BRTRANS – A arte e a sobrevivência no país que mais mata transexuais no mundo

“Agora eu vou contar a história de…” É assim que Silvero Pereira constrói uma dramaturgia que estabelece uma relação com propriedades historicamente atribuídas ao teatro político. A cada momento, o ator narra histórias sobre as mulheres trans que vivem no extremo da marginalidade, que são assassinadas de forma violenta, exploradas, abusadas, abandonadas pelas famílias, e, principalmente, aquelas que usam toda força para fazer surgir algum amor diante da brutalidade.

“Quando se é travesti certos posicionamentos são necessários por conta da grande exposição violenta que sofremos. É uma questão de sobrevivência” Raquel Virgínia

Atravessado de outras vozes e apropriações, BRTRANS retrata o drama vivido por travestis no Brasil, revestindo todas as dores e alegrias dentro do palco, resultando em indicações para os prêmios APTR (Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro), entre outras premiações. Em 2015, a montagem foi eleita pelo Estado e O Globo como uma das 10 melhores peças de teatro do ano.

brtrans ccbb bh

As discussões sobre gênero e identidade estão num momento de ascensão na sociedade. E é preciso usar este momento para debatermos sobre tais questões urgentemente. Se você não sabe, o Brasil é o que mais mata transexuais no mundo. Foram 600 assassinatos — um número que pode aumentar se considerado os casos não investigados, que, infelizmente, não são poucos. Somos uma sociedade machista, patriarcal, preconceituosa e violenta. E é no contexto de trazer à tona as verdades que tanto escondem de nós acerca do universo trans, que o espetáculo BRTRANS se apresenta. Este monólogo-manifesto é um trabalho documental que levou cerca de 12 anos, entre universidades, presídios e ruas, e as que mais comoveram Silvero viraram o espetáculo.

BRTRANS traz à cena histórias sobre medo, solidão e morte. Histórias que se encontram e se confundem entre si e com a vida e as inquietações do ator. Criado a partir de fragmentos de vida reais, coletados através de conversas com travestis, transexuais e transformistas entre os Estados do Ceará e Rio Grande do Sul, BR-TRANS apresenta histórias sobre exclusão e violência, presentes no cotidiano dessas pessoas, vivenciadas de norte a sul deste país. Entretanto, subvertendo essas tristes histórias, a obra vai além ao abordar narrativas de superação e transformação.

BRTRANS ESPETACULO CCBB BELO HORIZONTE

O espetáculo é o resultado da denúncia legítima que nos esfrega na cara que para cada pessoa trans sendo exceção e tendo entradas na vida social antes não vistas, existem milhares de outras que ainda buscam o mínimo: permanecerem vivas. As histórias ali contadas são recortes de vidas a partir de pesquisas e conversas pelas ruas e casas de shows com travestis, transformistas e transexuais de Porto Alegre.

Indo na contramão de representações estereotipadas, o ator dá vida a Gisele Almodóvar (filha de Gisele Bündchen e Pedro Almodóvar). Gisele nasceu em 2002 a partir de uma pesquisa do ator sobre transexualidade desenvolvida na companhia As Travestidas, do Ceará. É com Gisele que Silvero divide cena, corpo e voz para contar histórias, nos fazer sorrir e também chorar. Gisele dá voz à mulheres como Babi, Dani, Bruna,etc. Cada uma com uma história diferente, mas com o mesmo em comum: todas são vítimas de transfobia no Brasil.

Durante os 70 minutos de espetáculo, Silvero divide o palco com o músico Rodrigo Apolinário, que além de músicas próprias, ainda interpretam as conhecidas “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, “Masculino e Feminino”, de Pepeu Gomes, “Balada de Gisberta”, de Maria Bethania, “Summertime Sadness”, de Lana Del Rey e “Shake It Out”, da banda Florence and The Machines fazem parte da trilha sonora deste monólogo-manifesto, deixando o público ainda mais próximo de Gisele. Vale ressaltar que BRTRANS quebra a quarta parede em diversos momentos da apresentação, criando uma espécie de amizade, como por exemplo, ao sermos servidos com o abacaxi que acabou de ser utilizado como metáfora para uma história sobre a vida amarga de uma trans.

No palco, o cenário simula uma kitnet repleta de objetos significativos. Ao fundo, uma projeção é utilizada com uma contagem interminável de vítimas de transfobia no Brasil, nos tirando da zona de conforto e mostrando a verdade que tanto escondem de nós.

É impossível não sair tocado, emocionado, horrorizado e ao mesmo tempo apaixonado por tudo que o projeto nos joga na cara. Sem dúvida alguma, Silvero Pereira é um ator completo que prenderá sua atenção e ficará em sua mente muito depois de você ter assistido ao espetáculo!

A peça está em cartaz no CCBB Belo Horizonte até o dia 19 de setembro. Confira todas as datas e horários clicando aqui. 

Ficha Técnica

Direção: Jezebel De Carli

Texto e Atuação: Silvero Pereira

Dramaturgia Cênica: Jezebel De Carli e Silvero Pereira

Músico em Cena: Rodrigo Apolinário

Cenário: Silvero Pereira e Marco Krug

Cenotécnico: Rodrigo Shalako

Realização: Quintal Produções Artísticas e Coletivo Artístico As Travestidas

Felipe Borba

Nasceu no Pará, cresceu no Maranhão e vive em Minas Gerais. Além de se considerar um explorador da natureza; Felipe é publicitário com especialização em Marketing Estratégico, é viciado em novas tecnologias, queria ser adotado pelo Neil Gaiman e tem mais livros do que dá conta de ler.