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Senhores do Crime

CRONENBERG É UM GÊNERO CINEMATOGRÁFICO TANTO QUANTO É O NOME DE UM GRANDE DIRETOR. “Cronenberg” é a definição dos filmes dele próprio. Tal substantivo (que também é adjetivo) é sinônimo de vísceras, de ficção científica, do homem em seu estado de natureza, de alto nível de violência, de sexo, de mistério, de longas tomadas recheadas de cenas icônicas. Para mim, não, Cronenberg não significa apenas e só isso porque me iniciei em sua filmografia “de trás para frente”; ou seja, assisti primeiro seus filmes mais recentes. Me aficionei pela fase experimental e não característica do diretor, pela fase “Viggo Mortensen”, que foi quem me levou até ele. Esta fase recente se concentra mais no fator humano e deixa de lado as tramas surreais e tecnológicas da mente. Nada de ficção científica. Porém, esse período promete acabar – pelo menos em continuidade – este ano com Cosmópolis concorrendo à Palma de Ouro em Cannes.

Eu costumo analisar antropologicamente o porquê de algumas coisas serem como são. Por exemplo, tento entender como as pessoas tendem a preferir Marcas da Violência (também com Viggo Mortensen) a Senhores do Crime, mas não consigo. Isso quer dizer que sou dissociada? Vai saber. O fato é que gosto mais deste filme, a ponto de colocá-lo no topo da minha lista de filmes mafiosos. Sim, ele passa O Poderoso Chefão I e II e fica lado a lado até do chinês O Clã das Adagas Voadoras, de que gosto absurdamente.

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Essa é a história de uma parteira inglesa descendente de russos que fica com o bebê de uma paciente adolescente após sua morte. A jovem deixa um diário e um cartão de visitas de um restaurante – que se tornam um prato cheio para um bom mistério e uma péssima ideia. Após se envolver com o braço direito da máfia, começa então a busca pela solução de um crime que leva à descoberta de vários outros; crimes que têm o poder de destruir um império de mentiras e revelar disfarces inesperados.

A nova fase de Cronenberg se concentra no fator humano, que é canalizado na exploração de boas atuações de um elenco sólido. Viggo Mortensen, Vincent Cassel, Naomi Watts e Armin Mueller-Stahl formam o âmago de todo o longa-metragem. Este é um daqueles filmes em que o elenco coadjuvante é tão interessante e importante quanto os protagonistas. Meus preferidos são os personagens de Mortensen e Mueller-Stahl: dois extremos de uma longa linha. Viggo Mortensen é ator estudioso, fã de pesquisas e laboratórios. Gosta de se preparar com afinco e por isso faz no máximo dois filmes por ano. Um vez vi um diretor de arte dizer que “cultura é feita de detalhes”. Uma pessoa também é feita de detalhes, também é feita de cultura, de passado. A dedicação de Mortensen é imprescindível para que acreditemos que este personagem é alguém, mesmo que nunca se revele por completo quem realmente é. E Armin Mueller-Stahl é um veterano daqueles que nem precisa falar. Dono de olhos azuis perfuradores e de uma voz rouca imponente, poucas palavras e um olhar bastam para dizer tudo e arrepiar até o último fio de cabelo.

A cultura russa é tão importante e essencial neste filme que em dado momento você se pergunta se a história se passa mesmo em Londres ou em alguma metrópole russa. Mesmo assim, os elementos formam um conjunto que dá um senso de oriente: a fotografia fria e melancólica, a música folclórica, a religiosidade, a decoração, a comida, o sotaque, os maneirismos, a famosa vodca… O pôr-do-Sol só pode ser de Moscou! Aquele prédio não fica em São Petersburgo?

Enfim, as características fundamentais de um “Cronenberg” estão presentes: brutalidade sanguinária, sexo, crime, mistério, tomadas lendárias. O único problema, para mim, é o final. Ao mesmo tempo em que ele fecha esse capítulo, dá margem para um novo e isso nos deixa loucos por mais. Cronenberg e Mortensen já conversaram sobre uma possível sequência que até hoje não aconteceu. Roguemos todos para que tais conversas virem prática. E que dessa vez a coisa seja na Rússia… para a felicidade ser completa.

Título original: Eastern Promises
Direção: David Cronenberg
Produção: Robert Lantos, Paul Webster e Tracey Seaward
Roteiro: Steve Knights
Elenco: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl, Sinéad Cusack e Jerzy Skolimowski
Lançamento: 2007

Nota:  

 

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