vez que Jacob (Taylor Lautner) ou Edward (Robert Pattinson) revelavam o seu amor pela maluca da Bella (Kristen Stewart).  Acho deve ser alguma coisa relacionada ao nome. Nenhuma Isabella é muito normal. Enfim. Tive que lidar com essa bosta toda, como se o filme já não fosse o suficiente.

Eclipse me agradou. Por algum motivo oculto não perdi meu tempo escrevendo sobre o filme, mas a situação foi um pouco diferente. Fui acompanhado de outra garota, que por curiosidade também tinha “ella” no nome. Retiro o que disse no final do parágrafo anterior. Talvez o problema seja dessa combinação de letras. “Ella”. Muito cuidado, caro leitor, quando conhecer alguma coisa “Ella”. Ao contrário da menina que eu namorava, essa “Ella” tinha outros problemas, mas certamente escapou da delinquência mental ao me provar que preferia salivar comigo do que prestar atenção nos músculos do Jacob ou na pele albina do vampiro Robert. Se ela pensava em mim são outros quinhentos e isso não faz a menor diferença, pois quem estava se dando bem era eu. De qualquer maneira, talvez pelas constantes distrações e consequente redução no fluxo sanguineo no meu cérebro, esse foi o exemplar da série que mais me agradou. Ele não se levava a sério e a atuação de Lautner realmente me divertiu, principalmente quando ele estava sem camisa.

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Para mostrar um amadurecimento completo e me revelar como homem formado, era de se esperar que eu assistisse Amanhecer – Parte 1 acompanhado de uma mulher madura, bem resolvida. Seria pouco surpreendente se alguma “Ella” estivesse grávida e eu acabasse entrando na sala de braços dados e um anel reluzente no dedo anelar da minha mão direita. A realidade é que eu estava realmente acompanhado de uma mulher madura e mais velha, bem resolvida e com objetivos muito bem delineados. O problema é só que era a minha mãe. No meio de todos aqueles casais adolescentes malditos, e com a lembrança dos dois filmes anteriores ainda fervendo pouco abaixo do meu abdome, lá estava eu, com a cara fechada, resmungando de tudo e de todos, com a única diversão de ver que a minha mãe (igualmente rabugenta) estava se distraindo com a pipoca e ignorando todos os meus comentários. “Espere para ver o vídeo que o Pablo Villaça fez, mãe. Aí você verá que os meus comentários são gentis, que posso até ser acusado de gostar de Crepúsculo”. Caso você não saiba quem é o senhor Villaça, conheça o Cinema em Cena (que é o site onde eu trabalho sob a supervisão do editor-chefe Renato Silveira, que também comanda o blog Cinematório).

As luzes se apagaram. Pensei ouvir alguém tendo um faniquito agudamente irritante e lá vai o filme começando. Minha primeira lamentação foi lembrar que não haveria Muse na trilha sonora pela primeira vez. Pode parecer idiota, mas eu só assistia essa porra de filme por conta da trilha sonora, que sempre foi excelente. “Hearing Damage”, do Thom Yorke, servindo de música para a perseguição tosca do segundo filme foi o auge da franquia. Dessa vez escolheram um havaiano babaca chamado Bruno Mars para ficar como responsável pela canção tema. Implicitamente foi como se os produtores resolvessem gritar que queriam lobotomizar todo o público e que começariam excluindo as músicas boas da trilha. Funcionou mais como um tiro no pé mesmo, pois eu imagino que para ainda acreditar que o Edward Cullen é um vampiro (ele é uma fada, convenhamos), eles devem ter feito algo muito eficaz no primeiro filme. Ou trailer. Ou teaser. Ou cartaz. Ou livro, né, senhorita Stephenie Meyer?

Amanhecer – Parte 1 já começa arrancando suspiros e reforçando a minha teoria sobre a alergia de Jacob para certo tipos de panos. Numa chuva dos diabos, o lobisomem shark-boy arranca a camisa e sai correndo pela floresta. Antes eu imaginava que tudo isso era apenas uma estratégia muito bem pensada e planejada para conseguir aplausos e suspiros do público (não apenas feminino), até que percebi que ele se deu bem com uma jaqueta jeans nas partes finais, ou seja, o coitado do shark-boy (opa, filme errado) tem alergia com algodão.

A ira do rapaz é porque a sua amada está decidida a se casar com um sujeito muito estranho, branco, sensível, educado e que está morto. O quê? Não se trata do Michael Jackson. Estou falando do vampiro Edward. A Saga Crepúsculo, especialmente o filme anterior, reforça bem a teoria de que quem nós amamos nunca é a pessoa que nos ama. Bella Swan está decidida a entrar para o clã dos Cullen, está certa de que o seu caloroso cachorrinho de estimação estará sempre disposto a esquenta-la e que antes de transar, terá que se casar de véu e grinalda numa cerimônia para a família inteira. Felizmente o roteiro não entra no clichê e nos oferece um casamento brega que realçou ainda mais os valores atrasados e hipócritas da saga. Digo felizmente pois eles poderiam ter incluído uma briga ou alguma coisa para desviar a atenção do evento principal, já que o filme inteiro é basicamente sobre esse casamento e a gravidez assassina. Fico realmente curioso de entender como é que os responsáveis pela produção conseguem se olhar no espelho depois que tiveram a ideia genial de dividir essa história ao meio.

Após o “viveram felizes para sempre” geralmente costumam vir os créditos. Em Amanhecer isso é ignorado solenemente, o que significa que nossa tristeza está apenas começando. Literalmente, quase. Bella e Edward partem para o Brasil para curtir uma lua de mel especial numa ilha deserta. Todo esse romantismo poderia ser uma fachada para que o casal finalmente transasse, mas infelizmente não é. A fada branca do Edward é tão cafona (se me pedissem para resumir o filme, seria com essa palavra) que após deixar hematomas pelo corpo da esposa após a primeira transa, se recusa a toca-la novamente. Assim, na boa? Vampiro veadinho passa três filmes dizendo que “só faço sexo depois do casamento” e então por conta de uns roxos no braço da esposa, desiste de tudo? E tudo consegue ficar ainda mais ridículo com a insistência dela, praticamente gritando que ele poderia quebrar todos os ossos dela, se isso significasse (finalmente) ter uma noite de sexo. Dá quase para perceber que ela sente dúvidas sobre ter escolhido o vampiro ao invés do lobisomem. Quer dizer, e se tivesse um zumbi em Crepúsculo? Será que ela viveria com os três, todos juntos na mesma cama?


sério que vocês estão jogando xadrez na lua de mel? Nem para ser dama e um comer ao outro pelo menos num jogo…

O clima de romance acaba depois que, com uma bimbada fatal, Edward engravida a sua esposa complicada. Daí em diante o filme passa a ser mais ágil, deixando um pouco de lado a baboseira sentimental, para um filme bobo apenas. Se não houvessem outros problemas, acho que seria até possível assistir ao filme sem querer ir direto para o hospital depois da sessão. Mas a verdade é que existe uma certa sequência que só de arrepiar me faz querer voltar no tempo e me convencer de que o João Andrade ou o Wendel Wonka poderiam escrever essa crítica no meu lugar. Que se o Joubert tomasse rum, a crítica sairia perfeitinha. Eu queria ter tido essa chance, mas não aconteceu e ao invés disso eu tive que assistir conscientemente a uma das cenas mais imbecis, infantis, desmioladas e mal-orientadas da história. Após decidirem que o feto da heroína (?) é uma ameaça, os lobisomens começam a preparar um ataque para acabar com os Cullens e o feto. O problema é que toda a discussão acontece via transmissão de pensamento e o resultado é realmente indefensável até mesmo para os padrões Crepúsculo ou para qualquer pessoa que tenha crescido assistindo novelas mexicanas. Na boa. Vacilaram feio.

Porém, o filme ainda consegue descer o nível ainda mais ao insinuar uma possível paixão de Jacob pela filha de Edward e Bella. Filha recém-nascida, diga-se de passagem. Uma ideia tão imbecil que a gente até duvida que a escritora tenha tido a coragem de incluir na história. Mas estamos falando de uma pessoa que resolveu descrever um cenário de gravidez onde os dentes do vampiro serviram de instrumento cirúrgico (infelizmente o diretor e os estúdios não tiveram coragem de filmar uma cena mais visceral que mostrasse cada passo do procedimento) e tudo é possível. Fica difícil não acreditar que toda essa insistência de Jacob em roubar alguém de Edward signifique apenas que ele (também) é apaixonado pelo vampiro e que se nunca poderá revelar a verdade, teve que apelar para a filha do casal. Os filmes acabam destruindo o conceito de imprinting, termo apresentado no segundo filme e que explicava muita coisa sobre as características dos lobisomens, e a utilização dele na conclusão de Amanhecer (com direito a um bebê digital olhando para Jacob com um olhar bizarro) soa como algo extremamente forçado, quase como um exemplo de Deus-ex-Machina. Se as fãs da série tivessem mais que 12 anos, elas provavelmente se sentiriam igualmente revoltadas com o resultado dessa desastrosa adaptação.

Dito isso, reafirmo as minhas tentativas de apenas zoar e não detestar a Saga Crepúsculo. Mas Amanhecer foi um atentado contra a minha integridade moral e meus valores como cinéfilo. Mais do que “chutar cachorro morto”, tentei ao máximo deixar de lado as atuações fracas, o roteiro imbecil e a sucessão de agressões intelectuais para conseguir escrever isso, tanto que até inclui algumas experiências pessoais aqui. Mas a verdade é que estarei sempre carregando a lembrança daquele momento infame onde os lobisomens discutem e por isso, incluindo a ausência de mulheres semi-nuas (se tem o Shark-boy sem camisa, podia ter uma vampira fazendo topless na praia, que tal? “Diamonds Are a Girls Best Friends”, como diz a música). No ano que vem teremos o encerramento da franquia e um choro de lamentação que poderá ser ouvido por dias. Espero que Bill Condon tenha um pouco mais de piedade dos amantes do cinema e que consiga conciliar entretenimento imbecil com momentos guilty pleasure. Sabemos que isso é pedir demais, mas se tem gente que acredita que o Edward é um vampiro, porque eu não posso tentar sonhar com uma parte 2 melhor?

ps: após refletir sobre o começo do texto, percebi que eu namorei uma crepusculete enrustida. Oh-My-God!


Nota: