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Brinquedo Assassino (2019)

Reimaginação insere o icônico Chucky na geração hiperconectada.

NO CINEMA, OS TÍTULOS QUE MARCARAM ÉPOCA o fizeram porque, normalmente, foram capazes de expressar características de seu tempo e geração. Em 1988, o terror tragicômico “Brinquedo Assassino” reunia elementos para alcançar este posto – ao qual, definitivamente, pertence. O sucesso da produção lhe valeu sete continuações menos marcantes e, 31 anos mais tarde, encaminha o icônico boneco Chucky ao encontro de novos públicos. Dirigido por Lars Klevberg, estreante em longas-metragens neste 2019, o novo Brinquedo Assassino pode estar distante da grandeza do original (a tarefa não era fácil), mas reúne as virtudes necessárias a qualquer boa refilmagem.

 

Peculiares da cinematografia oitentista, o misticismo e a violência slasher compunham o vilão que dava nome e razão de ser à trama original. Para a reimaginação, o endiabrado nasce do recurso mais discutido do nosso tempo: a tecnologia. Faz todo o sentido: se brinquedos ocupavam a atenção de crianças solitárias anos atrás, hoje os tablets, celulares e computadores são encarregados da tarefa. Fosse apenas uma criatura de plástico, incapaz de conectar-se a aparelhos digitais, reproduzir sons e assim por diante, esta versão do boneco certamente não teria tempo de matar uma pessoa sequer antes de ser descartada por seu proprietário, Andy (Gabriel Bateman), homônimo de sua versão inicial.

 

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Recém-chegado ao local onde mora – as caixas de mudança revelam – e isolado de outras crianças e adolescentes, o garoto não demora a fechar um álbum de fotos quando esbarra num suposto registro de seu pai. Além da mãe, Karen (Aubrey Plaza, de talento pouco explorado pela tela grande), ele carece de companhias que não sejam a de um gato mal-encarado e uma espécie de padrasto de mau gosto, Shane (David Lewis). Seu novo “melhor amigo”, afinal, lhe serve providencialmente. O clima aventureiro que se apossa do primeiro ato da narrativa constrói, aos poucos, uma amizade sem qualquer traço de desarmonia – ao menos até que Chucky ofereça as primeiras pistas de onde está disposto a chegar para não desapontar seu companheiro.

 

Inteligente, o roteiro explora a criação se situações num curto espaço e tempo, o que nos situa rapidamente à rotina do protagonista, entre raros prazeres (o simpático encontro com o detetive Mike (Brian Tyree Henry)) e recorrentes incômodos (as visitas do grosseiro namorado de sua mãe). Embora revele seus sentimentos apenas para si – no que diz respeito a seres humanos -, Andy também os expõe a Chucky, uma máquina moldada para atender aos desejos do dono e, por sua natureza, incapaz de restringir moralmente o desejo de matar alguém que dizemos “não aguentar mais”. Distante de um “demônio tecnológico”, o personagem-título toma como exemplos de ação aquilo que o cerca – caso das cenas sanguinolentas que divertem Andy na tela da televisão.

 

Chucky perpetra violências projetadas. Ao emular aquilo que, outrora, a série “Black Mirror” soube fazer, Brinquedo Assassino explicita, a cada execução do boneco, todo o sadismo que pode se realizar através da tecnologia. Aqui, é claro, de forma muito mais visceral, divertida e fiel ao nonsense que acompanha a franquia. Embora tais situações careçam de certa lógica – como Chucky sabia voltar da casa de determinada vítima? -, a experiência não se desmancha ou empalidece. Trata-se de um esforço consciente de que reimaginar uma obra não consiste em apenas deslocar seus elementos para a atualidade e esperar que eles voltem a funcionar – isto sequer seria “reimaginá-la”, afinal de contas.

 

Brinquedo Assassino

Child’s Play. EUA/Canadá, 2019. De Lars Klevberg.

Veredicto do Buteco: ★★★½ [bota as três caipirinhas e meia aí, por gentileza]