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Jessica Jones: A heroína do século XXI

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Quando a Netflix anunciou sua parceria com o Marvel Studios, todos pensaram a mesma coisa: que ideia fantástica! Unir o maior serviço de streaming do mundo com produções de altíssima qualidade com um dos estúdios mais criativos dos últimos tempos, responsável pelo que podemos chamar a Renascença dos filmes de super-heróis. Então sim, todos ficaram muito animados.

E então anunciaram os personagens que seriam adaptados nessa empreitada: Demolidor, um dos melhores heróis da Marvel Comics e que teve a infelicidade de ter aquela adaptação com Ben Affleck (que o próprio diz não gostar); Luke Cage, provavelmente o mais famosos herói de aluguel da editora, que foi criado para seguir a onda dos filmes Blaxpoitation dos anos 70; Punhos de Ferro, outro criado para seguir uma tendência do cinema setentista (filmes de artes marciais); e Jessica Jones.

Mas quem diabos é essa Jessica Jones?“, muita gente pensou. Nem os leitores ávidos de quadrinhos sabiam muito sobre essa heroína, então para a grande maioria, não se sabia o que esperar de sua série. Com a estréia de Demolidor, pudemos ter uma ideia de qual seria o nível das próximas séries Marvel/Netflix devido à qualidade da adaptação do Demônio de Hell’s Kitchen, mas nada nos preparou para o que realmente seria Jessica Jones.

A série nos apresenta Jessica (Krysten Ritter) uma detetive particular que, depois um acidente de carro na adolescência, passou a ter super força e a habilidade de “voar” (nos quadrinhos ela realmente voa, na série são mais como pulos de grande distância). Ao começar a investigar um caso um tanto familiar, ela descobre que Kilgrave (David Tennant), um controlador de mentes que de quem foi vítima no passado, está vivo e fazendo novas vítimas, ela decide dar um fim ao vilão de uma vez  por todas

Com essa premissa e assistindo os primeiros episódios você acha que já deduziu como ser o restante da temporada e pensa: “Interessante, mas acho que Demolidor é melhor”, mas esse sentimento dura muito pouco conforme você assiste o restante da temporada. Por mais que Demolidor tenha tido uma temporada superior em alguns pontos, Jessica Jones tem uma força literalmente incomum.

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Podemos começar analisando a protagonista: Jessica é sem sombra de dúvida a personagem mais feminista que vimos em uma adaptação de quadrinhos recentemente (Mulher-Maravilha que se cuide). Ela é completamente independente e segura de si, faz o que quer e quando quer, e provavelmente o mais importante de tudo: ela é uma mulher comum. Estamos acostumados a ver super-heroínas com corpos esculturais e roupas extremamente curtas e justas (o que não seria um problema se não fosse um padrão); enquanto que Jessica tem um corpo normal e usa roupas normais que qualquer mulher usaria em seu dia-a-dia (nos quadrinhos ela já teve um uniforme quando adotava o nome Safira, que inclusive é um easter egg mostrado na série, mas durou pouco tempo). Além de que ela não dá a mínima para o que os outros pensam dela, fazendo coisas que conservadoramente falando não se espera que uma garota faça, como ficar com qualquer cara que ela queira ou sentar em um bar e beber.

Outro ponto importantíssimo da série é que a base da história são as mulheres. Elas carregam todo o peso dramático e fazem a história acontecer, e isso sem em momento algum conversar sobre coisas como moda, cozinha, gravidez, homens e outras coisas que geralmente vemos quando há mulheres retratadas na mídia. Elas não agem de acordo com o que se espera de uma mulher, elas simplesmente agem e pronto, o que infelizmente é algo difícil de se ver.

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Mas com certeza o mais importante em relação ao feminismo presente na série é a analogia constante a relacionamentos abusivos. Kilgrave controla a mente de Jessica e a faz fazer coisas contra sua vontade, e isso também inclui ter relações sexuais com ele, o que ela classifica categoricamente como estupro pois não foi algo consensual. É um assunto de extrema importância e que precisa ser discutido, e ver uma série de super-heróis retratar essa triste realidade da forma como Jessica Jones retratou não é só algo válido e interessante de se analisar; é algo necessário.

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Claro que a relevância social não é a única qualidade de Jessica Jones: o selo de qualidade Marvel/Netflix se mantém presente, com um roteiro consistente que mantém o nível da temporada estável, o que faz com que não hajam episódios muito bons e outros muito ruins. Além de que já foram introduzidos vários elementos que indicam qual será o plot da próxima temporada, como a empresa misteriosa que aparentemente é responsável pelos super poderes de Jessica, e a transformação de Will (que provavelmente será o vilão da próxima temporada).

Não podemos esquecer dos personagens/atores: Krysten Ritter nasceu para interpretar Jessica, dando à personagem sua inconfundível personalidade seca e sarcástica que funcionou muito bem em Don’t Trust the B* in Apartment 23; Mike Colter também está muito bem como Luke Cage, o que nos deixa bastante ansiosos para a série solo do herói que, quem é fã de quadrinhos sabe, merece uma adaptação de respeito. Dos coadjuvantes o destaque sem dúvida vai para Carrie-Anne Moss interpretando a advogada badass Jeri Hogarth, fazendo um excelente trabalho tornando a personagem essencial à trama, o que é muito interessante levando-se em conta que nos quadrinhos Jeri é um homem e sem muita relevância na história (o feminismo ataca novamente).

E não podemos deixar de mencionar o grande David Tennant, que, além de surpreender interpretando um vilão (em especial os fãs de Doctor Who que em unanimidade o consideram o melhor Doctor de todos os tempos), fez de Kilgrave o melhor vilão do Universo Marvel até agora. Claro que o personagem foi extremamente bem construído, mas de nada adiantaria se ele não fosse interpretado pro alguém tão brilhante quanto David, que é um dos atores mais versáteis de sua geração. Uma pena que muito provavelmente ele não seja indicado a nenhum prêmio importante, mas não custa torcer, pois o cara merece.

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Jessica Jones fez o que poucos conseguem: usar a ficção e a fantasia para falar de um assunto sério sem ficar didático ou entediante, além de ter todas as qualidades indispensáveis em uma série de super-heróis. A dupla Marvel/Netflix acertou novamente, e tomara que continuem acertando.

Lucas Victor

Estudante de Produção Multimídia, nerd e escritor de contos inacabados que ninguém lê. Percebeu que era cinéfilo aos 4 anos, quando estragou um vídeo cassette assistindo A Bela e a Fera sem intervalos, e desde então o vício só aumentou. Prefere DC à Marvel (fato pelo qual é extremamente criticado) e seu maior objetivo é escrever um episódio de Doctor Who.