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O pacifismo no universo Star Wars

Star Wars é sobre pacifismo

Tal afirmativa parece um pouco estranha, considerando que se trata de uma franquia que possui guerra no título, célebre por suas batalhas espaciais e duelos de sabre de luz. Mas acredito que a trilogia original não teria tido esse impacto tremendo na cultura pop e na vida de muitos se fosse apenas uma space opera derivativa de Flash Gordon, sem tocar em temas interessantes e relevantes. Um desses temas, sem dúvida, é o de que a violência não é uma solução apropriada para os problemas.

Ao contrário da maioria dos filmes de ação e de super heróis de hoje, nenhum dos longas originais da série termina com o vilão sendo derrotado pelo herói por meio da violência.

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Na primeira produção lançada em 1977, que depois foi chamado de “Episódio 4: uma nova esperança”, Obi-Wan deliberadamente se deixa derrotar pelo vilão Darth Vader, argumentando que isso só o tornaria mais forte. A batalha final desse filme tem como objetivo a destruição total de uma grande e poderosa arma.

Em “O Império contra-ataca” o protagonista Luke resolve enfrentar Darth Vader sem ter completado o treinamento, contra a vontade de seu mestre Yoda. Luke acaba perdendo a luta contra Vader e tem a mão mutilada. Nessa narrativa, temos a introdução do personagem do Mestre Yoda. Luke espera encontrar um grande mestre que o treine no combate, mas ao invés encontra uma criatura pequena e aparentemente frágil. Quando Skywalker revela sua expectativa de encontrar no famoso Mestre Yoda um “grande guerreiro”, o mestre contesta: “a guerra não torna ninguém grande”. O treinamento de Luke sob a tutela de Yoda consiste em um árduo exercício para o aprimoramento físico e mental (devemos incluir espiritual também?), mas não há muitas práticas de combates marciais. Mestre Yoda é claro em afirmar que os cavaleiros jedi só combatem em legítima defesa. Ao observarmos os confrontos da saga original, pode-se perceber o seguinte detalhe: os heróis sempre ligam seus sabres de luz azuis ou verdes depois que o vilão liga o sabre vermelho dele.

Em um determinado momento do seu treinamento no planeta Dagobah, Luke precisa entrar em uma caverna na qual enfrentará algo do lado sombrio. Quando perguntado sobre o que existe dentro da caverna, Yoda responde: “apenas o que você carrega”. Luke decide levar seu sabre de luz apesar de Yoda alertá-lo de que ele não precisará da arma lá dentro. Na caverna, Luke tem uma visão de Darth Vader e logo aciona seu sabre de luz e, quando Vader é derrotado, seu capacete se abre revelando o próprio rosto de Luke. A alegoria é clara: o lado negro de Luke é a sua própria predisposição à violência. É essa característica que ele deve superar para não se tornar equivalente a seu inimigo.

No último filme da trilogia original, “O Retorno de Jedi”, temos finalmente o esperado confronto de Luke Skywalker e Darth Vader, cujo segredo sobre a paternidade do herói já tinha vindo à tona. Luke derrota Vader, instigado pelo Imperador; mas a verdadeira vitória de Skywalker ocorre quando ele desliga seu sabre de luz, recusando-se a desferir o golpe final em seu pai. A trilogia original termina então em uma grande nota de perdão por parte do herói, e de redenção para aquele que é indiscutivelmente um dos maiores vilões da história do cinema.

Tive uma agradável surpresa ao perceber que o tema do pacifismo também está presente em “Os últimos Jedi”, o mais recente da franquia. (E, a partir desse ponto, alerta de spoilers).

LEIA TAMBÉM: Crítica completa de Star Wars: Os Últimos Jedi

“Os últimos Jedi” faz muitas referências à trilogia original e executa, por vezes, uma retomada do curso de onde os prequels se desviaram. Isso fica bem claro quando Luke pede a Rey que defina o que é a força, e ela responde que é basicamente o poder dos jedi de levantar as coisas com a mente (o que seria uma conclusão bastante acertada levando em conta apenas o que aparece na trilogia de prequels). Luke a corrige, fornecendo sua versão do conceito que é apresentado por Obi-Wan Kenobi em “Uma nova esperança”: a força é um “campo de energia criado por todos os seres vivos, que nos cerca, nos permeia e mantém a galáxia unida”.

Da mesma forma, o tema do pacifismo é retomado de forma expressa nessa nova película. Ele aparece principalmente nos arcos dos personagens da mecânica Rose Tico e do piloto Poe Dameron.

The last Jedi
O objetivo da Resistência não consiste em lutar para destruir aquilo que odeia, mas em salvar aquilo que ama

A irmã de Rose se sacrifica logo na primeira batalha espacial do filme para destruir uma gigantesca nave imperial, mas impede seu amigo Finn de fazer o mesmo no fim do longa. Sua justificativa é um ensinamento de que o objetivo da Resistência (os heróis do filme) não consiste em lutar para destruir aquilo que odeia, mas em salvar aquilo que ama

Em outro momento, Rose insiste em se desviar de sua missão principal para libertar alguns animais que estão servindo de entretenimento de luxo para milionários comerciantes de armas, lembrando que é importante auxiliar aqueles que necessitam.

No início de Os Últimos Jedi, o personagem de Poe Dameron insiste em realizar o ataque que destruiu a grande nave imperial, mas que custou a vida de muitos, incluindo a irmã de Rose.

Durante a narrativa, ele questiona a aparente imobilidade da Almirante Holdo, que se limita a fugir da nave imperial sem lhes dar combate, e chega a organizar um motim na nave. É com surpresa que, finalmente, ele descobre que os planos dela não eram de enfrentamento da grande nave, pois ela não tinha a necessidade de ser vista como uma grande heroína combatente; mas de dar cobertura a uma fuga dos tripulantes para que a chama da Resistência continuasse acesa. Aprendendo essa lição, Poe no fim da película comanda a retirada estratégica de suas tropas e companheiros evitando um desperdício maior de vidas no combate.

O filme fecha quando vemos que os atos da Resistência serviram para iluminar o coração de um dos meninos capatazes oprimidos no Planeta Casino de Canto Bright. A lição da última cena da produção é clara: o mais importante para os heróis não é derrotar os vilões, mas salvar e inspirar aqueles que estão sendo oprimidos.

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