Resenha: Lugar Nenhum – Um Alice no País das Maravilhas moderno e adulto

Para quem não sabe, Lugar Nenhum, de Neil Gaiman surgiu inicialmente para ser uma série de televisão, e em seguida, acabou se materializando no papel e se transformou no primeiro romance do consagrado escritor britânico. Na nova edição da Editora Intrínseca, o livro vem acompanhado de uma cena cortada e um conto exclusivo para a alegria dos fãs do autor.

Publicado originalmente em 1997, Lugar Nenhum foi o primeiro romance do autor e foi a obra responsável por dar a Gaiman, o título de grande nome da literatura. E se você já leu Os Filhos de Anansi, Deuses Americanos ou O Oceano no Fim do Caminho, vai gostar de saber como começou todo o surrealismo de Gaiman, que transforma ambientes urbanos e comuns nos cenários mais mágicos do universo com maestria.

O mais engraçado, é que Lugar Nenhum é uma obra, que desde o seu lançamento sofreu diversas alterações ao longo do tempo. Muitos trechos foram modificados e acrescentados desde a construção do roteiro até a versão mais recente lançada pela Intrínseca em junho deste ano.

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“- Meu jovem, você precisa entender uma coisa. Existem duas Londres: a Londres de Cima – onde você morava – e a Londres de Baixo, o Submundo, habitada pelas pessoas que caíram pelas fissuras do mundo. Agora você é uma delas. Tenha uma boa noite.”

Em Lugar Nenhum, Gaiman nos apresenta o jovem escocês Richard Mayhew, que deixa sua cidade natal para tentar uma vida melhor em Londres. Lá, ele conquista um emprego promissor, uma noiva linda e um grande amigo. Mas como em toda obra de Gaiman, quando tudo está certo demais e um tanto pacato, ele chacoalha a vida de seus personagens, colocando-os em situações que nunca imaginariam. Certa noite, Richard se depara com uma garota ferida (Lady Door), que surge de dentro de uma parede, e ele é o único que consegue enxergar.

Tudo isso porque ela é uma habitante da Londres de Baixo, onde tudo é igual a Londres convencional, exceto pela magia, perigo e pelos excêntricos habitantes. Ao ajudar a garota, Richard acaba sendo transportado para esse outro lado da cidade e vai percebendo que uma vez que você vive na Londres de Baixo, passa a ser praticamente invisível para as pessoas que você conviveu, mas que continuam na Londres de Cima (e esse será um de seus menores problemas).

Com uma narrativa sem rodeios, você conhece bastante sobre os personagens logo no início da leitura e passa a entender que Door é a única sobrevivente de um massacre e está fugindo dos dois assassinos que mataram sua família e que Richard é quem poderá lhe ajudar nessa jornada.

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Para quem não sabe, Gaiman é um dos meus autores preferidos. O que mais me encanta em sua escrita, a construção do mundo fantástico criado por ele e as críticas feitas de forma sútil. Richard por exemplo, é o retrato perfeito de uma geração que é cobrada constantemente a ter sucesso em todas as áreas da vida cada vez mais cedo, deixando de lado a busca por aventuras pessoais e o autoconhecimento. E o que no começo pode parecer um personagem chato, passa a ser impossível não se identificar, afinal, o jovem busca um real significado em sua rotina mecânica.

Em Lugar Nenhum, o uso da fantasia urbana é tão incrível, que nos dá vontade de acreditar naquilo e imaginar que é possível fugir da monotonia do cotidiano e entrar por uma porta e sair em um mundo totalmente novo, com mercados flutuantes, cortes reais em vagões de trem e os monstros que habitam entre o vão do trem e a plataforma.

“Ele está em algum lugar nas profundezas abaixo da superfície: num túnel, talvez, ou nos dutos de escoamento de esgoto. A luz bruxuleia, definindo a escuridão em vez de afugenta-la. Ele não está sozinho. Há outras pessoas andando à sua volta, embora ele não consiga ver seus rostos.

Estão correndo, agora, dentro do esgoto, pisando forte, jogando lama e sujeira para todos os lados. Gotas d’água caem lentamente pelo ar, cristalinas na escuridão. Ele faz uma curva e a fera está à sua espera. É enorme. Ocupa todo o espaço do túnel: cabeça volumosa e abaixada, corpo coberto com pelos ouriçados e a respiração condensada no ar frio. Um tipo de javali, ele pensa inicialmente, e, então, conclui que nenhum javali poderia ser tão grande.

É do tamanho de um touro, de um tigre, de um boi. Os olhos da fera estão fixos nele e ela faz uma pausa de cem anos, enquanto ele ergue a lança. Ele olha para a mão que segura a lança e repara que aquela não é sua mão: o braço está coberto com pelos negros e as unhas são quase garras.

E então a fera avança”.

Diferente de outras obras como Alice no País das Maravilhas, Robinson Crusoé, O Mágico de Oz, O Pequeno Príncipe, entre outros, Lugar Nenhum é uma grande crítica à sociedade. Nesta obra, Gaiman aproveita para nos fazer refletir sobre uma temática bastante importante: o tratamento dado aos moradores de rua e pessoas em situação de risco, como idosos abandonados pela família, crianças abusadas, mulheres e miseráveis que recebem pouca ajuda da sociedade e são vistos e tratados com total desprezo. Afinal, seria o submundo criado por Gaiman tão fantasioso assim, ou ele está mais presente em nossas vidas do que imaginamos?

“– Sonhos fresquinhos, maravilhosos! Pesadelos de primeira classe!” “– Lixos! (…) – Porcaria! Nojeiras! Sobras! Dejetos! Podem vir que aqui tem! Nada inteiro, tudo com defeito!”

A leitura vale muito a pena para quem deseja conhecer a leitura do mestre Gaiman e traz boas reflexões. A edição está ótima e conta com a tradução de um apaixonado que entende bastante do autor: Fábio M. Barreto

Ficha Técnicauntitled

Título| Lugar Nenhum

Autor| Neil Gaiman

Editora| Intrínseca

Ano| 2016

Gênero| Fantasia Urbana

Páginas| 336

 

Felipe Borba

Nasceu no Pará, cresceu no Maranhão e vive em Minas Gerais. Além de se considerar um explorador da natureza; Felipe é publicitário com especialização em Marketing Estratégico, é viciado em novas tecnologias, queria ser adotado pelo Neil Gaiman e tem mais livros do que dá conta de ler.