Review: Stranger Things

A Netflix tem apostado nos mais diverso gêneros e formatos para compor sua programação original, o que só tem contribuído para o seu sucesso comercial e de crítica. Agora, eles resolveram apostar na nostalgia com Stranger Things, sua nova série que é um verdadeiro ode ao cinema e à cultura dos anos 80.

Criada por Ross e Matt Duffer (creditados como The Duffer Brothers), Stranger Things se passa em 1983, na cidade fictícia de Hawkins, Indiana, onde uma série de eventos estranhos começam a acontecer depois do desaparecimento do pequeno e introvertido Will Byers (Noah Schnapp).

Antes de realmente dar o veredito da série, vale a pena comentar sua quantidade imensa de referências, destacando-as através de três caras cujas obras foram influências cruciais para o trabalho dos Duffer: Steven Spielberg, Stephen King e John Carpenter.

Steven Spielberg

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Provavelmente a maior influência para Stranger Things, a obra de Spielberg está impregnada na própria essência da série, e podemos perceber referências a filmes como ET: O Extra-Terrestre, Os Goonies, Contatos Imediatos de Terceiro Grau e Poltergeist – O Fenômeno a todo momento: um mistério envolvendo uma cidade pequena, um grupo de crianças muito unido tentando resolver o tal mistério, contato com o sobrenatural através de objetos inanimados, valores como lealdade e companheirismo sendo discutidos através da amizade dos personagens… Todos esses elementos permeiam a filmografia de Spielberg e fazem de Stranger Things mais um exemplar desse “sub-gênero” criado pelo cineasta.

Stephen King

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O Mestre do Horror também é uma grande influência para a série, que mais pode ser notada em Eleven (Millie Bobby Brown) uma menina com habilidades telepáticas e telecinéticas que surge em Hawkins logo depois de Will desaparecer. Eleven é claramente inspirada em personagens de King como Carrie White (Carrie – A Estranha) e Charlie McGee (A Incendiária): meninas com habilidades especiais e que não tem controle sobre seus poderes. A obra de King também pode ser notada na amizade de Mike, Lucas e Dustin e na forma como a missão de encontrar Will os une ainda mais, referência clara ao filme Conta Comigo (inspirado no conto The Body, escrito por King em 1982), e no design do título da série, criado pelo estúdio Imaginary Forces, que lembra muito a fonte usada no títulos dos livros de King nos anos 80, além de ser também bastante inspirada pelo trabalho de Richard Greenberg, que criou o design do título de filmes como Superman, Alien: O 8° Passageiro e Na Hora da Zona Morta.

John Carpenter

A série possui referências a diversos filmes de Carpenter, como A Bruma Assassina, Eles Vivem e O Enigma de Outro Mundo, cujo poster podemos encontrar no quarto de Mike (Finn Wolfhard) e que também é assistido pelo professor de ciências dos meninos em um dos episódios. Mas a principal influência do cineasta se encontra na trilha sonora da série, que lembra muito os temas criados para filmes como Halloween, especialmente pelo uso de sintetizadores em suas composições.

Agora o veredito: os irmãos Duffer merecem muitos elogios pelo trabalho e dedicação que tiveram com o desenvolvimento da série. A caracterização dos anos 80 é impecável, seja na fotografia, na direção de arte, no figurino ou na trilha sonora (Kyle Dixon e Michael Stein merecem um destaque especial pelo trabalho magnífico com a trilha). Tudo é tão minucioso e detalhado que em certos momentos você simplesmente esquece que a série não foi lançada na época (as cenas na escola, especialmente com os adolescentes interagindo, parecem ter saído de algum filme perdido do John Hughes).

Os atores também são um dos pontos altos da série: Winona Ryder foi a escolha perfeita para a personagem principal. Talvez a atriz mais influente de Hollywood no final dos anos 80 e início dos 90, Ryder marcou a infância e adolescência de muita gente protagonizando clássicos como Os Fantasmas se Divertem, Heathers (Atração Mortal no Brasil) e Edward Mãos de Tesoura, e em Stranger Things ela teve a chance de ter seu grande retorno e de provar mais uma vez seu talento, sendo inclusive elogiada por Stephen King por sua performance como Joyce Byers.

 

Mas o elenco mirim é o grande destaque e provavelmente o principal motivo para o sucesso de Stranger Things. Finn Wolfhard, Caleb McLaughin e Gaten Matarazzo são o que podemos chamar de Dream Team, a química entre os atores é impressionante e cada um deles está incrivelmente bem em seus papéis (Gaten Matarazzo nos lembra em muitos momentos o Chunk, ou Gordo, de Os Goonies). E Millie Bobby Brown tem provavelmente a atuação mais emocionante da série; o peso dramático que ela adiciona à personagem Eleven é muito forte, nos deixando angustiado e triste junto com ela, e esse é um grande feito para uma atriz tão jovem.

Apesar de todas as qualidades, é preciso dizer que a história não surpreende ou impressiona tanto quanto deveria, primeiro devido à previsibilidade do roteiro (a partir da metade da temporada você já deduz o final), e segundo porque toda essa estrutura de homenagem ao cinema oitentista já foi vista em Super 8 que, apesar de não ter tantas referências quanto à série, consegue em muitos momentos ser mais nostálgico e também emocionar mais.

Stranger Things não é nenhuma obra prima, mas com certeza merece ser assistida e tem grande potencial para se tornar uma das grandes séries atuais. Mais um acerto para a Netflix (que, vamos combinar, raramente erra).

* Agradecimentos especiais para Graciela Paciência, que ajudou na produção do review e deu sugestões. 

Lucas Victor

Estudante de Produção Multimídia, nerd e escritor de contos inacabados que ninguém lê. Percebeu que era cinéfilo aos 4 anos, quando estragou um vídeo cassette assistindo A Bela e a Fera sem intervalos, e desde então o vício só aumentou. Prefere DC à Marvel (fato pelo qual é extremamente criticado) e seu maior objetivo é escrever um episódio de Doctor Who.