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Sangue Negro

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APESAR DE SE PASSAR NO INÍCIO DO SÉCULO XX, Sangue Negro pode ser entendido como uma crítica às indústrias petroleiras contemporâneas, o que incluiria a obra na onda de filmes políticos norte-americanos que surgiram após o 11 de setembro. Com isso, além de propor o estudo de se2s personagens e do poder, o filme tem, de certa forma, um cunho político.

No longa, acompanhamos Daniel Plainview (Lewis) em sua jornada na busca por petróleo. Já no início, o personagem surge em um ambiente totalmente escuro e sombrio, o que reflete sua personalidade. Essa lógica se repete várias vezes durante a obra, inclusive em aparições nas quais Daniel aparece banhado em petróleo. Além disso, o filme deixa bem claro o que significaria achar o óleo – considerando que em uma das cenas a poça de petróleo recém-encontrado lembra uma caveira.

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Logo no início do filme, Daniel descobre uma cidade, Little Boston, onde se encontra uma grande reserva de petróleo. Decide, então, comprar diversas terras na região. Ele se apresenta para os moradores da cidade com seu filho, HW, o que ajuda as pessoas a confiarem nele. O menino é o único vínculo real que Daniel tem com a sociedade. Se Plainview é retratado sempre entre trevas, Little Boston é apresentada de maneira seca e pálida, demonstração da miséria daquele povo.5

Enquanto Plainview é obcecado pelo poder que tem devido ao petróleo, o jovem Eli Sunday (Paul Dano) é obcecado pelo poder que a religião lhe oferece. É inevitável a rivalidade entre os dois. Nenhum deles se resigna; em um momento Eli acredita que irá dar sua benção à torre, mas Plainview faz com que seu próprio filho a abençoe. Em outra situação, Daniel tem que ser batizado por Eli para que possa conduzir um oleoduto por uma terra que ele não possui.4

É também curioso perceber a reação do personagem principal quando seu filho perde a audição, o que elimina não só a comunicação entre os dois como também o vínculo de Plainview com a humanidade. Este se torna, posteriormente, receptivo a um personagem que alega ser seu irmão. Essa receptividade pode ser interpretada como uma tentativa de Daniel em retomar, através de um irmão que teria algo dele próprio em si, a ligação humana perdida. Isso, por sua vez, torna fantástica sua reação ao perceber que o personagem não é realmente quem afirma ser.

As atuações no filme são fantásticas. Enquanto Daniel Day Lewis (um dos melhores atores vivos) consegue interpretar magistralmente o misantropo Daniel Plainview, o talentoso Paul Dano (de Pequena Miss Sunshine) cria um grande personagem com seu pastor, rival do petroleiro.

A trilha sonora de Jonny Greenwood representa de forma magnífica o íntimo instável do protagonista. Ela chega a ser, em certos momentos, bastante incômoda, o que é perfeitamente adequado à narrativa.

Paul Thomas Anderson é um dos grandes cineastas atuais e Sangue Negro é um de seus melhores trabalhos. O filme realiza um sensível estudo de personagens e da influência do poder em suas relações, além de apresentar diversas sutilezas, como a ironia no nome do protagonista. Uma obra realmente brutal e magnífica, e, não creio ser exagero afirmar, um dos melhores filmes da década passada.

poster

Título original: There Will Be Blood
Direção: Paul Thomas Anderson
Produção: Paul Thomas Anderson, Daniel Lupi
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Dillon Freasier
Lançamento: 2007
Nota:[cinco]