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O Farol (2019)

Longa-metragem de Robert Eggers foi lançado nacionalmente em exibição na Mostra de Cinema de São Paulo.

A imagem que ilustra este texto deve ser apreciada enquanto possível pelos mais apegados ao rigor estético em sua pureza. Durante os 109 minutos de O Farol, não há outros momentos em que suas imagens permitam inspirar alguma apreciação, acolhimento ou uma claridade no horizonte. Do elegante quadro acima, restam as olheiras no rosto de Ephraim Winslow (Robert Pattinson) e o olhar distante de Thomas Wake (Willem Dafoe).

A impressão da jornalista Teté Ribeiro, da Folha de S. Paulo, ao questionar Dafoe sobre as obscuridades do período de filmagem, se justifica: cada instante da trama soa absolutamente árduo e incômodo para seus personagens – e, por extensão, seus intérpretes. Ao nos levar diretamente para a ilha que abriga a dupla protagonista, num isolamento de (ao menos) quatro semanas, sem qualquer apresentação prévia, a narrativa abre mão da oferta de acolhimento. Seu caminho é o oposto.

Para percorrê-lo, a primeira decisão destacada de Robert Eggers, diretor e roteirista (ao lado de seu irmão, Max) do longa, é por filmá-lo sem cores. A ausência de tons imerge o público num território sem esperança ou perspectiva de fuga – em complemento eficiente à sórdida direção de arte. Onde as adversidades se impõem e, diante disso, só resta se apegar a ligações humanas estabelecidas – o que, nesta estória, se mostra impossível. Como o primeiro de seus tortuosos jantares revela, a hostilidade e a desconfiança conduzem a relação de necessária dependência entre aquele dois homens. Suas mãos só se entrelaçam em situações absolutamente improváveis.

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Há 37 anos, “O Enigma de Outro Mundo”, de John Carpenter, revelava que homens, quando levados a situações-limite de sobrevivência, são incapazes de permanecer agrupados. Seus laços de confiança se rompem violentamente. A ideia de um grupo se reduz em O Farol, transformando-o num exímio duelo de personagens (no qual as performances de Dafoe e Pattinson impressionam). Aqui, o laço sequer chega a existir. Na sujeira escurecida e desconfortável do alojamento, o jovem Ephraim e o insuportável Thomas calçam suas experiências no atrito permanente e inconciliável. 

Cena a cena, entendemos serem dois sujeitos absolutamente órfãos de esperança ou ambições legítimas – o que os coloca a instantes de abdicar do que consiste em sua humanidade. Os desejos que ainda os alcançam nesta etapa são os derradeiros, únicos a nascerem da absoluta solitude: os profanos. Revelados na consciência transtornada de Ephraim Winslow, povoada por memórias que não necessariamente recobram a realidade – experiências que, outrora, seu colega provavelmente atravessou. Na violenta masturbação, suas projeções manifestam a mistura que se apossa de uma mente perturbada e solitária. Isto posto, um ataque verborrágico ou a tentativa de transformar um ser humano em um animal de estimação apenas consolidam aquilo que se perdeu, em termos mentais e civilizatórios.

Embora haja um certo culto à apropriação do sobrenatural, da imagem do irreal e do absurdo para construções dramáticas – alimentado pelos que desejam exibir suas exímias habilidades interpretativas e elaborar notáveis metáforas para o que vêem na tela -, O Farol cresce ao escancarar o contrário. Seus momentos de mais potente perturbação são aqueles que não exigem um passo sequer distante da realidade possível. Os atos que mais nos chocam partem exclusivamente do caráter profano, violento e sujo daquela relação, alicerçada nos mais infames sentimentos e reações despertados pelo isolamento, por uma raivosa desconfiança concebida entre dois homens. São necessariamente antrópicos, afinal. No limiar derradeiro de sua humanidade, não há nada mais perturbador do que o ser humano.

O Farol

The Lighthouse. EUA, 2019. De Robert Eggers.

Veredicto do Buteco: ★★★½

Nota: Na noite de ontem (29/10), o filme foi lançado nacionalmente em evento aberto ao público no Auditório Ibirapuera Oscar Niemeyer, no qual o Cinema de Buteco esteve presente, como parte da programação da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Após a exibição, o diretor Robert Eggers, o ator Willem Dafoe e o produtor Rodrigo Teixeira responderam a perguntas da plateia e da jornalista Teté Ribeiro, mediadora da conversa.