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Crítica: Desobediência (2018)

Estava no Instagram, me deparei com uma imagem da Rachel Weisz e Rachel McAdams se beijando e não entendi nada. Pesquisei, descobri o nome do filme, assisti ao trailer e comecei a contar as horas pra chegar aos EUA e comprar ingresso no cinema mais próximo do meu hostel. E foi exatamente isso que fiz depois de aterrizar em Nova York.

Estamos, felizmente, numa onda de filmes com temática LGBT de altíssimo nível, com elencos fantásticos e histórias bem escritas. No último ano, produções como Me Chame pelo seu Nome (2017), Com Amor, Simon (2018) e até mesmo Lady Bird (2017) – de leve, mas discute também – colocaram em pauta, de formas diferentes, o assunto. E fico em êxtase com isso tudo, em como a indústria do cinema está investindo em longas do gênero e ajudando a abrir a cabeça da nossa sociedade. Sem contar as milhões de pessoas da comunidade LGBT que acabam vendo os filmes e tomam a coragem de se libertarem ou pelo menos se aceitarem mais.

Esti (McAdams) se casa com Novid (Alessandro Nivola) – um homem bom, trabalhador e que a ama – porque era o mais “correto” para todos à sua volta na pequena comunidade ortodoxa em que vivem em Londres. “Ele é uma pessoa tão boa, casa com ele! Quem sabe ele não te cura?”. Mas ela sabia muito bem que era gay e amava Ronit (Weisz), um amor de infância; Novid também sabia, assim como seus parentes. Ninguém cura a sexualidade do outro, ninguém escolhe a sua sexualidade. Obviamente, esse teatro social de Esti funciona por vários anos, durante os quais ela reprime sua atração por mulheres e se força a viver em um casamento heterossexual. Isto até Ronit retornar à cidade após a morte do pai. E quando o amor bate na sua porta novamente…

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Duas cenas mostram muito bem a reflexão que o diretor Sebastián Lelio se propõe a fazer. Em uma, vemos Esti e Novid fazendo sexo na cama, com ela claramente fingindo prazer para agradá-lo. Depois, vemos a personagem fazer o mesmo com Ronit, em um quarto de hotel. A diferença é gritante. O sexo é tão intenso, cheio de desejo e paixão, que você consegue entender o tanto que ambas seguraram dentro de si todos aqueles anos longe uma da outra. Lembra até um pouco a famosa cena de Azul é a Cor Mais Quente (2013).

É comum homens e mulheres, independente da orientação sexual, deixarem de viver grandes histórias de amor e serem felizes de verdade por medo, comodidade, carência e/ou para viver de aparências em uma sociedade altamente julgadora e ainda tradicional em diversos aspectos. Mas isso não dura pra sempre; uma hora, o passado ou verdade que eles ignoram sempre volta para os questionar.

É claro que se pode continuar a negar o óbvio e insistir em viver algo que não é bom; é um caminho difícil, infeliz e sem paz, mas para algumas pessoas é a opção mais fácil. Por outro lado, você pode dar um basta e finalmente decidir se libertar e ser feliz.

Desobedecer é uma palavra meio rebelde, às vezes até amedrontadora. Porém, é preciso de alguns momentos de desobediência para transformar a sociedade e acabar com preconceitos e julgamentos que condenam vidas todos os dias. Esse é o dia em que verdadeiramente nascemos e o filme nos mostra exatamente isso.

 

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