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Crítica de Tenet: Excesso de frieza prejudica o filme

Dani Pacheco compartilha a sua opinião sobre o novo filme de Christopher Nolan.

Tenet (EUA/Reino Unido, 2020) não é uma nova aventura para Christopher Nolan. Quem o conhece, sabe que o cineasta é capaz de fazer, como ninguém, bons filmes de suspense. Aliás, o início da sua carreira foi marcado por produções brilhantes do gênero: Following (1998), Amnésia (2000) e Insônia (2002). De lá pra cá, ele ainda comandou A Origem (2010) e Interestelar (2014), dois longas de alto orçamento e de grande sucesso comercial. Ou seja, Nolan tem total preparo para assumir um filme com as proporções de Tenet.

Tenet x A Origem

tenet critica

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Existem teorias da conspiração sobre a história ser uma continuação de A Origem, mas já adianto que não tem nada disso. São muitos pontos em comum, como cenas eletrizantes de ação e um enredo marcado pela dicotomia tempo e espaço. Só que como já disse John David Washington, é como se ambos os longas fossem parentes, que se encontram em datas especiais; cada um mora em um lugar, com sua respectiva família.

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O que destoa Tenet dos projetos anteriores de Nolan é que temos aqui um filme de espionagem quase que puramente focado na ação. Temos um protagonista (Washington) com uma missão desafiadora e cheia de detalhes complexos, que precisa percorrer um caminho hostil até cumprir o seu objetivo. Desde a primeira cena até o último ato, somos expostos a uma série de sequências de tirar o fôlego. Jennifer Lame (História de um Casamento, Hereditário, Manchester à Beira-Mar, Frances Ha) foi muito competente em sua primeira montagem de um longa do tipo. E como a questão do tempo é forte no enredo, isso torna o resultado que vemos na tela ainda mais especial. Assim que você entende a dinâmica do que está acontecendo, percebe o quão bem feito Tenet é.

A trilha sonora, desta vez composta pelo sueco Ludwig Göransson (Venom, Pantera Negra, Creed), traz uma energia renovada ao universo Nolan, antes marcado pelas colaborações com o gênio Hans Zimmer. É interessante acompanhar de maneira diferente as ideias criadas pela mente do diretor britânico. Uma mudança de ares é sempre bem-vinda e funciona muito bem neste caso.

Excesso de frieza

tenet critica do filme

Porém, o calcanhar de Aquiles da produção está justamente aí. Por mais complexa que seja uma história, existem maneiras de conseguir se envolver. O próprio Nolan já nos mostrou isso em A Origem e Interestelar. É muita informação e a gente nem sempre vai compreender tudo que nos é apresentado – eu não entendi quase nada. Por isso que personagens com os quais conseguimos nos identificar, que nos comovem, ajudam a manter o nosso interesse ativo.

Quando damos de cara com Tenet, somos expostos à cenas de ação frequentes e teorias bizarras, mas o emocional fica de lado. Washington é extremamente talentoso, mas foi difícil construir uma conexão com o seu papel. Neil (Robert Pattinson) cresce à medida em que a trama avança, somente conseguindo nos conquistar de verdade na terceira parte. Sator (Kenneth Branagh) eu diria que é humano só por causa da aparência física. Apenas a coadjuvante Kat (Elizabeth Debicki) é o elo emocional forte com os espectadores, pelo menos a meu ver.

Alguns afirmam que Dunkirk é um filme seco e frio. Discordo, pois os arcos de Tom Hardy e Mark Rylance trazem um forte apego emocional com suas histórias. Tenet, por sua vez, encaixa-se nesses adjetivos. Debicki consegue nos comover em grande parte de suas cenas, mas não é suficiente. Era necessário que o protagonista fizesse isso também, o que só ocorre, de forma significativa, no desfecho, após mais de duas horas de filme. Como criar um elo se o personagem principal não nos cativa? Leonard, Cobb e Cooper conseguiram, por exemplo.

Veredito

Tenet é um bom filme. Pra quem busca ação e suspense, é uma produção que vale o seu tempo, uma vez que entrar na cabeça de Nolan é sempre uma jornada interessante. Os 200 milhões de dólares gastos são visíveis com base no que vemos na tela. No entanto, o longa é, talvez, o projeto mais frio do cineasta. E esse excesso de frieza é uma decepção.