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Filmes Sobre Fascismo Para Você Votar Direitinho

NO DIA 28 DE OUTUBRO VAMOS ELEGER O PRÓXIMO PRESIDENTE DA REPÚBLICA e o Cinema de Buteco está aqui com uma pequena lista para ajudar você a entender a importância dessa eleição. Separamos uma lista de filmes sobre fascismo para você votar direitinho e não ter nenhum peso na consciência pela sua escolha.

O Cinema é uma forma de expressão e discutir política não é um assunto incomum nessa arte. De Star Wars até A Vida é Bela, Lista de Schindler ou V de Vingança, temos vários exemplares de obras que nos convidam a refletir para tirarmos as nossas próprias conclusões sem o auxílio do WhatsApp, dos famigerados grupos da família ou do trabalho. Existem milhares de filmes sobre fascismo e nós selecionamos apenas alguns dos nossos favoritos dentro da proposta do Cinema de Buteco.

Sem mais delongas, segue abaixo a nossa lista de filmes sobre fascismo!

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V de Vingança

“Remember, remember…the 5th of November”.

V de Vingança é possivelmente uma das melhores adaptações de HQ da história do cinema. De certa forma, um dos melhores filmes de heróis também. Além de abordar com extrema eficiência, um regime autoritário e suas mazelas. Falar de filmes sobre fascismo sem citar V de Vingança é feio.

Estrelado por Natalie Portman e com roteiro das irmãs Wachowski (Matrix), a adaptação da obra de Alan Moore apresenta um futuro distópico em que um homem surge para combater a tirania do governo britânico. Conhecido apenas como V, esse homem começa seu movimento para inspirar outras pessoas a combaterem o governo contando com a ajuda de uma jovem mulher.

A Onda

O experimento de um professor de história acaba tomando proporções inimagináveis na Alemanha. Ao tentar mostrar aos seus alunos como que ainda é possível manipular as massas e instituir um regime autoritário, mesmo após o nazismo, o homem perde o controle sobre as atitudes dos jovens e vê uma tragédia acontecer diante de si.

Dica obrigatória quando se fala de filmes sobre fascismo, a obra nos dá uma lição pesada, mas necessária. Apesar de aprendermos sobre todos os males causados por regimes antidemocráticos, ainda é possível vê-los se repetirem no contexto atual. A história se repete: as pessoas ainda se identificam com líderes e os adoram, muitas vezes cegamente; as pessoas se sentem empoderadas quando fazem parte de um grupo com interesses em comum; as pessoas são capazes de cometer ou legitimar atos de violência contra os outros, em nome do que defendem. (Dani Pacheco)

Ele Está de Volta

Comédia hilária lançada em 2015, figurou entre os melhores do ano pelo Cinema de Buteco, ainda que a contragosto. Três anos após seu lançamento, e por seu caráter didático com um humor negro impagável, as pessoas começaram a notar que é um exemplo importante para mostrar os efeitos do fascismo de uma maneira perigosamente deliciosa. Aqui não tem espaço para o politicamente correto e é exatamente por isso que Ele Esta de Volta é a principal dica para você compartilhar com quem vai votar naquele candidato.

A trama mostra o retorno de Adolf Hitler nos dias atuais, como se ele tivesse entrado numa máquina do tempo. Sem entender o que está acontecendo, e sendo confundido com um comediante, Hitler logo se torna famoso criando uma legião de fãs que concordam com tudo que ele diz, independente do discurso ficar cada vez mais agressivo e pesado.

Se você quer um exemplar de filmes sobre fascismo capazes de arrancar boas risadas (daquelas que você sabe que não deveria rir de jeito nenhum), essa é a dica!

Bastardos Inglórios

Quentin Tarantino imaginou um cenário da Segunda Guerra Mundial em que Adolf Hitler foi assassinado por um grupo de mercenários aliados em Bastardos Inglórios. Dividindo em várias histórias, acompanhando os núcleos de vários personagens com o mesmo interesse em comum de acabar com o líder nazista, a visão de Tarantino é cheia de exageros dentro de uma realidade alternativa e com eventos improváveis, mas que ainda garantem a sugestão da obra em qualquer lista de melhores filmes sobre fascismo.

Existem vários trabalhos mais notáveis sobre a Segunda Guerra falando do nazismo e fascismo da época, mas a verdade é que Bastardos Inglórios possui a assinatura de um cineasta inventivo e popular, que consegue agradar aos mais variados públicos. Isso ajuda muito na hora de pensar no absurdo que é um regime fascista.

Tropas Estelares

Mais uma dica imperdível para a nossa lista de filmes sobre fascismo: baseado no livro de Robert A. Heinlein e dirigido pelo genial Paul Verhoeven, Tropas Estelares apresenta um futuro fascista e militarista que obriga a população a se alistar para combater uma raça de insetos gigantes que ameaça a humanidade.

Ainda que seja retratado com certa ironia e não tenha fidelidade nenhuma a obra de Heinlein, Tropas Estelares é um outsider nessa lista por apresentar uma narrativa em que o combate ao fascismo fica deixado de lado para priorizar o que é viver num mundo assim.

Verhoeven afirmou em entrevistas que só conseguiram fazer essa adaptação subversiva porque a Sony passava por uma constante mudança de liderança que deixava a equipe de produção livre do controle e interferência dos empresários nos cortes preliminares. Recentemente, o cineasta comentou sobre o anúncio de uma nova adaptação:

“Nós sempre quisemos nos afastar do livro original, porque achamos que ele era fascista e militarista. Eu acho que se eles fizerem uma adaptação mais fiel agora, vai cair como uma luva na presidência de Donald Trump. No nosso filme queríamos contar duas histórias: uma desses jovens lutando, uma aventura incrível; e outra sobre eles caminhando lentamente, sem perceber, em direção ao fascismo“, contou.

Em uma entrevista em 2014 no The Adam Carolla Show , o ator Michael Ironside , que leu o romance quando jovem, disse que perguntou a Verhoeven, que cresceu na Holanda ocupada pelos nazistas : “Por que você está fazendo um filme fascista de direita? ” Verhoeven respondeu: “Se eu disser ao mundo que uma maneira fascista de direita de fazer as coisas não funciona, ninguém vai me ouvir. Então, eu vou fazer um mundo fascista perfeito: todo mundo é lindo, tudo é brilhante, tudo tem armas grandes e naves extravagantes, mas é bom apenas para matar Bugs! ”

Por fim, caso você tenha interesse de ver o lado do autor, recomendo a leitura do livro fenomenal que é Tropas Estelares. Mas tenha certeza que não é uma obra para quem tem estômago fraco!

Star Wars

Star Wars é um caso fantástico de ascensão política e provavelmente um dos exemplares mais didáticos de filmes sobre fascismo. Não acredita?

No Episódio I, A Ameaça Fantasma, somos apresentados ao Senador Palpatine, que assume a função de Chanceller para conter uma imensa ameaça que precisa ser resolvida seguindo a burocracia. Grandes poderes trazem grandes responsabilidades, já dizia o tio Ben.

No Episódio II, ainda sem abdicar de sua função de liderança política, Palpatine ordena a criação de um exército para combater uma guerra – que ele mesmo criou. Já no Episódio III, as máscaras caem e Palpatine tem tanto controle político, que pode se revelar como o poderoso Sith que manipulou todo o conselho Jedi e a Galáxia.

Tem início o Império.

Já na trilogia clássica, conhecemos Luke Skywalker e a Aliança Rebelde, o grupo que faz resistência contra o Império e luta pela liberdade. Darth Vader, o nosso verdadeiro herói da franquia, enfrenta seus conflitos e fraquezas morais ao tentar convencer o filho a matar Palpatine e governar ao seu lado, mas acaba fazendo a coisa certa no final das contas.

Por último, quero citar uma cena arrepiante em O Despertar da Força, em que existe uma referência direta a Adolf Hitler no personagem General Hux (numa atuação arrepiante de Domhnall Gleeson). Talvez esse momento em que Hux discursa para um exército e tem ao fundo uma bandeira que remete ao nazismo, seja um dos mais inspirados dessa terceira trilogia e um recado sério de que o mal sempre encontra um jeito de ressuscitar para nos atormentar – e sempre vai ter seguidores fiéis.

Harry Potter e as Relíquias da Morte

Escolhi Harry Potter e as Relíquias da Morte como representante da nossa lista de filmes sobre fascismo, mas toda a série se encaixa. Especialmente a partir de A Ordem da Fênix.

Harry é o adolescente que faz o alerta que ninguém quer ouvir. Dumbledore é o “velho tolo” que defende o rapaz. A imprensa ridiculariza os dois. O Ministério da Magia tenta fingir que nada está acontecendo no mundo dos Bruxos. Em silêncio, a ameaça reune seus soldados e se fortalece para o combate.

Uma das intenções do Voldemort é acabar com os trouxas. Ele diz isso porque considera os bruxos como seres superiores. Te lembra alguma coisa? Até os mestiços merecem sofrer e serem tratados como inferiores. O mesmo para os elfos domésticos e qualquer um que discorde dele.

Mais desenhado que isso, impossível! Em as Relíquias da Morte acompanhamos o medo e a perseguição que seus opositores sofrem. A batalha pela liberdade é inevitável, e aqui até acontece de tentar entender melhor o vilão, que acaba merecidamente derrotado e reservando a paz e harmonia geral.

O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias

Os pais de Mauro, em 1970, precisam “tirar umas férias” e deixam o garoto, que ama futebol de botão, com o avô paterno. Nas pressas, deixam o menino na porta do prédio e não tomam conhecimento que o velho faleceu naquele mesmo dia. Mauro então fica aos cuidados de Shlomo, o vizinho solitário que é um velho judeu.

O filme, uma absoluta obra prima de Cao Hamburger, que também colabora no roteiro, nos coloca  na ditadura em meio à comunidade judia através de uma criança nos anos 70, alheio ao real motivo de seus pais militantes de esquerda terem fugido. Hoje somos Mauro: sabemos que algo está sendo (ou já está) arquitetado nos bastidores e não temos muito o que fazer além de conviver com uma angústia no peito. (Leandro Galor)

O Trem da Vida

O romeno Radu Mihaileanu dirigiu este drama cômico obre os planos dos habitantes de uma aldeia judia da Europa Central para escapar do holocausto durante o verão de 1941. Schlomo, o louco da aldeia, é quem traz a notícia da aproximação dos nazistas em uma aldeia vizinha, e é também que oferece a saída para que eles não fossem os próximos: comprar um trem, pitá-lo como um trem nazista e forjar uma falsa deportação quando, de fato, eles atravessariam a fronteira da União Soviética para chegar à Palestina. Nessa farsa, parte dos moradores posariam como prisioneiros e outra parte como oficiais nazistas, mas os problemas surgem quando a encenação começa a ganhar contornos de realidade, quando os nazistas começam a se tornar autoritários, os falsos prisioneiros tramam uma rebelião contra seus falsos algozes, enquanto alguns se declaram comunistas, querendo lutar contra os fascistas, os burgueses e os imperialistas. Para piorar a situação eles também tem de lidar com alemães de verdade pelo caminho.

Com diálogos profundos e um humor afiado, Mihaileanu constrói uma narrativa inteligente, engraçada e cheia de vida que nos conduz com leveza onírica que seria improvável no pano de fundo horrendo em que a história se desenha. Mas o olhar ingênuo e alegre do louco Schlomo enseja um cenário de possibilidade alternativa, uma rota de fuga que perseguimos junto aos personagens com esperança quase pueril. No fim, nos deixamos levar, ainda que a inevitável realidade nos seja oferecida com pungente factibilidade a partir do momento em que Porque se encontram divididos em relações de poder e domínio. Ainda que fosse, inicial e essencialmente, uma farsa – suscita mudanças cruciais na dinâmica das relações. Quem antes via com horror a mácula da opressão, emaranha-se na narrativa do privilégio e se perde de si mesmo ao experimentar minimamente o sedutor lado opressor.

O desfecho é crucial tanto para a compreensão do filme como para a elucidação da natureza do que está sendo contado no sorriso sonhador de Schlomo. Ali reside a importância de jamais perdermos a lição que os muitos lados que uma história sobre a própria história da humanidade tem a nos mostrar. (Selhe Moreira)

A Outra História Americana

Com uma atuação inspirada do seu elenco, inclusive com direito a uma indicacão ao Oscar de Melhor Ator para Edward Norton (que viria a perder para Roberto Benigni, em A Vida é Bela – outro filme sobre fascismo que merece sua atenção), os diálogos fortes e reflexivos ajudam a elevar a qualidade do produto, que está em diversas listas de Melhores Filmes de Todos os Tempos, como os 500 Mais da revista Empire.

Derek (Norton) está transando feliz da vida com a sua namorada. Quem não está muito contente é o jovem Dan (Edward Furlong), que é impedido de dormir por causa da barulheira infernal que vem do quarto do idolatrado irmão neo-nazista. Do lado de fora da casa, três jovens tentam arrombar o carro de Derek, que, para o azar do trio, descobre o que está acontecendo e vai tomar satisfação de uma maneira extremamente agressiva. A gente até entende o lado do rapaz: ninguém gosta de ser interrompido durante o sexo, mas acontece que o cara tem uma suástica nazista tatuada no peito, é extremamente racista, e os três assaltantes eram negros…

Se essa lista fosse organizada em ranking de melhor para o pior, A Outra História Americana estaria entre os 3 primeiros melhores filmes sobre fascismo de todos os tempos.

O Senhor dos Anéis

Nossa lista já teve Harry Potter e Star Wars… Nada melhor que encerrar falando sobre a fantástica trilogia criada por J.R.R. Tolkien e como O Senhor dos Anéis é uma das obras mais pertinentes para explicar o fascismo usando aventura, fantasia, humor e metáforas.

Aposto que vai ter gente pensando: “Senhor dos Anéis numa lista de filmes sobre fascismo? Viajou!” e eu explico:

Sauron é uma criatura do mal que quer acabar com tudo e todos que ficaram ao seu redor. Cabe a uma minoria, os hobbits, assumirem o protagonismo diante grupos de elfos, homens e anões, para livrarem o mundo dessa ameaça. Durante sua jornada, os hobbits encontram com homens consumidos pela ganância; criaturas fantásticas como os ents, que questionam internamente se deveriam ou não se envolver na guerra; e diversos obstáculos que poderiam minar completamente sua esperança de dias melhores.

Mas os hobbits resistem.

Os hobbits vencem seus próprios medos e limitações para se tornarem os salvadores do mundo. Logo eles, literalmente minorias, fizeram a imensa maioria se curvarem para seus feitos fantásticos.

Vejo muitas pessoas reclamando que “atualmente” existe política demais em tudo e estão de saco cheio, como é o caso do nosso Ministro da Cultura. A verdade é que a política faz parte de tudo o tempo inteiro. Somos um país com uma democracia jovem e com um povo que começou a prestar atenção nisso de forma tímida somente após as imensas manifestações de 2013. Por isso, uma lista de filmes sobre fascismo é importante para que todos entendam esse conceito, e tirem as suas próprias conclusões para o que queremos pro Brasil. No final, o que importa é a democracia! Fica aqui nossos votos de que vamos exercer esse direito com consciência e torcer para que possamos repetir isso em 2022…

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