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Teatro: Doze Homens e Uma Sentença

Assistir Doze Homens e Uma Sentença foi uma das melhores experiências que tive no teatro este ano. A peça que esteve em cartaz em Belo horizonte por apenas dois dias (nove e dez de agosto), consegue agradar facilmente aqueles que nunca tiveram nenhum contato com a obra ou com o cenário apresentado. A grande surpresa ficou por conta do debate no final da sessão, com o diretor Eduardo Tolentino de Araújo, que deu um verdadeiro show ao trazer questões da atualidade e abordar o sistema brasileiro.

Com um cenário simples e sem nenhuma trilha sonora, Tolentino consegue criar um clima tenso e pesado ao longo do processo de julgamento de um jovem acusado de matar o próprio pai a sangue frio.

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Para quem não conhece, a obra foi escrita pelo roteirista norte-americano Reginald Rose (1920-2002) como um programa televisivo, ganhou duas adaptações para o cinema. A mais famosa delas, de 1957, foi dirigida por Sidney Lumet (1924-2011) e trazia Henry Fonda (1905-1982) no elenco. A versão de 1957 está em nossa lista Os 100 filmes favoritos do Cinema de Boteco em 23º lugar, com doze atuações marcantes, dezenas de diálogos afiados e que continua um filmaço mesmo quando a gente assiste pela décima vez.

A adaptação apresenta o julgamento de um jovem norte-americano acusado de matar o próprio pai a punhaladas. Em um fervoroso exercício de argumentação, os 12 jurados devem decidir se o réu deve ser mandado para a cadeira elétrica. Em entrevista para o Portal Uai,
Tolentino conta que um dos aspectos mais interessantes da produção é o fato de ela dialogar com a realidade de muitos lugares diferentes – inclusive a brasileira.

”Estamos vivendo um momento em que o Brasil está muito jurisdicionalizado. Todo mundo julga todo mundo – e do jeito que quer. Como em qualquer julgamento, tem os radicais, os Bolsonaros da vida, e os mais sensatos”, afirma.

Com um elenco de alto nível (12 pessoas em cena), a peça emociona, nos leva a reflexão do poder de decisão de vida e o papel da justiça. Uma experiência única e essencial para o tempo de intolerância que vivemos.

FICHA TÉCNICA

Texto: Reginald Rose
Direção: Eduardo Tolentino de Araujo
Cenários / Figurinos: Lola Tolentino
Iluminação: Nelson Ferreira
Elenco: Adriano Bedin, Alan Foster, Almir Martins, Augusto César, Brian Penido Ross, Bruno Barchesi, Daniel Volpi, Ivo Müller, Leandro Mazzini, Norival Rizzo, Rafael Golombek, Ricardo Dantas, Zécarlos Machado
Produção Executiva: Ariel Cannal
Realização: Grupo TAPA

GRUPO TAPA

O Tapa foi fundado em 1974 dentro da PUC-Rio, quando alunos de diversos cursos decidiram fazer teatro amador. À época, chamava-se Teatro Amador Produções Artísticas (T.A.P.A.). Quando o grupo se profissionalizou, em 1979, após um curso com o Teatro dos 4, e vários dos amadores decidiram seguir carreira profissional, o nome deixou de ser uma sigla – e se tornou apenas Tapa. Em 1986 o grupo optou por transferir-se para São Paulo, onde ocupou o Teatro da Aliança Francesa como sede permanente por 15 anos.

O grupo se notabiliza pelo teatro de repertório e a montagem de clássicos: entre os autores encenados estão Shakespeare (“A Megera Domada”), Bernard Shaw (“Major Bárbara”), Anton Tchekov (“Ivanov”), August Strindberg (“Camaradagem”), Oscar Wilde (“A Importância de Ser Fiel”), Nicolau Maquiavel (“A Mandrágora”) e Luigi Pirandello (“Vestir os Nus”); e também grandes autores brasileiros, como Arthur de Azevedo (“A Casa de Orates”, entre outras), Nelson Rodrigues (“Vestido de Noiva”, entre outras) e Jorge Andrade (“Rasto Atrás”, entre outras).

Com 35 anos de atividade, o Tapa já recebeu mais de 80 prêmios, entre Shell, Mambembe, Molière, APCA, Qualidade Brasil e Governador do Estado. A sede fica, hoje, em um galpão na Rua Lopes Chaves, onde são ministrados grupos de estudos para atores, promovendo pesquisa na área cênica.

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