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Crítica: Com Amor, Simon (2018)

Produtores de A Culpa é das Estrelas acertam em mais uma adaptação, desta vez sobre um adolescente homossexual que busca a libertação e uma grande história de amor.

Precisamos falar sobre Com Amor, Simon. Não porque é uma obra-prima e, sim, porque representa algo muito importante. Não é a primeira vez que vemos um protagonista homossexual no cinema, mas nunca vimos isso acontecer em uma produção de larga escala, ambientada no Ensino Médio, com um público majoritariamente jovem. Afinal, estamos falando dos mesmos produtores de A Culpa é das Estrelas.

Mais do que uma história sobre um adolescente que não “sai do armário” – detesto esse termo, pois ninguém deveria sair de lugar nenhum; é um peso que colocamos nas costas de milhões de indivíduos por pura ignorância -, é uma história de amor. É sobre como todo mundo merece viver um grande amor, independente de sua orientação sexual. Parece algo óbvio, mas nossa sociedade ainda é extremamente preconceituosa. Muitos dizem “Seja feliz, não importa o que os outros pensam”, só que não é tão fácil assim. Digo isso porque conheço várias pessoas gays que, ou ainda não se libertaram (algumas até nem vão, infelizmente), ou levaram anos e anos para ter a coragem de serem que realmente são. E até isso acontecer, envolveram-se em relacionamentos heterossexuais para se sentirem aceitas e/ou esconderem sua sexualidade.

Pois bem. É muito difícil viver em um mundo que ainda prega que o “certo” é ter uma família com pai e mãe; que tudo que não é heterossexual é errado, fora do comum, doença. Tem gente que passa a vida inteira reprimindo quem é por vergonha, por medo de sofrer preconceito, por medo de apanhar, por medo de ouvir “sua bichona”, “não existe bissexualidade, você gosta de um ou outro”, “sua sapatona” ou “homem nasceu homem e vai morrer homem, transexualidade não existe”. E acredite: aqueles comentários homofóbicos que ouvimos em rodas de amigos, de colegas e de familiares definitivamente não ajudam. “Olha aquele casal de homens se beijando, credo”, “Deus me livre ter um filho/filha gay”, “Aquela menina está namorando uma mulher porque não tem opção, é só uma fase”.

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Com Amor, Simon mostra um pouco disso tudo e me traz até certa dor no coração ver o filme apenas agora, em 2018. Mas eu entendo, o mundo era bem diferente dez, 20 anos atrás, e Hollywood jamais gastaria dinheiro em uma produção do tipo. O importante é que o drama finalmente está em cartaz e discute com muita sutileza um tema complexo, deixando-o acessível a pessoas de qualquer idade.

Simon (Nick Robinson) é gay e sabe disso desde os 13 anos. Já namorou meninas, mas pra “inglês ver”. Provavelmente terminaria o Ensino Médio enrustido e somente se assumiria na faculdade, até que conhece alguém que muda isso. O nome dele é Blue, um anônimo que se abre em um blog popular da escola, com quem ele conversa e se apaixona, adiantando sua “saída do armário”. E olha que o rapaz até tem uma oportunidade que muitos abraçariam, que é a de namorar de fachada uma garota linda e descolada que é louca por ele. Mas ele é muito bem resolvido para optar por esse caminho.

Enfim, cedo ou tarde surge alguém que cria em nós a coragem de sermos nossa essência; talvez não seja essa pessoa aquela que foi feita pra gente, mas é alguém que nos faz dizer a nós mesmos: “Pare de se esconder, tenha experiências porque só vivemos uma vez”. Algo como aquele diálogo fantástico no final de Me Chame pelo seu Nome, sabe? Cada um tem seu tempo, mas quando finalmente nos descobrimos e nos libertamos de valores que a sociedade nos impõe, nossa, é um sentimento libertador!

Além de um elenco convincente e carismático, o filme de Greg Berlanti traz um enredo que aborda a sexualidade e o amor de uma forma tão delicada que é quase impossível não se envolver e se emocionar. Como qualquer um (a) em sua posição, Simon fantasia mil coisas, comete erros e machuca pessoas que não quer por causa do medo de se assumir. Porém, com o apoio da família (preste atenção em Jennifer Garner, que interpreta a mãe) e o aprendizado que ganha, ele solta o fôlego e decide ser feliz. E inspira vários à sua volta.

Espero que faça o mesmo em cada espectador (a) que assistir ao filme. Afinal, hétero não é e nunca deveria ter sido o modo padrão de vida; o padrão é ser feliz e amar, sentimentos que não têm gênero nenhum e só dizem respeito a você.

 

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