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Ted

TED É UMA FÁBULA SURREAL E DISTORCIDA DOS VALORES DE UMA AMIZADE. John Bennett (Mark Wahlberg) era uma criança infeliz e solitária, incapaz de conseguir se misturar com as outras crianças de sua idade. Durante uma noite de natal, ele ganha um urso de pelúcia e logo os dois ficam inseparáveis, mas John lamentava o fato do urso não ter vida. Até que algo acontece e como um verdadeiro milagre, o urso Ted começa a falar para o susto dos pais do garoto. Quase trinta anos depois, John é um homem feito, com um relacionamento sério com Lori (Mila Kunis), mas mesmo assim mantém sua amizade com seu velho urso.

Para os desavisados, a premissa acima poderia muito bem ser de uma daquelas comédias imbecis da sessão da tarde, com direito a lição de moral, dos valores da amizade, um verdadeiro moralismo barato e chato pra cacete. Porém, Ted é exatamente o contrário disso tudo e provavelmente é o único filme com um urso de pelúcia que nunca será exibido durante uma sessão da tarde, como disse um amigo que assistiu ao filme comigo. Claro que existe sim o conflito do amadurecimento, da necessidade de John romper com seu amigo para ser capaz de seguir em frente com sua vida, mas o roteiro inteligente de Seth MacFarlane deixa tudo acontecer naturalmente e driblando a chance de se tornar algo previsível.

MacFarlane, para quem não sabe, é o criador da série animada Uma Família da Pesada. O urso Ted é quase como a versão em algodão do bebê Stewie, mas ainda mais divertido. Sem a menor cerimônia, o diretor/roteirista transforma os personagens em maconheiros preguiçosos e viciados em Flash Gordon, além de incluir diversas piadas envolvendo o universo nerd (por exemplo, o toque de celular de Lori é a “Marcha Imperial”, de Star Wars) e que provavelmente seriam condenadas por boa parte das mães conservadoras norte-americanas. Em determinada cena, John dá um soco na cabeça de uma criança, mais ou menos a mesma coisa que Robert Downey Jr. havia feito em Um Parto de Viagem, mas o que deveria ser um choque só faz o espectador dar mais risada. O contexto sexual é bem forte ao longo do filme, com direito até mesmo a uma hilária cena em que o urso resolve sensualizar sua colega de trabalho.

O elenco ainda conta com a participação especial de Giovanni Ribisi, que interpreta um psicopata decidido a sequestrar o urso para mimar o próprio filho. Mesmo que seu tempo em tela seja praticamente nulo, é o suficiente para desencadear várias outras gags hilárias, como a sensual (mas só que não) dança de frente para a televisão e a perseguição durante a conclusão do filme. Seria um grande spoiler revelar que outro ator faz uma ponta em duas cenas (entrando mudo e saindo calado), mas já que o filme estreou há alguns meses não faz mal elogiar a presença de Ryan Reynolds, que está muito engraçado.

O melhor momento, sem dúvidas, envolve toda a festa de arromba que acontece na casa de Ted. Do momento em que John chega na casa até a épica luta entre Ted e um pato chamado James Franco, tudo é  hilariante, com direito a lágrimas escorrendo pelo rosto depois. Parte disso se deve ao jeito que MacFarlane conduziu sua câmera, deixando o espectador acompanhando tudo em primeira pessoa, como se estivesse participando da luta. O que torna toda a sequência ainda mais divertida é o detalhe que o roteiro havia contextualizado a importância do nome Ming momentos antes de um personagem com o mesmo nome surgir em cena.

Como sou um grande entusiasta de sequências de ação com trilhas sonoras, ouvir “Flash”, do Queen, foi um deleite a parte e motivos de sobra para gargalhar sem parar. É incrível como qualquer sequência que misture slow motion com alguma música, seja ela boa ou não, consiga me fazer chorar de rir. Nunca falha.

Ted ganha o público justamente por conseguir combinar malícia e palavrões com uma bela história de amor e amizade, um verdadeiro triângulo amoroso. Indicado para qualquer pessoa que tenha um mínimo de sensibilidade, a comédia não poderia ser uma estreia melhor de Seth MacFarlane nos cinemas. Imperdível.

ps: Uma das piadas me lembrou o amigo Heitor Valadão, do Cinema em Cena, fã absoluto do Superman. Fico curioso para descobrir o que ele achou do momento em que seu ídolo é mencionado pelo narrador de Ted.

Nota:[quatro]

Leia também a crítica escrita por Larissa Padron