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Eles Vivem

eles vivem eu vim aqui para mascar chicletes e chutar traseiros

É DIFÍCIL FICAR INDIFERENTE AOS TRABALHOS DE JOHN CARPENTER. Todos seus filmes, até os ruins, conseguem tocar o espectador. Lançado em 1988, Eles Vivem é uma espécie de homenagem aos ícones do cinema de ação da década de 1980. Não por acaso, o protagonista é um ex-wrestler norte-americano chamado Roddy Piper. Além de parodiar o universo dos macho movie, Carpenter também oferece uma interessante crítica ao consumismo e à idolatria, na época representada pelo desejo de ver/estar na televisão, e que hoje poderia ser substituída facilmente pela obsessão com a própria imagem na internet.

Inspirado num conto chamado “Eight O’Clock in the Morning”, de Ray Nelson, o longa-metragem apresenta um loiro gigante (qualquer semelhança com o Thor é mera coincidência) que encontra um par de óculos de sol que o faz enxergar diversas propagandas subliminares espalhadas por toda a cidade, e mais grave ainda: ele descobre que uma raça de inescrupulosos empresários extraterrestres está se infiltrando no planeta e pretende dominar a mente de toda a população.

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eles vivem

Com uma premissa dessas, não é surpresa alguma constatar que Eles Vivem é a produção mais louca da carreira de John Carpenter, superando até mesmo o humor (pastelão) de Dark Star. O roteiro possui um senso de humor aflorado, dosando cenas absurdas (como o momento em que os dois personagens principais brigam loucamente no meio de um beco porque um deles se recusava a colocar o óculos no rosto, enquanto o outro insistia bravamente) com diversas citações hilárias (“I have come here to chew bubblegum and kick ass… and i’m out of bubblegum”, na tradução: “eu vim aqui para chutar mascar chicletes e chutar traseiros… e estou sem chicletes”). Se não é o melhor trabalho da carreira do cineasta, pelo menos se garante como um dos mais divertidos.

Quando o protagonista coloca os óculos e passa a ler mensagens subliminares nos outdoors, capas e páginas de revistas, na televisão e etc, somos levados para uma outra realidade. Passamos a enxergar tudo em preto e branco, numa tentativa inteligente de contornar os problemas com os baixos orçamentos. Existe uma crítica feroz ao consumismo ao apresentar os coadjuvantes como pessoas alienadas e viciadas em ficar na frente da televisão recebendo lixo disfarçado de entretenimento. As pessoas ficam paradas ali por horas assistindo ao luxo dos famosos, que no filme são criaturas de outro planeta. Aliás, é muito curioso observar que a ameaça de Eles Vivem é bastante incomum em obras do gênero. Só mesmo John Carpenter para oferecer uma obra em que os vilões são empresários gananciosos vindos de outro planeta.

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A escolha de um “ator” como Piper, que interpreta o protagonista Nada, é acertada. Independente dele possuir a mesma aptidão para o cinema que a Marion Cotillard fingindo morrer, o ator esta perfeito na pele de um personagem completamente unidimensional e que, ao invés de refletir sobre aqueles óculos, parte imediatamente para a violência. É uma paródia de todos os filmes de ação, em que o mocinho atira antes de fazer as perguntas. Com toda a sua limitação, Piper está perfeito como o herói de Eles Vivem. Carpenter faz mais pontos ao conseguir controlar os passos de seu elenco tosco, dando nada mais que o necessário para que a trama flua com naturalidade, inclusive ao incluir uma breve insinuação de romance entre o loiro Thor e uma ruiva com cara de limão azedo, que parece mais indecisa com o que quer que o pior libriano que você já conheceu na sua vida.

Como é de se esperar de qualquer obra com a assinatura de Carpenter, a trilha sonora chama a atenção. Desta vez ela é repetida à exaustão, como se fosse uma tentativa de exaltar as técnicas de manipulação de massa utilizadas na própria história. Chega a ser chato ouvir o tema repetidas vezes e sem muita variação, mas ainda assim se trata de um flerte com o jazz muito interessante, embora seja extremamente simples.

Eles Vivem é uma opção deliciosa para se passar o tempo e apreciar o despretensioso cinema do mestre do horror John Carpenter. Em uma mistura de ação com comédia e terror, a produção diverte do princípio ao fim, especialmente para aqueles espectadores que forem com o coração aberto e com a certeza de que irão assistir a uma história non-sense realizada de maneira tosca, mas com as mãos e o olhar atento de um dos principais nomes do cinema de horror.

poster eles vivem

Nota:[tresemeia]