Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Filmes que Completam 20 Anos em 2020

Confira a seleção do buteco!

Amor à Flor da Pele (Hong Kong)

Wong Kar Wai tem uma certa originalidade em relação aos diretores orientais que surgiram nos últimos anos. Conserva o cuidado com a parte visual de seus filmes, mas tem uma sensibilidade muito particular para tratar de um tema sempre recorrente neles, tornando-se já sua marca registrada: o amor.
Em Amor a Flor da Pele, é sobre o amor latente, aquele que nunca chega a se concretizar, e nem por isso menos valoroso. No caso de Chow e Li-Zhen (Tony Leung Chiu-Wan e Maggie Cheung), os dois acabam de se mudar para um hotel e se tornam vizinhos. Logo descobrem que seus cônjudes, nunca presentes, são amantes, e usam suas viagens de trabalho como desculpa pra se encontrar.

A direção faz a diferença no filme. Outro mérito de Kar-Wai é nos deixar sentir, em determinados momentos do filme, a mesma confusão experimentada pelos personagens: não se sabe se o sentimento é de amizade, ou de amor realmente (João).

 

- Advertisement -

Dançando no Escuro (Dinamarca)

De certa forma, o filme aborda sobre o tema mais filmado no mundo: o amor. Mas não é qualquer amor. É o amor mais forte e puro que existe. Amor infinito, que perpassa qualquer barreira, desafio e é incapaz de ser explicado. Um amor que é maior que o amor próprio sem ser intransitivo. O amor de mãe.

Um filme que mostre o amor de uma mãe inevitavelmente vai ser triste. Mas quando Lars von Trier resolve transportar este sentimento para as telas não nos deparamos com algo triste, e sim algo audacioso e cruel. Mas “Dançando no Escuro” não é apenas um longa cruel, que perpetra sinicamente uma crítica ao sistema penal americano. Ele é, acima de tudo, um anti-musical. Um melodrama longe de ser uma glamorosa super produção, o filme se distância de qualquer forma fantasiosa no qual a maioria dos filmes do gênero musical nos transporta. No longa, mais que qualquer efeito, figurino, locação ou cenografia, a força da história prevalece e se sobressai a qualquer outra minúcia.

Mesmo não sendo para todos os gostos Dançando no Escuro é um filme que todos, sem exceções, deveriam ver antes de morrer (ressalvo a sua classificação indicativa). Um filme sofrido, mas necessário, que toca qualquer ser humano provido de coração, por mais que possa ser difícil para alguns, merece ser visto.

 

Traffic (EUA)

A história entrelaça tantas outras histórias que, de certa forma, estão ligadas ao tráfico de drogas. O diferencial está no foco dado por Steven Soderbergh, e na sensação que deixa no espectador. A de que, tanto aqueles personagens, quanto nós mesmos (por que não?) estão incorporados de certa forma a um mecanismo que vai muito além da nossa compreensão, que se solidificou de forma tal, que não há como voltar atrás. Não há como reverter certos quadros. O que temos que fazer é apenas nos proteger, da forma que der.

Embora tenha poucas cenas de ação, Traffic tem um clima tenso, justamente quando desenvolve seus personagens. A escalação do elenco também contribui muito para isso. Detalhe para a fotografia, também de Soderbergh, que demonstra, por meio da mudança nas cores, a mudança nas histórias. Opção inteligente e bonita visualmente. Enfim, Traffic é realmente um filme merecedor do sucesso e reconhecimento. Não toma partido, não condena nem viciados, nem produtores, nem corruptos. Só expõe a realidade deixando o resto para o espectador (João).

Disponível no Amazon Prime.

 

Quase Famosos (EUA)

Década de 70. Bandas como Led Zeppelin, Black Sabbath, Rolling Stones, Deep Purple, The Doors… todos sabemos que a década de 70 foi recheada. Foram os anos áureos do Rock, não foram? Particularmente, o Rock Progressivo dos anos 70 não me agrada muito, mas tenho que reconhecer que essas bandas (e muitas outras) têm um papel de grande importância na história do Rock. Agora imagine um menino de 15 anos, terminando o high school precocemente, sem amigos e com uma mãe (professora de Psicologia numa universidade – oi?) super controladora, no início da década de 70 e que ainda por cima curte essa coisa subversiva chamada Rock’n Roll?! Pra mim a empatia pelo personagem começa a surgir aí, só que ao contrário: no filme Will (Patrick Fugit) herda os discos de rock da irmã Anita (a lindinha da Zooey Deschanel) que foge de casa por não agüentar mais a mãe.

O mais curioso é que o filme é uma semi-auto-biografia do diretor Cameron Crowe, que também escreveu o roteiro. Ele que foi atrás do Led Zeppelin, do The Allman Brothers Band, do The Eagles e do Lynyrd Skynyrd em turnê para escrever uma matéria pra Rolling Stone. Na produção, Crowe conta como é a vida de uma banda de rock emergente: os conflitos, as dorgas, as paixões…tudo. Sexo, drogas e rock’n roll de verdade! Afinal, não é sobre isso que é o rock? O rock é diversão, sim. Mas é mais do que isso: é transcender barreiras (sociais, culturais, geográficas), é passar mensagens positivas, e também mostrar o que há de negativo. É criticar quem merece ser criticado, e ajudar quem precisa (Ju Lagarinho).

A Fuga das Galinhas (Reino Unido/EUA)

Quem diria que uma animação simples e despretensiosa poderia trazer junto de si uma carga tão complexa e profunda? A Fuga das Galinhas conta a história de Ginger (Julia Sawalha), uma galinha vanguardista que quer, a todo custo, mostrar às outras galinhas que o destino que as espera é um e somente um: trabalhar como escravas até a morte. Porém, as coisas mudam quando um Galo “voador” aparece e afirma com todas as letras que sim, é possível que as galinhas aprendam a voar e consigam fugir daquele destino cruel que as aguarda. É simplesmente incrível todas as linhas paralelas com o empreendedorismo de minuto que se vende atualmente (Joubert Maia).

Disponível no Telecine Play.

 

Contos Proibidos do Marquês de Sade (EUA)

Quills (conhecido no Brasil como Contos Proibidos do Marquês de Sade) é um filme teuto-américo-britânico de drama/biográfico, que leva assinatura do diretor Philip Kaufman. O enredo da película gira em torno dos últimos anos de vida do Marquês de Sade (Geoffrey Rush) em seu isolamento por insanidade em Charenton. No longa, acompanhamos uma batalha de forças antagônicas que, mesmo conflitantes sobre os métodos a serem utilizados no tratamento do protagonista, têm em comum o objetivo de fazer com que o excêntrico escritor pare de produzir suas controversas novelas.

Com um elenco estrelado — ainda com Kate Winslet, Joaquin Phoenix e Michael Caine —, o filme é uma brilhante e divertida crítica aos valores pudicos do século XVIII, que se faz mais atual do que nunca (Lucas Siqueira).

X-Men (EUA)

X-Men é um filme sobre seres com poderes de controlar o clima, soltar raios pelos olhos, controlar mentes, criar campos magnéticos e entre outros poderes extremamente fantasiosos, mas ao contrário do que pode indicar, o filme não é exatamente fantasioso, pois ele utiliza os mutantes (os seres humanos com superpoderes) como uma analogia para minorias em geral.

De maneira simples, entre os mutantes existem duas vertentes: os que acreditam em uma paz entre os humanos e os mutantes e que todos poderão viver em paz; e os que acreditam que ocorrerá uma guerra entre os humanos e os mutantes, tendo total descrença na capacidade de paz dos seres humanos. Do lado dos mutantes que acreditam que irão viver em harmonia está o Charles Xavier que coordena uma escola que ele treina mutantes, além de oferecer à eles um ambiente livre da hostilidade dos humanos. Já do lado dos mais céticos quanto à paz, está Magneto, que antagoniza Xavier durante a obra. E me recuso a chama-lo de vilão, pois ele não é um, ele apenas tem um posicionamento diferente dos protagonistas (e que a meu ver é um posicionamento bastante coerente).

X-Men é um filme de super-heróis muito bem dirigido, e um dos melhores do gênero, que surgiram na década passada (João Golin).

Disponível no Telecine Play.

 

O Gosto dos Outros (França)

o gosto dos outros filmeVencedor de múltiplos prêmios César em 2001, além de indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, O Gosto dos Outros foi meio que esquecido ao longo do tempo. Tanto que você nem consegue encontrá-lo disponível em serviços de streaming como a Netflix e a Amazon, ou sequer para alugar online. E isso não faz sentido porque a produção francesa tem bastante qualidade. Dirigida por Agnès Jaoui – segunda e última mulher a comandar um vencedor do César na categoria de melhor filme -, a película nos insere na vida de variadas pessoas, que estão dentro de um mesmo ciclo social. Cada uma tem a sua rotina e gostos próprios, mas à medida em que o filme avança, percebemos o tanto que o diferente pode nos atrair, se olharmos de perto; ou nos afastar, eventualmente (Dani Pacheco).

 

 

Amores Brutos (México)

Como feito posteriormente em 21 Gramas e Babel (mas aqui em seu idioma nativo), no seu longa de estreia, Alejandro G. Iñarritu conta três diferentes histórias conectadas por uma tragédia: a do o pitboy Octavio (Gael Garcia – em seu primeiro longa); o abastado, mas problemático, casal Daniel e Valeria; e o morador de rua Chivo, que não consegue tirar sua família da cabeça. Extremamente sensível ao conectar diferentes classes sociais sem subjugá-las, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (e só perdeu porque foi para O Tigre e o Dragão) e ganhou o prêmio da semana da crítica em Cannes (Larissa Padron).

Disponível no Amazon Prime.

 

 

Billy Elliot (Reino Unido)

Billy Eliott marcou época por vários motivos. Stephen Daldry teve à disposição um elenco de primeira, com Julie Walters, Gary Lewis e um jovem Jamie Bell, em seu primeiro longa-metragem. O cineasta também tinha, em mãos, um roteiro sagaz, carismático e crítico, escrito por Lee Hall. O resultado que vemos na tela é um drama que nos faz dançar ao lado de Billy desde a primeira cena, em que o garoto aparece pulando numa cama elástica enquanto escuta “Cosmic Dancer”, passando pelos preconceitos de uma sociedade extremamente conservadora, pelo drama de uma família pobre e sem mãe, até chegar ao último e emocionante quadro. É uma história que nos comove pela sua delicadeza, sinceridade e paixão com que foi contada. Após assistir ao filme em pleno 2020, fico imaginando como foi a reação dos espectadores há duas décadas, pois a produção aborda temas que, até hoje, causam bastante polêmica, como o machismo e a sexualidade (Dani Pacheco).