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Terra de Ninguém

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TERRA DE NINGUÉM, filme de estreia do cultuado diretor de Árvore da Vida, Além da Linha Vermelha e Cinzas no Paraíso, conta a história de dois jovens apaixonados, Kit Carruthers (Martin Sheen) e Holly Sargis (Sissy Spacek), que adentram numa jornada sem volta para um mundo novo e desconhecido, não medindo consequências e eliminando tudo e todos que venham a aparecer em seus caminhos.

Somos apresentados de cara ao jovem Kit (na construção da apresentação Malick já mostra um pouco do seu estilo), que é desenvolvido de maneira a iludir o espectador. Com planos próximos, uma trilha serena dando força à narrativa trabalhando em conjunto com a cordialidade do personagem ao mostrá-lo em seu trabalho, pegando lixo pelas ruas da cidade. Na mesma sequência aparece Holly, a jovem de 15 anos pela qual ele se apaixonará e que será o elemento motivador do personagem, uma vez que esta mudará o rumo de sua vida. Vemos ali a inocência brotar na tela e o encantamento de Sheen se evidenciar pela primeira vez.

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Kit é despedido e o primeiro conflito aparece. Na sequência, o personagem é apresentado ao espectador como uma referência direta a James Dean, tanto pela caracterização quanto pelos trejeitos usados por Sheen, referência essa que será reafirmada na conclusão da narrativa. Assim como Dean, Kit é um rebelde sem causa, que tenta se sustentar na imagem e na maneira como leva a vida. Além da citação ao galã, o diretor faz uso da metalinguagem, inserindo elementos conhecidos pelos americanos como a Coca Cola, Cadillac, Nat King Cole, John Deere, Pepsi, entre outros, que ajudam o espectador a se situar na história e no período discutido.

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Malick se apresenta ao mundo pela primeira vez, fazendo uso de planos contemplativos, mostrando a relação do homem vs natureza, o lirismo na narrativa (poesia visual), a trilha que pontua o desenvolvimento dos personagens e os planos sequência. Até abusa dos offs, para contar a história do ponto de vista de Holly, repetindo a aplicação do recurso na maior parte da narrativa.

Os jovens apaixonados tem seu primeiro problema, quando o pai de Holly (Warren Oates) descobre o romance entre os dois, proibindo automaticamente a filha a vê-lo, mostrando o lado punitivo do pai, que é usado na história como uma tentativa de “justificar” o destino que o espera. Posteriormente, o jovem Kit se encontra com Warren, e, tentando mostrar seu respeito à Sissy, ele é ameaçado pelo pai, o que culminará no ato premeditado que o jovem Sheen irá cometer.

Na volta à sua casa, o pai de Holly é surpreendido por Kit, que o mata e abre fuga com a filha de Oates. Nessa sequência conhecemos mais alguns traços de Malick, como a naturalidade e a frieza com que trata temas tão densos e grotescos, a questão do existencialismo e a inocência presentes em Sissy, a morte do pai que irá gerar dúvidas sobre o que ela realmente pensa de seu parceiro Kit, além do simbolismo presente em suas obras que se seguem, como exemplo, a relação entre o fogo ateado na casa e as trevas que os personagens adentrarão depois daquele momento.

O que se segue é a história de dois jovens em fuga, ainda vistos pelo ponto de vista de Holly, que agora já tem consciência formada, evidenciada pela perda da inocência. Kit se torna frio e brutal, eliminando todas as pessoas que tentam tirar a parceira de seu caminho. Malick desenvolve a relação dos personagens com a natureza, tornando-os uma espécie de eremitas, que se apaixonam pelo estilo de vida no bosque, contados por meio de micro planos carregados de detalhes e muita contemplação, relação que veremos posteriormente em outros filmes do diretor.

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Toda a construção dos personagens acaba justificando a banalização das mortes e da violência cometida por Kit. Malick encontra na forma um elemento para não julgar e não criar suspense ao redor dos fatos, mostrando a crueza em contar histórias do diretor, deixando de lado a espetacularização e a dramatização posta em outros filmes com história e temática semelhantes, desenhando na tela personagens frios e nada emotivos, propondo, assim, reflexões ao espectador.

A estreia do diretor já mostra o que se desenvolverá em suas obras futuras: um cinema autoral, sem vícios de linguagem ou pretensões comerciais, que traz uma riqueza sensorial, existencial e filosófica, exaltando a sensibilidade do diretor em tratar de temas densos. Tem-se também a estilização da narrativa que deixa bem claro que, como poucos outros realizadores, Malick sabe o que fazer e como fazer.


Título original: Badlands
Direção: Terrence Malick
Produção: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Martin Sheen, Sissy Spacek, Warren Oates, Ramon Bieri, Alan Vint, Gary Littlejohn, John Carter, Bryan Montgomery.

Lançamento: 15 de outubro de 1973

Nota:[quatro]

3 Comentários
  1. Matheus Oliveira Diz

    Cara incrível a riqueza das palavras q usa na descrição do filme…. Parabéns, aguado as próximas.

    1. Henry Chinaski Diz

      Valeu cara, fico feliz por ter gostado, espero ajudar com outras tantas no espaço. Abraço

  2. Cintia Sousa Diz

    Concordo com o colega abaixo..parabéns!

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