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Resenha: Homens Elegantes – Samir Machado de Machado

“[…] O mundo é cruel, lhe dizem. Não, o mundo é indiferente, são as pessoas que decidem serem ou não cruéis.”

Ao escrever Homens Elegantes, Samir Machado de Machado soube muito bem como aproveitar sua obra. Além de entreter, seu livro vem recheado de críticas sutis e informações das quais não falamos por considerarmos tabu. A trama mistura óperas, duelos, travestis, perseguições a cavalo e literatura pornográfica iluminista. Tem como não ser melhor? Em Homens Elegantes, somos apresentados ao personagem Érico Borges, um fiscal de alfândega brasileiro e veterano da Guerra Guaranítica, que é enviado a Londres em 1760. Seu objetivo é investigar uma rede de contrabando de um dos artigos mais controlados no comércio brasileiro de então: livros. Assim, ele se vê saindo de um Brasil Colônia de mentalidade quase medieval, direto para um dos centros nervosos do Iluminismo.

Criado em uma colônia, o provinciano Érico não é nada bobo. Ele é um hábil espadachim, um grande espião e um leitor perspicaz. Com tantos atributos, seria impossível convocar outra pessoa para tal missão. Aos poucos, o protagonista se disfarça de Barão de Lavos para se misturar e se infiltrar à sociedade londrina (que é completamente diferente e avançada se comparada ao Brasil) e se deslumbra com as excentricidades e com a liberdade encontrada por lá. Durante toda a narrativa, somos transportados para um passado de luxo, bailes, vestes e costumes da época. Com tantas descrições, fica praticamente impossível não se sentir parte da Sociedade Macarroni do Séc. XVIII.

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Com boas doses de humor e tensão, Érico vai conquistando o leitor e também fazendo grandes inimigos ao longo da trama. O que começa como uma história em que o foco está no comércio de livros (que foi bastante próspero na época), acaba passando para algo muito pior, sendo capaz de provocar uma guerra que pode fragilizar a Coroa Portuguesa e trazer problemas ainda maiores para o Brasil. No caminho, Érico se depara com o conde Bolsonaro (um nome bastante propício para um vilão fanático), um nobre que passa por cima de tudo e que planeja exterminar tudo aquilo que ele julgue sodomita. Vale reforçar também que nesses momentos de conflitos políticos, conseguimos notar as críticas inteligentíssimas de Samir para um período conservador em que a bancada Boi, Bala e Bíblia predomina no congresso. 

“- O Brasil está abandonado, senhor; de lá tudo se tira, e nada se constrói. Nossa gente é deixada a míngua e se contenta com o que tem.”

Ao ler a obra de Samir, o sentimento que se tem é de que ainda vivemos em um Brasil colônia. Com uma sociedade marcada pela intolerância. É praticamente impossível não se conectar com todas as situações apresentadas e ver que ainda vivemos muito do que é passado no século XVIII. O bom disso tudo é que o protagonista desta aventura pode até parecer inocente, mas consegue desviar de grandes problemas e se mostra muito mais esperto do que conseguimos imaginar. Mais do que um livro histórico ou de quebra de costumes, Homens Elegantes é um livro de espionagem de ritmo acelerado  com momentos de traições, assassinatos e trapaça. Falando em ação, um dos pontos mais bacanas do livro é sem dúvida alguma o grande duelo em meio à opera.

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“[…] Não há problema em se ter medo, e você não diminui aos meus olhos por admitir isso. Você não precisa ser forte o tempo todo, Érico. Eu posso ser forte por nós dois, quando você precisar que eu seja.”

Duas coisas me chamaram atenção na obra: o cuidado na camuflagem do personagem e a sua formação de identidade. Quanto ao primeiro, é perceptível o cuidado do autor ao construir o disfarce de Érico, que se transforma em um verdadeiro ator ao longo da trama, nos levando a questionar qual a sua verdadeira identidade. Ao construir esta camuflagem, Samir de Machado se preocupa em nos informar. Por exemplo: Ao dialogar em inglês, são utilizadas aspas, enquanto no idioma lusitano são utilizados travessões. Pode até parecer um detalhe bobo, mas sem dúvida alguma, faz toda a diferença para quem está imerso na obra. Outra questão que Samir foi incrível foi na formação de identidade do protagonista. Não bastava ser brasileiro de nascimento e de uma classe não tão nobre, Érico, o protagonista também é gay. Para quem precisou esconder sua orientação sexual o tempo todo em um mundo que o reprime ser o que é , fingir ser o Barão de Lavos seria fichinha.

Uma das coisas mais bacanas é que Homens Elegantes tem bastante fundamento! Em seu blog, Samir nos apresenta as pesquisas feitas para a construção de seus personagens, como o post sobre as grandes trans do iluminismo. Ele aproveitou as informações retiradas de suas pesquisas históricas sobre a sociedade do século XVIII e do Iluminismo,  que acabaram ficaram de fora de seu livro anterior, Quatro Soldados. E o principal: ao iniciar a obra, ele já tinha em sua cabeça que seu protagonista seria gay. O mais interessante é saber que a ideia ideia que surgiu de um lugar inusitado: uma passagem do romance As Horas, de Michael Cunningham, onde um ator e um produtor de cinema discutem se o público estaria preparado para aceitar um filme de ação com um protagonista gay. E o melhor: Samir conseguiu construir um protagonista rico, cheio de personalidade e sem qualquer estereótipo de quem tenta construir um personagem homossexual sem entender do assunto.

Em suma, não há como negar: infelizmente, vivemos no cenário de Homens Elegantes. Uma sociedade preconceituosa, retrógrada e fanática, em que todos os dias precisamos encarnar o Érico Borges que existe em nós e colocarmos nossa capa e preparar nossa espada para encarar os milhões de conde Bolsonaro que nos assombra. Esta é uma obra destemida, seja em sua narrativa quanto no momento para ser lançada. Parabenizo o autor Samir Machado de Machado pelo seu romance, e principalmente, pelo cavalheirismo ao criticar nossa realidade. A narrativa nos prende do inicio ao fim com humor e reflexões na medida certa. Agora é esperar ansiosamente pelo filme!

Ficha Técnica:

Título: Homens Elegantes

Autor: Samir Machado De Machado

Páginas: 576

ISBN: 978-85-325-3040-0

Editora: Rocco

Sobre o autor:

Samir Machado de Machado nasceu em Porto Alegre, em 1981. Desde 2007, organiza as antologias de contos Ficção de Polpa, dedicada à literatura de gênero. É autor da novela O professor de botânica (2008), finalista do Prêmio Açorianos de Literatura, e do romance Quatro soldados (2013), que, junto de Homens elegantes, teve os direitos para o cinema adquiridos pela RT Features.

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