#ButecoInRio 2017 – 06: Pequena Grande Vida, O Formidável e O Estado das Coisas

O Formidável

Chegamos, enfim, ao último dia de cobertura de mais um Festival do Rio, mais uma vez com a sensação de extrema satisfação em experimentar a cinefilia mais de perto, conhecer espaços de resistência cultural e estar num evento que cerca as produções que exibe com uma atmosfera propícia para que possamos vê-las, discuti-las e vivê-las intensamente. Neste momento, porém, vamos ao que interessa: os filmes.

15) Pequena Grande Vida ★★★

(Downsizing, EUA, 2017. De Alexander Payne)

Local: Kinoplex São Luiz, no Catete

 

Alexander Payne é um dos grandes contadores de história do cinema contemporâneo. Duas vezes vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado, por “Sideways” e “Os Descendentes”, o realizador nascido em Nebraska entrega narrativas notavelmente hábeis para nos envolver emocional e afetivamente, sobretudo pela verdade que carregam. Com o ápice desta virtude atingido em “Nebraska”, Payne emprega belas doses de uma herança pessoal em cada um de seus roteiros. Em títulos como “Eleição” e o supracitado “Sideways”, porém, as tramas mais com maior capacidade de comoção cedem seu espaço às narrativas de tom mais ácido, uma marca, também, deste Pequena Grande Vida, seu mais recente projeto.

Partindo de um conceito divertidamente criativo, no qual o processo de encolhimento permite às pessoas viverem uma vida menos custosa e agressiva ao meio ambiente, dentro de uma reprodução reduzida bastante semelhante ao “mundo real”, o longa-metragem nos apresenta a Paul (Matt Damon) e Audrey Safranek (Kristen Wiig), um casal estadunidense que, ciente da impossibilidade econômica de levar a vida outrora desejada, decide topar o embarque na novidade. A partir da composição de Matt Damon, passamos a assimilar, ainda enuviadas, as intenções do texto de Pequena Grande Vida: o eterno Will Hunting incorpora, inclusive fisicamente, o estereótipo perfeito do “average american”, um sujeito que já abandonou qualquer plano mais ambicioso, deixou a barriga salientar e, hoje, não alça suas pretensões além de desejos de consumo. A vida em Lazerlândia oferece o necessário para satisfazer plenamente Paul Safranek.

E, ao desmascarar completamente a fantasia nobre que são os supostos compromissos da inovação, o vizinho do protagonista, Dusan (Christoph Waltz) – personagem mais divertido do filme -, evidencia por fim a proposta satírica da produção. Lazerlândia não é a “arca de salvação” da espécie, mas um mero oásis de lucratividade para aqueles que compreenderam honestamente sua proposta. A partir disto, Alexander Payne habilmente cerca de acidez todo o vazio do discurso ambientalista que embasa esta criação e, alegoricamente, todo o engajamento ecológico contemporâneo, marcadamente elitista e fortalecido por grupos que, tão preocupados com o futuro dos animais, preservam e, mesmo, endossam a manutenção de injustiças sociais com a própria espécie humana. Não à toa, o “mundo perfeito dos pequenos” possui sua própria região periférica.

Travestida sob a estrutura de um drama engajado, uma vez que mune seu protagonista de “boas intenções” – e é inteligentemente irônico que, embora as carregue, o sujeito não dote de qualquer tipo de esclarecimento quanto aos compromissos sociais que deseja assumir -, Pequena Grande Vida oferece, na simpática e franca Ncog Lan Tran (Hong Chau), a “carta resposta” a todos os compromissados que, munidos por discursos intelectualmente belos e pela exposição de cada um de seus “nobres atos”, oferecem ao mundo muito menos do que aquela vietnamita que, condenada à pobreza e ignorada pelo mundo, efetivamente ajudava muitas pessoas. Ainda que não apresente, neste projeto, a habitual sensibilidade para a construção de figuras humanas complexas e com as quais possamos nos conectar profundamente, Alexander Payne mantém-se um artista que precisa ser acompanhado de perto – afinal, ironizar a realidade pode render utopias muito mais honestas do que imaginamos.

16) O Formidável ★★★★½

(Le Redoutable, França, 2017. De Michel Hazanavicius)

Local: Kinoplex São Luiz, no Catete

 

“Fazer cinema é como fazer amor com uma mulher morta”.

A declaração de Jean-Luc Godard (Louis Garrel), no auge de sua frustração com a própria incapacidade de exprimir suas insatisfações sociais através da produção cinematográfica, parece eleita por Michel Hazanavicius para ser completamente exterminada na realização d’O Formidável. Ao contrário do sentimento expressado por Godard, aqui temos a oportunidade de acompanhar uma narrativa que transborda energia, ambição e autenticidade.

Decidido a construir o retrato de uma figura tão icônica para o cinema quanto seu protagonista, Hazanavicius, alguém evidentemente apaixonado pela sétima arte, poderia facilmente cair no equívoco de entregar uma “obra de adoração”, incapaz de cavar mais profundamente nas entranhas do ser humano que acompanha por prender-se à tarefa de exaltá-lo. Afortunadamente, não é o caso. Jean-Luc é admirável, de fato, pela maneira absoluta e incontestavelmente apaixonada e determinada como vive a arte à qual se dedica. O cinema, para Godard, deve ser objeto de inquietação e instrumento de transformação social – o que, num contexto efervescente para a representatividade política da cultura, o encaminharia para tornar-se um maluco obcecado pela força simbólica e ideológica que seus filmes poderiam exercer. E isto, acredite, é um elogio. Inconformado com a posição “passiva” que as referências intelectuais representam numa condição histórica de revolução e transformação social – uma frustração semelhante à dos próceres do nosso Cinema Novo -, ele desejava agir além do discurso e encobrir-se plenamente das causas progressistas que suportava, em cada uma de suas ações. As angústias do ambicioso francês, todavia, estão enraizadas numa indagação ainda mais profunda e constante: a arte, meio ao qual entregava aquilo que era, teria, afinal, o poder de revolucionar de fato a realidade? O cinema era capaz de transcender as telas de projeção, o mero escapismo de entretenimento? Ou seus esforços estariam sendo em vão?

O texto, no entanto, jamais permite o endeusamento àquela personalidade que, cheia de si e presa às próprias convicções, assume uma arrogância que não lhe cabe, desprezando muitos daqueles que o tinham em lugar de importância. Ainda que estivesse integralmente comprometido com suas causas, Jean-Luc jamais esteve livre de uma carência afetiva que encontrava alívio no sentimento possessivo proporcionado por sua relação com a jovem Anne (Stacy Martin), uma doce atriz que, fascinada por tudo o que o cineasta representava, apaixonou-se perdidamente. Incapaz de sensibilizar-se com algo além dos próprios desejos, Godard impôs a Anne uma solidão devastadora, fruto da entrega da moça em contraposição a um egoísmo amargo de Godard, que a prendia em função das próprias necessidades.

A exemplo do compromisso de renovação da linguagem adotado por Jean-Luc Godard, O Formidável não se prende às fórmulas e cartilhas das narrativas biográficas, e isto é o que torna irresistível prová-lo. Entre os letreiros que acidamente indicam o início de cada “capítulo” de sua trajetória, o protagonista transita pelas provocações de reações distintas em seu público, fugindo de qualquer dicotomia para ser consolidado como um personagem complexo e multifacetado – do hilário macguffin que são os massacres aos seus óculos ao momento em que, elegantemente, quebra a quarta parede. A utilização de recursos exteriores, como a negativação visual de uma sequência – expondo visualmente uma forte decepção de Godard – e uma requintada intervenção irônica nas legendas responsável pela construção de um brilhantemente silencioso diálogo que intitulei “conversa honesta de um casal”, revela as intenções ambiciosas de seu realizador, disposto a arriscar-se entre convergências estéticas para construir uma obra profundamente energizada, contemporânea e vigorosa.

Mantendo-se interessante e cativante – mesmo para aqueles que sequer conhecem a obra do personagem retratado – durante toda a projeção, o longa-metragem mergulha numa figura fascinante e verossímil por exibir, por trás da persona cheia de si que habilmente desenvolveu, uma acentuada insegurança quanto à possibilidade de realização de seus próprios anseios. O Formidável diverte por divertir-se com cada camada de um sujeito que, mesmo quando não fosse mais capaz de crer nas próprias palavras, manter-se-ia fiel ao seu discurso e o defenderia aguerridamente – mesmo que isso o custasse caro. E como diverte.

17) O Estado das Coisas ★★★

(Brad’s Status, EUA, 2017. De Mike White)

Local: Cine Roxy, em Copacabana

 

A despretensão é, por natureza, uma característica negativa no âmbito da arte. Qualquer obra artística, afinal, deve propor-se a ser desafiadora, quebrar paradigmas, oferecer novas perspectivas de envolvimento ao seu público. Ainda assim, o cinema atribuiu uma nova interpretação à despretensão, na qual, mesmo que abdiquem de atingir o status de grande obra cinematográfica, algumas produções podem utilizar-se desta positivamente.

O Estado das Coisas apresenta uma das narrativas mais simples a que pudemos conferir nos tempos recentes. Há uma proposta clara, apenas duas personagens efetivamente retratadas e um roteiro que apresenta poucos conflitos e transições – focado nas aflições internas do protagonista, Brad (Ben Stiller). Carrega, em sua abordagem, a pacatez intrínseca à rotina daquele sujeito de meia idade que, nas realizações do filho, Troy (Austin Abrams), prestes a ingressar na vida universitária, encara as frustrações de sua própria vida, na qual não conseguiu atingir as realizações que almejava.

Quase sempre em tons frios e neutros, a fotografia de Xavier Grobet, aliada à direção simples de Mike White, nos contextualiza eficientemente ao contexto da relação entre o pai e seu filho que, embora não seja conflituosa, revela uma certa frieza e distanciamento emocional. Dramaticamente acima do tom apenas a certo ponto das epifanias de Brad, O Estado das Coisas quase sempre se atém ao agridoce de sua atmosfera, capaz de, em sua simplicidade, nos conquistar – mesmo que apenas enquanto dure a projeção.

 

Até 2018!

Leonardo Lopes

Eu já sabia que ia terminar assim. Estudante de Jornalismo (FAAP-SP). Tenho o Cinema e a comunicação como grandes (únicas?) paixões. Marxista e pessimista. Saudosista e louco.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.