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Sete Psicopatas e um Shih Tzu

“PAZ É COISA DE VEADO.” Com uma frase dessas presente no roteiro, fica claro que o público pode esperar qualquer coisa do novo trabalho do diretor Martin McDonagh (Na Mira do Chefe). A comédia de humor negro Sete Psicopatas e um Shih Tzu convida o espectador para embarcar em uma viagem metalinguística alucinante (completamente non-sense), mas que garantirá bons momentos de diversão.

A trama gira em torno de um escritor irlandês (sim, aguarde por piadas óbvias, mas que funcionam) decidido a escrever um roteiro sobre sete psicopatas. Interpretado por Colin Farrell (Por Um Fio), o roteirista acaba se envolvendo em uma enrascada depois que seu amigo maluco Billy (Sam Rockwell), que ganha a vida sequestrando animais de estimação e buscando a recompensa, captura um Shih Tzu de um mafioso psicopata (Woody Harrelson). Pois é. Lembra quando eu falei que era “completamente non-sense”? O melhor é que toda a bizarrice funciona perfeitamente, muito em parte do trabalho inspirado dos atores e do roteiro sagaz.

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Farrell é um dos atores mais interessantes do cinema atual, ainda que sempre esteja envolvido com filmes duvidosos (estou olhando para você, refilmagem de O Vingador do Futuro). É impressionante o magnetismo de seus personagens. Mesmo quando são os maiores babacas, você quer ver aquele cara se dando bem. Mas o trunfo de Sete Psicopatas e um Shih Tzu é a atuação psicótica de Rockwell. Digamos que Billy é uma versão mais perigosa do personagem de Jim Carrey, em O Pentelho. Mesmo bolando um negócio sujo (céus, quem é que pensaria em sequestrar animais de estimação?) com seu comparsa Christopher Walken (brilhante, como sempre), fica difícil condenar o cara, e resta ao público se divertir com os extremos que uma pessoa carente pode alcançar. Harrelson também merece destaque, especialmente pela cena em que tortura a “preciosa” Gabourey Sidibe.

Logo na introdução existe uma clara referência ao cinema de Quentin Tarantino. Dois homens de preto estão discutindo tranquilamente sobre atirar ou não nos olhos de alguém. Os diálogos inteligentes e sarcásticos são o ponto alto do roteiro escrito pelo próprio diretor, que não tem o menor pudor em mergulhar seu longa-metragem em referências da cultura pop tão tradicional do cinema de Tarantino. Além do diretor de Cães de Aluguel, podemos lembrar também de Spike Jonze e Michel Gondry, outros mestres da metalinguagem que certamente influenciaram os caminhos de Donagh, dentre outras surpresas envolvendo o mundo dos serial killers, incluindo meus queridos Bonnie e Clyde e uma história aterrorizante de vingança.

Donagh é eficiente ao ignorar o moralismo babaca e faz piadas inteligentes sobre muitos temas espinhosos. Óbvio que sempre terá um hipócrita criticando piadinhas com as minorias, mas é sempre bom quando um roteiro inteligente oferece a oportunidade de refletirmos de uma maneira diferente de toda essa chatice politicamente correta que anda dominando a cultura em geral. Claro que não é novidade torcer para assassinos em produções de Hollywood, mas os “heróis” ao contrário de Donagh são diferentes justamente por tentar humanizar as decisões dos assassinos. Dito isso, quem falar que não torceu para a Preciosa virar purpurina está mentindo de maneira vergonhosa.

Sete Psicopatas e um Shih Tzu é o típico filme que dividirá opiniões, mas que agradará em cheio aos cinéfilos. Afinal de contas é sempre agradável assistir a um filme em que somos presenteados com tantas presenças ilustres em participações rápidas e saber que cada um deles irá morrer cedo ou tarde (a maioria se manda bem cedo, diga-se de passagem). Os fãs de filmes sobre metalinguagem terão mais uma obra para colocar ao lado de Trovão Tropical, de Ben Stiller; Rebobine, Por Favor, de Michel Gondry; e especialmente Adaptação, de Spike Jonze.

Nota:[tresemeia]