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Essa é a Sua Morte – O Show

essa e sua morte posterO CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A crítica de Essa é a Sua Morte possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação.

GIANCARLO ESPOSITO É O HOMEM POR TRÁS DO LONGA-METRAGEM MAIS POLÊMICO DE 2017. Em Essa é a Sua Morte – O Show (This is Your Death, 2017), o eterno Gus Fring de Breaking Bad faz uma feroz sátira social do comportamento do público/consumidor. O resultado é chocante e nos deixa, como potenciais alvos do roteiro ácido, um tanto reflexivos enquanto os créditos finais passam pela tela.

O filme conta a história de um apresentador de um canal de Reality Show que presencia uma morte ao vivo durante a sua transmissão. O acontecimento dá uma guinada na vida profissional de Adam e sua produtora gananciosa, que enxerga a oportunidade de criar um show em que o público comum tem a oportunidade de se matar ao vivo na TV.

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Yep! Chocante, né? Ousado, né? Pois é. Essa é a ideia de Esposito e funciona perfeitamente. Não significa que o longa seja inesquecível ou uma obra-prima, vejam bem, mas é eficiente naquilo que se propõe. Temos muitas sequências de violência gráfica capazes de nos chocar e revirar nosso estômago.

O roteiro se divide em três sub-tramas e não demora para ficar previsível. Esposito vive um pai de família (o retrato da maioria das pessoas) se matando de trabalhar até perder seus empregos e vivendo uma crise financeira/familiar; Josh Duhamel é o apresentador do programa e Sarah Wayne Callies vive sua irmã enfermeira com um passado cheio de vícios em drogas. Apesar de ser fácil apostar no que vai acontecer (e acertar), o resultado não fica comprometido.

Os dramas familiares do personagem de Esposito, por exemplo, causam grande identificação em qualquer um que sabe o que é o pesadelo do desemprego. No caso dele, fica pior por causa das cobranças da esposa e a decepção evidente nos olhos do filho. É até sádico admitir, mas chega um ponto em que o público deseja logo que ele se candidate ao programa. Mais interessante ainda é acompanhar a trajetória do apresentador, que rapidamente é consumido pela vaidade e se torna cego, incapaz de notar que se tornou aquilo que dizia querer combater com o seu programa.

O colega Marcio Sallem citou no seu texto aquele medonho Faces da Morte, que ficava sempre escondido nas locadoras, em que apareciam cenas de pessoas morrendo. Realmente é uma das referências mais diretas que o espectador com mais de 30 anos se lembra ao assistir Essa é a Sua Morte. Talvez essa lembrança seja um dos detalhes que torna o trabalho de Esposito tão produtivo na missão de dar um tapa na cara de quem se pega gastando a vida com jornais que pingam sangue se forem amassados e programas sensacionalistas na TV.

É improvável que o longa consiga transmitir a sua mensagem para as grandes massas, ocupadas demais em continuar derretendo seus cérebros e celebrando a violência diariamente. Vivemos numa época em que a vida está se tornando digital e sentimos um apetite voraz pela vida alheia, de preferência em momentos de tragédias. Programas que infestam a TV aberta no horário de 9h às 18h praticamente mostram o que Esposito tenta recriar. A mensagem deveria servir para abrir as mentes dessas pessoas, mas parece que nem mesmo o reflexo extremo de nosso comportamento é capaz de criar essa consciência.

Talvez, o grande “defeito” seja a conclusão fake com Esposito literalmente se explodindo. É um recurso que não sou fã, já que me sinto enganado. Lembro sempre daquele Crepúsculo com a cena da batalha na neve e fico frustrado por saber que nada daquilo aconteceu e ninguém morreu.

Essa é a Sua Morte – O Show é recomendado para quem gosta de pensar sobre o comportamento humano numa sociedade cada vez mais perdida em um mar de referências vazias em que vale tudo para conquistar a maior audiência, prender a atenção do público e ser adorado.

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