Alex Gonçalves e os filmes assistidos em janeiro

O crítico Alex Gonçalves, do Cine Resenhas, mandou a sua lista de filmes assistidos em janeiro e com os devidos comentários sobre cada uma das 73 (!!!) produções. Confira:

O Regresso palpites do Oscar
1 – O Regresso: esteticamente irrepreensível, o faroeste invernal de Iñárritu carece de substância. Temas que lhe eram caros antes de Birdman, como a incomunicabilidade e o conflito entre desiguais, são revistos sem o efeito dramático esperado.

2 – Pecados Antigos, Longas Sombras: grande vencedor do Goya 2015, com prêmios em nada menos que 10 categorias, o thriller de Alberto Rodríguez não consegue povoar a sua história com grandes personagens e sua leitura de uma Espanha pós-Franco soa deslocada.

3 – Carol: fazia tempo que a ficção não nos fazia acreditar na possibilidade de amor à primeira vista. Uma pena que os planos e contra planos nos arrebatem mais do que a entrega física das personagens.

4 – Brooklyn: verdade que a segunda metade reprise lances da primeira com pouca naturalidade, mas o drama sobre desapego é certeiro e desde O Diário de Uma Paixão que não vemos um jovem casal tão maravilhoso quanto Saoirse Ronan e Emory Cohen.

5 – Quando o Coração Floresce: a vontade é de dar um tapa na cara de Katharine Hepburn toda a vez que ela se nega a acreditar que a felicidade está diante dos seus olhos. David Lean filma Veneza como nenhum outro.

6 – A Filha de Ryan: épico romântico extraordinário de David Lean, decerto um dos filmes mais subestimados já concebidos e uma observação mordaz das más intenções enraizadas até mesmo em pequenas comunidades.

7 – Paixão: Brian De Palma de volta à linha de suspense que o consagrou, fazendo jus ao original “Crime de Amor” e visualizando a tecnologia como o verdadeiro vilão de sua premissa.

8 – Respire: quem diria que haveria na meiga Mélanie Laurent uma diretora agressiva? A juventude como ela é – e com consequências arrebatadoras.

9 – Imagens de Alívio: Lars von Trier ainda em processo de formação, em um média-metragem cuja única virtude é o seu apuro estético.

10 – Tommy: não exatamente um filme, mas uma junção de videoclipes. Não que se possa reclamar. Afinal, é The Who. Para assistir sob o efeito de alucinógenos.

11 – Glória Feita de Sangue: a primeira metade incomoda um bocado pelo comando desastroso de figurantes. Na segunda, temos a espera angustiante de um veredito e todo o zelo pelo qual reconhecemos Kubrick.

12 – Totally Fucked Up: de longe, o melhor filme de Gregg Araki em início de carreira, num painel fiel da juventude noventista.

13 – The Lumière Brothers’ First Films: uma bela oportunidade para ver algumas dúzias de filmes dos Lumière, com uma narração deliciosa de Bertrand Tavernier.

14 – Spartacus: épico exemplar, que merece ser conhecido ou revisto em tempos em que se discute tanto a figura do roteirista Dalton Trumbo, personagem do novo filme de Jay Roach.

15 – Gatinhas: estreia promissora de Adrian Lyne na direção, acompanhando os anseios de quadro amigas rebeldes e com uma conclusão trágica surpreendente.

Divertidamente melhores animações

16 – Divertida Mente: o título mais superestimado do ano passado, com praticamente dois filmes que se anulam a cada transição. E o conceito de controlar emoções por meio de botões não é nem um pouco original.

17 – A Roda da Fortuna: foi um fiasco na época em que foi lançado. Hoje em dia, pode ser considerado não somente o mais agridoce, como também um dos melhores da filmografia dos irmãos Coen.

18 – A Garota Dinamarquesa: desta vez, a culpa não é uma exclusividade de Tom Hooper, mas de um roteiro que infantiliza uma grande história. Ainda quero a versão protagonizada por Nicole Kidman.

19 – As Sufragistas: ok, a cartilha do filme-protesto é seguida à risca, mas é também um dos dramas mais indispensáveis em um período que se discute tanto sobre o empoderamento feminino. Carey Mulligan está irretocável.

20 – Zodíaco: a violência esterilizada de David Fincher novamente castrando o que poderia ser um clássico. Bem como o assassino de Dália Negra, Zodíaco aguarda uma nova geração para uma versão que faça jus ao seu legado assustador.

21 – O Quarto de Jack: o filme mais comovente da temporada de premiações. Sem verbalizar em excesso, Lenny Abrahamson constrói um drama sobre o sufoco dos grandes ambientes em contraste com o confinamento.

22 – Calvário: o John Michael McDonagh do terrível “O Guarda” renasce em “Calvário”, onde nenhuma fé religiosa é capaz de resgatar o espírito humano. Brendan Gleeson na interpretação masculina do ano passado.

23 – Spotlight – Segredos Revelados: um raro projeto no qual o trabalho em equipe é um valor definitivamente exaltado, sem que ninguém brilhe individualmente. Além, claro, do compromisso e da falha do jornalismo.

24 – Cada Um na Sua Casa: alguns temas de “Divertida Mente” retratados de maneira muito descolada e com ápices emocionais eficazes. Apanhou sem merecer e Tip é um modelo de garota que deveria adotado com mais frequência na animação.

25 – A Grande Aposta: Adam McKay utiliza todas as ferramentas ao seu dispor para tornar palatável um tema infilmável, sem muito sucesso. Um filme que está recebendo os louros que deveriam pertencer a Margin Call – O Dia Antes do Fim.

26 – Como Eliminar Seu Chefe: a gente não vê mais hoje em dia um trio como Jane Fonda, Lily Tomlin e Dolly Parton, mas essa comédia de Colin Higgins não envelheceu bem. A canção-tema de Parton continua tão charmosa quanto antes.

27 – Ponte dos Espiões: o melhor filme de Steven Spielberg há muito, ainda que contenha alguns dramas bobos – o filho de Tom Hanks é uma personificação dos medos infantis do diretor. E a parceria com o grande Thomas Newman deveria ser retomada.

28 – A Travessia: Robert Zemeckis faz um belo tributo ao World Trade Center, mas é um filme excessivamente refém de seu ato final. Reveja o documentário “O Equilibrista”. É mais negócio.

29 – Bizarro: Étienne Faure parece tão deslumbrado pelo corpo do modelo (e ator terrível) Pierre Prieur que se esquece de tirar o seu personagem da unidimensionalidade. Sem dizer que os takes no tal Bizarre Bar (ele realmente existe) são totalmente avulsos.

30 – Garota Sombria Caminha pela Noite: o famoso caso de um debut que impressiona mais pela estética singular do que por uma história bem contada. De qualquer modo, Ana Lily Amirpour é um nome para se acompanhar com atenção.

Melhores Cenas com Música de 2015 - A Girl Walk Home Alone at Night

31 – Cinco Graças: um filme de provocar revolta pela constatação de estarmos vivendo no século XXI ainda respeitando costumes dos mais primitivos. O título que deveria levar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano.

32 – D.U.F.F. – Você Conhece, Tem ou É: uma comédia colegial que abraça sem receios todos os seus estereótipos somente para revirá-los com graça e alguma originalidade.

33 – Magic Mike XXL: não apenas superior ao original, como também mais oportuno ao mudar a abordagem para algo que acentua ainda mais a camaradagem na trupe. A atenção para as necessidades femininas vem como o elemento surpresa.

34 – O Julgamento de Viviane Amsalem: ainda mais assombroso que “Cinco Graças”, com o diferencial de ter como únicos recursos uma sala e os conflitos orais. E a atuação e direção da estupenda Ronit Elkabetz.

35 – Evereste: enfraquece o êxtase ao atingir o cume e exagera no modo como deixa as emoções jorrarem quando a morte se anuncia. Os efeitos visuais são espetaculares.

36 – Minions: gostar dessas criaturas que servem o mal e que se comunicam de modo ininteligível é um caso de guilty pleasure indecifrável.

37 – Mulheres Apaixonadas: primeira vez que se vê no “mainstream” dois homens maduros e nus, Alan Bates e Oliver Reed, brigando entre si com todos os subtextos homoeróticos que se tem direito. Nem a morte de Ken Russell incentivou os debates que ele merece.

38 – Ajuste Final: outra obra pouco avaliada dos irmãos Coen que se revela uma das melhores de suas carreiras. Gabriel Byrne é o protagonista errante pelo qual somos capazes de nos identificar já no primeiro minuto.

39 – Steve Jobs: promessa de fiasco que consegue dar a volta por cima ao fazer um curioso paralelo da trajetória de Jobs com a progressão do cinema e com um terceiro tempo emocional que funciona.

40 – Anomalisa: uma animação exemplar até o instante em que as maluquices surreais de Charlie Kaufman entram em campo. A dublagem de Jennifer Jason Leigh confere tanta humanidade à Lisa que parece estarmos diante de alguém de verdade.

41 – Quero Ser John Malkovich: ainda o melhor que Spike Jonze e Charlie Kaufman já ofereceram. A solidão de seu protagonista se harmoniza perfeitamente com a proposta inacreditável.

42 – Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças: o excelente pontapé inicial e uma conclusão que ata os nós com brilhantismo são capazes de nos fazer relevar o excesso de fragmentação que toma o recheio da narrativa.

43 – Especialistas em Crise: uma dramédia política visivelmente prejudicada com a conversão de um papel originalmente masculino para o feminino, sendo difícil de ser levado a sério com tantas piadas bestas.

44 – Trumbo – Lista Negra: uma cinebiografia de verdade, que consegue corresponder ao que se espera do histórico de uma grande figura. Além do mais, a reconstrução de uma época e de suas personalidades (atentem a Dean O’Gorman como Kirk Douglas) é de cair o queixo.

45 – O Clube: prova que até o assunto mais escandaloso existente precisa de alguma sutileza presente em seu tratamento para surtir efeito. A observação crítica por vezes recai na mera vilania.

Rocky destaque

46 – Rocky, Um Lutador: Rocky é uma personificação clássica do herói gente como a gente e a sua obstinação em mostrar o seu valor quando as falhas parecem tê-lo dominado é o melhor que o filme tem a oferecer.

47 – Shaun: O Carneiro: recupera toda a tradição do que tornava as animações uma linguagem universal, encantando todos os públicos na mesma proporção. Todas as aparições da cachorrinha Slip exigem uma caixa de Kleenex como acompanhante.

48 – As Vozes: existe tanta inteligência no uso de humor negro neste primeiro longa falando em inglês de Marjane Satrapi que não é exagero ele ser tão controverso. Ryan Reynolds no papel de sua vida.

49 – A Rainha do Deserto: impossível não esperar a oitava maravilha do mundo diante de uma reunião entre Werner Herzog e Nicole Kidman. O que era para ser a versão feminina de “Lawrence da Arábia” resultou em uma tolice com uma aventureira romântica lamuriando em suas expedições.

50 – Redemoinho: aproxima Denis Villeneuve do experimentalismo com todas as bizarrices paralelas e prova que ele sempre foi ótimo ao domar os acasos que insere em suas histórias.

51 – 007 Contra o Satânico Dr. No: a primeira aventura de James Bond não envelheceu nem um pouco e prossegue como um dos melhores capítulos da franquia. Sean Connery prova que nasceu para viver o agente secreto já na primeira atirada de chapéu no cabide.

52 – Sr. Turner: um filme à altura de seu personagem real, ainda que possa provocar o efeito indesejado de não nos aprofundar na arte de William Turner.

53 – A Estrada 47: Vicente Ferraz encena a discreta participação brasileira durante a Segunda Guerra Mundial em um filme isento de qualquer atrativo que justifique a sua existência além da mera curiosidade.

54 – O Homem do Rio: poucas vezes (nunca?) o Brasil foi captado em seu esplendor por uma produção estrangeira e o comprometimento de Jean-Paul Belmondo em encarar praticamente todas as sequências de ação é comovente.

55 – Regressão: inadmissível que o mesmo Alejandro Amenábar que fez “Os Outros”, um dos filmes mais assustadores já produzidos, seja o mesmo que assina “Regressão”, o suspense mais risível da temporada.

56 – Joy – O Nome do Sucesso: 2016 mal começou e já temos o título mais subestimado do ano. David O. Russell se apropria de uma história nada cinematográfica e a transforma em um relato de perseverança prazeroso.

57 – O Conto da Princesa Kaguya: Isao Takahata nos encanta com uma coletânea de misticismos orientais, ainda que a duração exagerada evidencie muita gordura pelo caminho.

58 – Moscou Contra 007: James Bond nunca está muito a vontade em um único ambiente e, com a revisão, a viagem de trem em que enfrentará um de seus alvos resulta exaustiva.

59 – Aprendendo com a Vovó: uma ótima experiência por saber que grandes histórias podem ser extraídas dos mais banais acontecimentos da vida e porque oferece à Lily Tomlin uma nova chance de protagonismo para exibir toda a sua garra como atriz.

60 – Marte Ataca!: não surpreende que tenha fracassado na época de lançamento. Uma tentativa de homenagear o cinema B de ficção-científica completamente fora do tom e que sequer se importa com os seus personagens.

Marte Ataca filmes de janeiro

61 – 007 Contra Goldfinger: talvez o melhor filme de James Bond, tem um ritmo fluído, traz uma das melhores ameaças enfrentadas pelo herói e estabelece algumas regras que seriam convertidas em manuais para os capítulos seguintes.

62 – As Memórias de Marnie: a sugestão de primeiro amor entre as personagens dá lugar a descobertas relativamente previsíveis sobre a ausência de afeto familiar. Tem um belíssimo acabamento, mas não é marcante.

63 – Longe Deste Insensato Mundo: Thomas Vinterberg se afasta das convenções da adaptação de um romance literário, revendo Thomas Hardy de modo ainda mais passional e contemporâneo. A fragilidade que o bruto Matthias Schoenaerts confere como Gabriel Oak é comovente.

64 – Os Pinguins de Madagascar: os pinguins Capitão, Kowalski, Rico e Recruta roubaram a cena em “Madagascar”, mas não são os Minions para receberem um filme solo.

65 – Caçadores de Emoção: algumas tolices do texto compensam a garra de Kathryn Bigelow ao dirigir cenas de ação ainda extraordinárias e ao conferir peso aos dilemas do protagonista vivido por Keanu Reeves.

66 – 007 Contra a Chantagem Atômica: primeira vez em que James Bond comete uma falta em campo. Excessivamente longo, a ação se perde com o deslumbramento pelas filmagens subaquáticas.

67 – Boi Neon: uma pena ver as desconstruções (os homens vaidosos, a mulher bruta) e os flagras ternos (protagonizados em sua maioria por Alyne Santana) estarem a serviço de uma narrativa solta, que não nos leva a lugar algum.

68 – Caçadores de Emoção: Além do Limite: nota 9 pela adrenalina presente em sequências captadas com um realismo vertiginoso e nota 3 pelo aspecto humano que tornou o original um clássico.

69 – A Ilha do Milharal: um filme cuja ausência de verbalização não determina somente as relações entre os personagens, mas também com o público.

70 – Romance Policial: um romance policial tão barato e descartável que é certo que não seria encontrado sequer nas máquinas da 24X7 Cultural a R$ 2.

71 – Starry Eyes: surpreende pela entrega de Alex Essoe ao papel central, pelo trabalho de maquiagem impecável e por todo o gore que toma o filme no clímax.

72 – Begotten: recorrente em listas sobre os filmes mais perturbadores já produzidos, essa bobagem de E. Elias Merhige só deve assustar aqueles que ainda ficam sem dormir ao ver a foto de Katrin Malen.

73 – Entes Queridos: seria um novo clássico se Sean Byrne não cometesse alguns erros comuns para iniciantes, como as inserções de autoridades que se comportam estupidamente diante do perigo e de dramas paralelos com a única função de encher linguiça.

Starry Eyes janeiro

Alex Gonçalves

Jornalista em formação, é editor do Cine Resenhas, no ar desde 2007. Apaixonou-se por cinema aos seis anos ao alugar filmes de terror na saudosa Voyage, começou a pesquisar sobre a linguagem ao conhecer a obra de Brian De Palma e tem uma queda por Nicole Kidman e Parker Posey. É também um leitor voraz e um viciado em música, da erudita ao house.