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Crítica: Halloween (2018)

poster halloween 2018ALGUÉM ME FALA COMO O CARA QUE ESCREVEU SUA ALTEZA? E O CARA QUE DIRIGIU O BABA(CA) CONSEGUIRAM FAZER O MELHOR FILME DA FRANQUIA HALLOWEEN? Nunca imaginei que o roteirista Danny McBride, famoso por ser um ator engraçadinho amigo do James Franco, pudesse ter um feeling tão apurado para um roteiro de terror. Também confesso que não passava pela minha mente que o diretor David Gordon Green fosse tão versátil ao passear pelas comédias, drama e agora terror.

Veja bem: nunca torci contra esse reboot, remake, continuação, o que quer que você queira chamar. Torcia pelo melhor, assim como foi quando Rob Zombie lançou duas releituras da obra num passado não tão distante – inclusive, gosto muito do primeiro e continuo sem entender o segundo. Só que Green conseguiu fazer a coisa mais inesperada do mundo: superar o trabalho de John Carpenter.

Halloween cria uma terceira linha do tempo na série e ignora os eventos de todos os filmes, exceto o original. Michael Myers consegue fugir 40 anos depois de aterrorizar a vida de Laurie Strode e retorna para buscar sua vingança deixando um verdadeiro rastro de morte pelo caminho.

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O novo Michael Myers é de longe a encarnação mais violenta que já se viu do personagem. Definição de violência, sangue no olho e maldade (“pure evil”, como diria o Dr. Loomis) que é retratado com requintes de crueldade numa narrativa que privilegia o clima de tensão sem deixar de lado as partes de violência mais gráfica, afinal estamos falando de um dos “fundadores” do subgênero slasher.

Quando o roteiro e a direção do novo Halloween entendem que John Carpenter fez uma das obras máximas do terror, e continua como uma das introduções mais imbatíveis da história do cinema, quem ganha é o público. São MUITAS referências que mais que belas homenagens, funcionam para a narrativa, envolvem o espectador e ainda conseguem criar mais tensão.

Aliás, já que falei sobre as homenagens, o roteiro inteiro é fortalecido com detalhes que somente os fãs irão perceber. De forma inconsciente, se você for tão fã do original quanto eu sou, isso chega a ser um golpe bem baixo. Nossa empolgação de constatar que a nova obra não é uma porcaria se mistura com nossas lembranças e recebem um empurrão de uma narrativa ágil e que combina seus momentos de calmaria, com humor, tensão e violência. Vou segurar os meus dedos e omitir algumas dessas homenagens, apenas porque quero muito recomendar esse filme e sei que quando a crítica possui spoilers, muitos pulam e ficam sem ler. Bem, gente… eu preciso da sua audiência. Então, leia!

Jamie Lee Curtis retorna como Laurie Strode e de cara com uma revelação que poderia deixar os fãs incomodados, já que mexe diretamente nos cânones de toda a franquia, mas whatever. Sua personagem é uma vó que você pensaria duas vezes antes de apresentar para os amigos, namoradas etc. Numa consequência da noite de terror que viveu em 1978, Laurie virou uma autêntica veterana de guerra sofrendo com o medo eterno de que seu pesadelo nunca vai acabar. A caracterização de Curtis é brilhante, com seus longos cabelos desarrumados, expressão séria e cansada, além do descaso completo com roupas.

O novo Halloween me parece como uma obra que faz metáforas com superação de nossos maiores pesadelos, como perdas, depressão etc. Um dos personagens afirma ter uma curiosidade tremenda em ver o reencontro de Michael e Laurie, pois ambos se mantiveram vivos durante esses 40 anos aguardando pelo reencontro para transformar o passado em cinzas. Não me lembro de nenhum filme da série ter uma mensagem tão poderosa assim. Na real, nenhum slasher filme oferece isso ao seu público.

Sou muito grato por John Carpenter ter criado um dos meus filmes e personagens favoritos, sei que o longa de 1978 sempre terá um lugar especial, mas a nova versão potencializa os efeitos, moderniza a história e deixa uma mensagem implícita de superação. É combo demais para ignorar. Que filme, meus queridos leitores! Que filme!

Halloween desbanca Hereditário na minha preferência de melhor filme de terror de 2018, e já assegura uma vaga no ranking geral de melhores filmes de 2018. Quero acreditar que assim como aconteceu em 1978, o slasher movie ganhe um gás com produções tão eficientes, inteligentes e deliciosamente macabras quanto esse Halloween. Quem sabe até Jason não tenha uma terceira chance e desta vez nas mãos de uma outra dupla improvável consiga convencer os jovens de hoje?

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