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Conto 2: Nina e Bartô

Nina e Bartô

 

Sabe aquele par que não se desgruda? Aquela dupla que forma um dueto perfeito e harmonioso? Assim era Nina e Bartolomeu (ou só Bartô). “Esses dois são inseparáveis”, como dizia Dona Sônia, a avó da menina. Desde quando os olhares se cruzaram, Nina sabia que era ele. Foi certeiro. Ela sentiu que era amor de verdade no momento que pegou Bartô nos braços pela primeira vez, tão pequeno e indefeso, na ONG de animais. Como uma mãe tomada de amor e coragem, orgulhosa da sua cria, caminhou radiante com o filhote no colo, com um único pensamento em mente  “agora a família está completa”.

Mas, não pense que foi fácil convencer os pais. Demorou uns dois anos para Laura e Pedro concordarem em receber um integrante canino na família. Entre as centenas de argumentações de Nina, a cartada final foi quando a filha única soltou “vocês já não me deram uma irmãzinha, então pelo mesmo me deem um cachorrinho.”

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Foi assim que a vida de Bartô cruzou com a de Nina. Ele não poderia ter vida melhor. A menina apagou qualquer vestígio de carência de abandono. Eles formavam a dupla dinâmica da família Rodrigues.

Onde estava Nina, lá estava o Bartô. Quando ela estudava; durante as refeições; nas viagens da família à praia; nos passeios ao parque. Nem dava bola para as visitas, queria mesmo é ficar perto da garotinha. O amor era incondicional. Cresceram juntos e unidos. Eles se entendiam só pelo olhar.

O cãozinho também era o seu confidente. Nina confidenciava todos seus segredos à Bartô. Para seu irmão adotivo, ela contava sobre as notas baixas; os professores que gostava e as matérias que odiava; as fofocas da escola; as descobertas; as tristezas; as decepções. Ele foi o primeiro a saber do seu primeiro amor, o menino do Ensino Médio que era fofo e lindo, segundo suas próprias palavras. O mais curioso é que o amigo peludo permanecia quietinho quando ela começava Bartô vou te contar um segredo… Até parecia entender tudo que ouvia?! Era uma coisa ou outra que compartilhava com a família. Não tinha vez para ninguém, Bartô era a bola da vez no coração de Nina. Os pais ficavam admirados com tamanha cumplicidade. Laura às vezes soltava “Nina e Bartô se amam mais do que irmãos de verdade!”.

Os mais céticos podiam não acreditar, mas quando viam os dois juntos, logo percebiam o sentimento genuíno entre os dois. No começo, ela era a irmã mais velha que cuidava do filhote medroso e inseguro. Com o passar dos anos, o cão ganhara tamanho e confiança para, assim, poder assumir o papel de irmão mais velho, o fiel guardião da adolescente Nina.

Eles continuavam unidos. Quando ela estava em casa, eram unha e carne. Acontece que Nina tinha agora outros interesses. As conversas com as amigas e as saídas eram frequentes. Porém, quando chegava em casa, Bartô estava posicionado em frente à porta, aguardando ansiosamente sua companhia. Nina retribuía a fidelidade do amigão com afagos e confidências ao pé do ouvido. Ah! Como ele adorava aquilo.

Até que um dia, a adolescente rompeu a porta da casa com tudo. O movimento foi tão brusco que Bartô se levantou rapidamente e mal viu a sombra de Nina dirigir-se para o quarto. Ainda meio sem entender resolveu segui-la mesmo assim. Ela estava deitada na cama. Nem percebeu sua chegada. Parecia tão triste. Devagarzinho, ele foi chegando mais perto e mais perto. Em um único gesto encostou o focinho na sua testa. Ela nem reagiu. Parecia estar longe dali. Então, repetiu o gesto e depois cutucou suas mãos com a pata. Nem o mais gélido dos seres humanos resistiria a tal demonstração de afeto. Totalmente rendida, Nina olhou para Bartô e ele parecia dizer que tudo iria ficar bem. Seus olhares se cruzaram em tamanha cumplicidade como janelas da alma. Então, a menina deu um suspiro e lembrou que sua vida era completa! Simples assim…