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Ultimos Dias

Gus Van Sant é um dos diretores que mais apareceram aqui no Cinema de Buteco e era algo impossível de se imaginar que o mês do rock passaria em branco sem a homenagem que o diretor fez para um dos maiores nomes da música mundial. O João que me desculpe (os frequentadores do Buteco sabem o quanto ele é fã do trabalho de Van Sant), mas tenho que tomar a liberdade de falar sobre Ultimos Dias, também conhecido como a ficção que retratou os últimos dias da vida de Kurt Cobain, o líder do Nirvana. Mas é preciso dizer para os desavisados que não se trata de uma adaptação literal. O personagem não se chama Kurt Cobain e em nenhum momento se ouve músicas da banda.

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Uma das marcas de Gus Van Sant sempre foi retratar a solidão consumindo os seus personagens. Seja pela culpa (Paranoid Park) ou por dificuldades em se relacionar com outras pessoas (Gênio Indomável). Logo o encontro do diretor, que também assina o roteiro, com o fim da vida e o legado do maior gênio musical dos anos 90, não poderia ser um par mais que perfeito. Muitos daqueles que se dizem fã da música do Nirvana, torceram o nariz para o resultado final do filme. O que se esperava por muitos era um filme que mostrasse um pouco daquela vida louca que Cobain vivia, como era seu relacionamento com a esposa maluca, os pais, e principalmente no seu vício em drogas. Gus Van Sant, sabiamente fugiu de todas essas expectativas em torno do projeto e concentrou a história (um dos filmes com menos diálogos que já assisti) na solidão e paranóia de um homem. Uma opção que acabou tornando o filme um pouco alternativo demais para a geração que não conheceu os dramas de um homem e que se apaixonaram apenas pela música. O que desagrada a maioria, é um prato cheio para aqueles que acompanham a trajetória de Gus Van Sant.
Ultimos Dias é um filme pesado. Não é daqueles que você consegue assistir em um dia comum, é preciso esperar por um daqueles momentos em que nada deu certo e você esta amargando uma fossa no conforto da sua cama. Quando apenas a sua parede serve de segurança, aquela companhia que não vai te abandonar nunca. Como já havia mencionado, são poucas as falas e toda a ação se concentra na “fuga” de Blake (em brilhante atuação de Michael Pitt) da realidade e das pessoas. Curioso notar que Van Sant evitou o uso de entorpecentes pelo personagem e sequer quis dar detalhes demais para o momento fatídico em que Blake/Kurt se mata. Talvez para preservar um pouco de sua parte criativa no desenvolvimento do projeto. Mas a verdade pode ser vista como por culpa da adaptação da biografia escrita pelo jornalista Charles Cross, o Mais Pesado que o Céu. O projeto se arrasta há bons anos, mas a expectativa é que ele seja rodado até 2014. O motivo seria pela lugubre comemoração dos 20 anos da morte do cantor.
Enquanto não existe um filme “oficial” da vida do cantor, Ultimos Dias é uma obra que merece ser assistida por todos aqueles que são orfãos da boa música dos anos 90.

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