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Crítica: Tão Forte e Tão Perto

TÃO FORTE E TÃO PERTO É UM DAQUELES FILMES PRODUZIDOS PARA ARRANCAR LÁGRIMAS DO ESPECTADOR. Há quem goste, claro, mas também existe a parcela do público que acaba considerando um martírio pagar o ingresso para assistir a um filme depressivo e melancólico. Felizmente para o público que costuma ter preferências por produções desse jeito, o quarto longa-metragem do diretor Stephen Daldry (O Leitor) consegue superar alguns de seus defeitos e tenta reconfortar aqueles que já passaram por situações de perdas familiares com uma bela história.

Oskar Shell (Thomas Horn) é um garoto de nove anos de idade que perdeu o pai durante os ataques ao WTC, em 2001. Após encontrar uma chave escondida dentro de um vaso, o elétrico Oskar começa a desconfiar que aquela chave era nada mais que uma última brincadeira deixada por seu pai (Tom Hanks) e começa a andar por toda a cidade para descobrir onde é que ela se encaixaria. Durante seu trajeto, Oskar conhece várias pessoas que compartilham as suas próprias histórias e lamentam pela perda do garoto, dentre elas Abby Black (Viola Davis, em uma grande atuação).

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A jornada de Oskar conduz Tão Forte e Tão Perto e não se torna chata em momento algum, especialmente pelo carisma do jovem Horn. Tudo bem que em determinados momentos é possível sentir uma leve vontade de brigar com o garoto e mandar-lo ficar quieto desenhando (principalmente quando ele começa a falar desenfreadamente e gritar, mas aí você precisa se conter e lembrar que o personagem provavelmente é vítima da síndrome de Asperger, o que dificulta as relações sociais), mas não tem como se manter distante da história ou mesmo deixar de se emocionar. Aliás, vale adiantar que as participações de Sandra Bullock e Tom Hanks ficam em segundo plano, deixando a responsabilidade em cima do jovem Horn, que em determinado momento passa a ser auxiliado por um estranho senhor (Max von Sydow, de O Exorcista) conhecido apenas como Inquilino.
A participação de Sydow é curta, mas foi o suficiente para uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Seu personagem faz um voto de silêncio e usa sinais e textos para se comunicar, deixando o impaciente Oskar irritado em certos momentos. Porém, a experiência de Sydow transmite todo o sofrimento e dor de seu personagem sem precisar de muito esforço. Existem atores que gastam horas de nossa paciência para tentarem se fazer entender, enquanto outros nomes talentosos são capazes de deixar de lado a voz para se apoiarem apenas em suas expressões. Uma atuação marcante e que consegue divertir na mesma medida que emociona.
Vale dizer que Daldry não se aproveita do fato de ter um personagem preso no WTC para forçar a barra com o seu público. Felizmente o diretor soube driblar os caminhos mais fáceis para tentar chegar ao público e dispensou cenas desnecessárias com o que poderia estar acontecendo no alto do edifício. Claro que isso não impede o diretor de usar outros atalhos e a catarse acontece durante uma bela e (por que não) surpreendente reconciliação.
Por mais frio que seja o coração de uma pessoa e sua incapacidade de evitar jogar piadas em momentos inoportunos, o terceiro ato apresenta uma bela e singela surpresa que explica a maioria das coisas que poderiam deixar um espectador mais maduro apreensivo com a jornada “irresponsável” de um garoto de nove anos de idade pelas ruas de Nova York. O roteirista Eric Roth cuidou da adaptação do livro do escritor Jonathan Safran Foer (o livro foi lançado no Brasil pela editora Rocco e usa o título Extremamente Alto e Incrivelmente Perto) e o diretor fez questão de ressaltar e valorizar os momentos mais dramáticos da trama. Em determinados momentos dá a impressão de que Daldry precisa emocionar o público e o choro serve como termômetro para medir a aceitação.
Pelo menos durante a pré-estreia do filme, foi difícil encontrar alguém que não tenha saído da sala de cinema com os olhos marejados e o nariz vermelho. Seria injusto avaliar o livro com o longa-metragem, ainda mais quando se tratam de mídias completamente diferentes, mas julgando pelo que é visto na tela de cinema, o livro parece ser ainda mais comovente. Na dúvida, confira a emocionante performance de Max von Sydow e Thomas Horn nos cinemas e depois passe em uma livraria mais próxima.