Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Sonata de Outono

(Autumn Sonata). De Ingmar Bergman. Com Liv Ullman, Ingrid Bergman, Halvar Björk, Lena Nyman

Sonata de Outono é o confronto entre mãe e filha que após reencontro reencontram-se também com traumas do passado, feridas e agressões (quase nunca físicas, sempre veladas), facilmente justificáveis por motivações subjetivas. Afinal, não temos mãe e filha em diálogo sobre o que eram e o que se tornaram, mas sim dois seres humanos, pessoas que buscam uma afirmação constante de si mesmas, nem que para isso recorram à total sinceridade, à total ruptura de seus inter-relacionamentos. E se lançam mão desta sinceridade demasiada, é porque já não sentem esta necessidade de ser a mãe dedicada – que nunca foi afinal nem todas as mulheres correspondem a essa vocação, ou a filha resignada – que o é por nunca ter recebido amor de sua mãe, e por sentir-se extremamente sufocada com as aspirações desta. Finalmente temos a segunda filha recolhida num quarto, vítima de uma deficiência supostamente provocada pela ausência da mãe, da qual só ouvimos os gritos em meio às discussões. O que seria um reencontro acaba por tornar-se um julgamento recíproco. De quem é a culpa por tornar-mo-nos quem somos? Temos outra escolha? Há outro caminho? Quando estas respostas aparecem, pode ser tarde demais.

O texto, original de Bergman quase uma peça teatral é perfeito (indicado ao Oscar inclusive). Fotografia belíssima (tons de amarelo como não poderia deixar de ser num filme que se passa no outono). E as interpretações: o forte do filme. Vejam a cena onde mãe e filha observam-se ao piano: a quantidade de emoções em cena, vistas apenas a partir da expressividade das atrizes. Impressionante…

Liv Ullman aparece impecável como Eva a filha que sofreu traumas no passado, e que abriu mão do que poderia ser outro caminho para sua vida, por medo de desafiar a mãe. Sua revolta aparece gradualmente e quando explode a sensação é dolorosa (ponto também é claro, para o roteiro de Bergman). É impressionante como ela conseguiu deixar a beleza e lado e se entregar totalmente à personagem. Já Ingrid Bergman como Charlotte (em papel feito especialmente para ela, que lhe rendeu indicação ao Oscar daquele ano), faz a mãe que se surpreende com as duras palavras de Eva, embora externe naturalmente seus sentimentos egoístas e até mesmo de repulsa com relação às suas filhas. Ela tem culpa por ser por demais humana? Por fazer escolhas, mesmo que erradas? E a pergunta, que mesmo forte (fico arrepiado quando penso no peso desta situação que já está dada) não pode deixar de ser feita: “será a infelicidade da filha, o triunfo secreto da mãe?”. As pequenas participações como não poderiam deixar de ser, não decepcionam: Halvar Björk, como Viktor, o marido que tem plena consciência de que sua mulher nunca o amará de verdade (a cena inicial do filme, onde ele lê o diário da esposa é fantástica), e Lena Nyman como Helena, a irmã doente cuja presença desencadeia o embate das protagonistas.

Não é segredo que gosto de Bergman e que seus filmes me emocionam como poucos (já escrevi sobre Persona e O Sétimo Selo aqui), mas posso falar com certeza que este é meu preferido. Assistam. Corram atrás. Porque vale a pena. Só não vejam em um dia em que estiverem meio deprimidos. Ficadica.

4 Comentários
  1. 2T Diz

    Sou virgem de bergman!

  2. João Diz

    vou te desvirginar dia desses…
    sério.

  3. Fla Diz

    eu tb sou!

  4. PSF SANTA TEREZINHA Diz

    Um filme fantástico,genial.Prova disto é que segue muito atual!!!

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.