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Adoráveis Mulheres – Crítica do Filme

Por Julie Ribeiro

poster adoraveis mulheresAdoráveis Mulheres (2019), dirigido e escrito por Greta Gerwig e baseado na obra Little Women, de Louisa May Alcott, é um filme que acompanha a saga das irmãs March ao longo dos anos, tendo a guerra de Secessão como pano de fundo. Gerwig, após o hit acerca do excelente Lady Bird (2017), entrega aqui um trabalho mais maduro, coeso e esteticamente impecável.

Um dos grandes méritos do filme são as personagens femininas e a escalação do elenco. Saoirse Ronan, como sempre, está magnífica fazendo a protagonista Jo, cheia de vida e impulsiva, direcionando a história e dando o tom do longa. Outra atriz que está formidável é Florence Pugh (Midsommar), representando a ambiciosa e geniosa Amy, que viaja à Paris para realizar o sonho de ser uma grande pintora. À Emma Watson, que faz Meg, coube o papel do romantismo: há sonhos diferentes nas mulheres, e aqui Gerwig abre também caminho para a romântica, que sonha em se casar e ter filhos, e é feliz assim. Quem faz a quarta irmã March é Eliza Scanlen – que já havia entregado uma ótima atuação na série Sharp Objects (2018) -, representando a doce pianista Beth.

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Outro destaque é Laura Dern, que faz Marmee March, a mãe gentil, devota, bondosa e compreensiva. É ela, que com uma construção sutil e delicada, estabelece a cumplicidade com as filhas, sugerindo a elas, por exemplo, que doem a ceia de natal para uma família carente; ou doando o próprio cachecol para um senhor que perdeu os filhos na Guerra. Marmee é de uma humanidade admirável e oferece a Dern uma possibilidade de atuação diferente, já que tem feito recentemente papéis com viés mais cômico.

Meryl Streep, como sempre, também está excelente no papel da rica e amarga tia March, que quer a todo custo casar as sobrinhas com pretendentes ricos. Ela sustenta cenas fortes em diálogos importantes com as sobrinhas. Timothée Chalamet faz Theodore “Laurie” Laurence, o rico vizinho das irmãs March. As melhores cenas de Laurie são ao lado de Jo, como a divertida cena de dança durante a festa em que se conhecem, ou a dramática briga que define o futuro de ambos. Com as outras irmãs, ele soa pedante e um pouco antipático. Streep e Chalamet, embora coadjuvantes, constroem cenas impactantes e também deixam marca no filme.

A química entre as irmãs é notável, seja na cumplicidade, nas brigas ou nas encenações das peças escritas por Jo. Elas preenchem e modificam todos os ambientes por onde passem, com suas personalidades, risadas, comentários e música. Juntas, as quatro irmãs formam um clube de mulheres artistas, que pintam, tocam, escrevem e atuam. As artes não estão ali por acaso: são elas que permitem a essas mulheres viverem plenamente suas vidas, pintando e tocando um mundo mais possível em seus sonhos, escrevendo histórias melhores que a realidade em que vivem e, interpretando papéis que jamais terão. Meg, em uma festa, assume que naquela noite vive outra vida, chegando até a usar outro nome, interpretando um papel, sendo quem ela de verdade queria ser. Sonhos. Ilusão. Era o que era permitido às mulheres naquela época. E temos também a febre. Que vem como uma resposta para as mulheres que ousam transbordar: as March não poderiam passar imunes.

A fotografia é outro ponto forte do filme. O diretor de fotografia Yorick Le Saux tem grande mérito na narrativa, construindo cenas pensadas meticulosamente, como se estivéssemos diante de um quadro ou de uma fotografia antiga. Os planos abertos privilegiando a natureza, são de uma beleza emocionante, e trabalham com contrastes: ora gelo e neve, contrastando com as sempre coloridas e calorosas irmãs March; ou as árvores no outono, compondo dramaticidade e delicadeza à história. Além dos grandiosos, há delicados planos detalhe, como os das mãos da jovem Jo tentando esconder as manchas de tinta, ou o de seus pés correndo pela cidade, assim que recebe uma resposta animadora. Alguns planos são orquestrados com cuidado e sugerem emoção, como algumas tomadas de costas, por exemplo quando Jo vai vender seu artigo, ou quando encontra a mãe para receber uma terrível notícia. Há um plano belíssimo: uma irmã lendo para a outra na praia, sugerindo cumplicidade e apoio entre elas.

O trabalho com as cores também é feito com excelência. O lar das March, inicialmente, trabalhado com luzes e cores quentes, como vermelho, laranja e marrom escuro, dá a sensação de conforto, calor e acolhida. Esse aconchego se contrapõe à palheta fria usada mais ao fim da jornada das irmãs: tons de cinza, azul e verde foram escolhidos para o rumo final da história, na casa simples. Também há um contraste com as cenas passadas em Paris, bem mais claras, com a arte abusando do branco nos ateliês de Amy. O ambiente em Paris é luxuoso, mas não tem a palheta quente da casa da família March. Em NY, um tom mais frio ressalta a palidez da vida de Jo tentando vender seus textos, e obtendo recusas. As cenas de ensaio e no teatro têm luz âmbar e figurinos laranja, ressaltando a importância das artes para a vida das March.

Os departamentos de arte e de figurino também fazem trabalhos impressionantes. É tudo preciso e impecavelmente pensado para ajudar a caracterizar os personagens a nos situarem na história. Como a montagem do filme não privilegia a linearidade, os figurinos, a arte e as cores elegidas ajudam a situar em qual momento as personagens estão. Além de ajudarem cronologicamente, conferem um banquete estético e colorido aos nossos olhos.

O figurino é volumoso e extravagante: como se comportasse muitas camadas de mulheres, que precisam ser embelezadas e escondidas. Além disso há uma infinidade de apetrechos, como bolsas, luvas e tecidos: como se as mulheres tivessem um fardo a carregar. Em contraponto, é tudo muito colorido, alegre e em tons quentes. O que Gerwig nos diz é que, apesar do peso e das dificuldades, as mulheres resistem. E se divertem.

A trilha de Alexandre Desplat é de extrema delicadeza, e pode ser considerada também mais um personagem, representando uma das irmãs, compondo no filme uma atmosfera de rememoração.

Gerwig escancara a época em que o casamento era a única opção para as mulheres se darem bem na vida, e que, na maioria das vezes, era um acordo econômico e não amoroso. Em uma das falas, tia March diz que a mulher para ter o direito de não se casar, deveria ser rica. E ela só conseguiria essa proeza se trabalhasse num bordel ou se fosse atriz. Temos que ouvir também absurdos como o de que seria mais apropriado que mulheres não fossem à escola, e sim, estudassem em casa. Mas também há alguns respiros e reflexões, como os de Jo filosofando que se fosse uma garota num livro a sua vida seria mais fácil, ou que as mulheres têm alma, e ambição. Amy, por sua vez, num ataque de crise artística, assume que quem determina os gênios no mundo são os homens.

É um filme alegre, com meninas travessas se transformando em mulheres maduras, sem perder o vigor e a cumplicidade entre si. Há diversos momentos engraçados, como o em que a destemida Jo chora por ter cortado os cabelos. Em um mundo em que Jo não pode assinar o próprio nome em seus textos para não envergonhar a família, ainda há lugar para a vaidade.

A sensação é a de que estamos diante de uma fábula que acolhe, com benevolência e final feliz.É um filme onde há também generosidade masculina, como em Mr. Laurence (Chris Cooper), ou no tutor de seu neto, John Brooke (James Norton), com atitudes solidárias e amorosas para com as mulheres da história. O patriarca da família March (Bob Odenkirk), ainda que com uma rápida aparição, nos faz entender como foi possível florescerem em sua casa mulheres tão incríveis. Há bondade no universo de Gerwig, e não é lugar-comum, ela consegue autenticidade com uma aura milimetricamente construída. Para a trama, acho desnecessária a participação de Friedrich Bhaer (Louis Garrel), mas em uma justificativa metalinguística no final da história, Jo assume que alguns preços precisam ser pagos para que as mulheres sejam aceitas.

Gerwig não entrega apenas uma obra cuidadosamente bonita, somos conduzidos pela história, torcemos e acompanhamos os eventos por meio de personagens extremamente cativantes. O filme é uma ode à liberdade, independente de gênero. É sobre solidariedade feminina e representa mulheres se apoiando, lutando juntas e sobrevivendo em um mundo hostil. A estética é de época, mas nada poderia ser mais atual.