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Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo

De Marcelo Gomes e Karim Aïnouz. Voz de Irandhir de Souza.

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José Renato é um geólogo que sai de Fortaleza rumo ao sertão nordestino movido por duas necessidades: a do profissional que examina o solo do lugar onde futuramente poderá se construir um canal que atravessará o sertão; e a necessidade daquele que foi deixado por sua “galega”, de quem só lhe restam a lembrança e o sincero amor que sentia por ela. Ele quer esquecê-la. Mas não pode. Ele ama e odeia aquela mulher. E sua imagem o acompanhará por toda a viagem.

Nem José Renato, nem Joana, a mulher amada, aparecem em momento algum no filme: o que vemos em cena é apenas aquilo que vê o olhar de José Renato (sob a voz de Irandhir de Souza). Assim o que conhecemos desse tão cativante personagem está também ligado àquilo que ele vê de si mesmo. José Renato revela-se com o desenrolar do filme, na medida em que seu discurso deixa de ser descritivo (quando fala sobre o solo que pesquisa), e dá lugar a um discurso quase autobiográfico, quando mesmo sem dizer expressamente os motivos que levaram seu casamento ao fim, fala dos sentimentos e dores, e da luta para deixar aquele amor para trás. “Viajo porque preciso, não volto porque ainda te amo”, diz José Renato em determinado momento do filme. Impossível não criar uma imagem para ele, triste, perdida. Nosso protagonista está lá, mesmo que apenas numa voz em off.

Nunca é clara a intenção dos diretores, embora a opção por este tipo de abordagem seja a mais acertada. Utilizando imagens de um curta gravado em 1999 por Marcelo Gomes (de Cinema, Aspirinas e Urubus) e Karim Aïnouz (de Madame Satã e Céu de Suely), os diretores pendem entre o road movie e o documentário (com toques de “falso documentário”), fazendo com que o tom de realismo prevaleça, e aquele personagem fisicamente conhecido somente através de sua voz, se faça familiar, e conquiste a atenção do espectador. Assim o filme, que mesmo seguindo um ritmo lento (afinal de contas é uma sequência de imagens e fotografias) é agradável, dada a beleza da relação de José Renato com o amor que se foi e com o espaço que lhe desperta sentimentos, pensamentos e saudades.

José Renato foge. Foge como quem sabe o destino, que mesmo de certa forma estabelecido (ele segue no rumo que as pesquisas exigem), nunca é linear. Pois se ele foge, é de quê, e para onde? Lhe parece agradável a imersão num ambiente solitário, ao mesmo tempo em que ele se vê tomado por uma vontade imensa de ver gente. Não se sabe que fissuras José Renato pesquisa: se aquelas do solo, ou aquelas de seu próprio coração, ou da relação que se desfez por vontade da pessoa que ele amava. Este diário sonoro, que não necessariamente narra imagens, mas expressa sentimentos, mostra que, este fim, ainda não é necessariamente palpável para ele. Como quem não se conforma, ou como quem não sabe viver sem ou só, José Renato alterna entre a ternura e a raiva. Como se ele mesmo não fosse mais dono de nenhum de seus sentimentos: não consegue deixar de amar, mas em determinados momentos não consegue também querer deixar de amar. José Renato está perdido em sua própria viagem. Imóvel dentro de um caminhão em movimento.

As figuras com que se depara no trajeto são encantadoras na medida em que são tratadas com carinho pelas imagens que lhes mostram. Um que pai faz cócegas em seu filho; um casal de idosos que vai ser desalojado pelas obras do canal; uma família cuja felicidade “não convence”; e uma simples mulher que não quer nada da vida a não ser uma “vida lazer”: a simplicidade com que aquelas pessoas vivem uma vida com possibilidades limitadas assusta José Renato, já que a condição daquelas pessoas (existencialmente falando) em nada difere da dele. Mas ele já está tomado por uma tristeza quase irremediável que lhe cega os olhos a ponto de não conseguir enxergar esperança. Não é assim que os diretores querem que vejamos aqueles personagens do sertão. É neles que está toda a beleza de viver do filme, em contraponto ao protagonista.

O cinema visto em Cinema, Aspirinas e Urubus de Marcelo Gomes e nos filmes de Aïnouz também está presente aqui em Viajo porque preciso… É esta contraposição entre ambiente e o ser humano que o habita, colocada de uma forma simples e ao mesmo tempo profunda, quase sempre trágica. É por isso que Viajo porque preciso não deveria mesmo ser apenas uma coisa ou outra: é esta fusão de gêneros (se é que eles realmente importam) que dá o tom ao filme. Nunca se sabe do que se fala, ou com quem, assim como José Renato não sabe sobre o destino de sua viagem ou sobre o seu próprio. É como se pegássemos uma carona em seu caminhão, e fôssemos deixados com uma linda imagem final poética e forte pelo lugar que ocupa na tragetória (da qual nunca saberemos o fim) de José Renato: este querer se jogar, sem rumo, livre. Mas ainda sim ter a certeza de que se têm outras e mais outras chances de fazê-lo. Um belo filme, surpreendente. Recomendo.