Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Editorial: Cinema em Cena (1997 – 2014)

2014 está nos tirando os grandes do Cinema: Coutinho, Seymour Hoffman, Robin Williams, Eli Wallach, Richard Attenborough… Também está sendo um ano triste para o jornalismo, com demissões em massa e fechamento de veículos. Para nós, pessoalmente, a maior perda de referencial cinematográfico e jornalístico ocorreu ontem.

Quando completar o seu décimo sétimo aniversário, o Cinema em Cena, para nós o melhor site de cinema do Brasil e um dos melhores do mundo, vai encerrar suas atividades. A sensação, sem nenhuma demagogia, é a mesma da perda de um ente querido. O sentimento é partilhado por toda a equipe do Cinema de Buteco. Muitos colegas vieram nos dizer que perderam seu referencial.

Como nossos leitores sabem, nós, Larissa Padron e Tullio Dias, iniciamos as nossas carreiras no Cinema em Cena, com ENORME orgulho. E como homenagem ao site – nosso velho amigo -, gostaríamos de compartilhar essa incrível experiência com vocês, que, como nós, ficarão um pouco órfãos do jornalismo cinematográfico de qualidade:

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cec

” No dia 16 de maio de 2011, publiquei as minhas primeiras notinhas no CeC, que ainda estava com o layout anterior. Escrevi sobre aquela porcaria que o Neil Jordan dirigiu, o tal de Byzantium. Lembro de ter chegado na redação às 8h, pontualmente (algo que nunca foi o meu forte e rendeu diversos puxões de orelha), e esperado um bom tempo até que o Renato Silveira chegasse para aprovar as notícias e eu iniciar meu trabalho nas páginas do primeiro site de cinema que visitei na internet.

Na verdade, posso ir até mais longe.

“Conheci” o Pablo Villaça por um programa de televisão. Era mágico, sabe, daquelas coisas que você ficava com vontade de ver por horas para alimentar a fome de conhecimento cultural. Daí para o site foi um pulo. Ainda era naquele modelo antigo, em que todas as notícias de um filme ficavam numa página única. Era genial. Nem dava muita bola para as críticas, já que meu interesse era ficar informado para debater com meu amigo na escola. O que quero dizer com isso é que, cara, eu trabalhei por dois anos no maior site de cinema da internet brasileira. E eu era fã do trabalho que era feito lá. E tão fã do Pablo que me fizeram (acidentalmente) inclui-lo na minha lista de “homens que eu pegaria”. Fui manipulado nessa ocasião, e isso não vem ao caso.

Daquele primeiro dia de redação, ao lado do Vírgilio e do Eduardo, até a entrada do Heitor e da Larissa, foi um pulo. De repente, todo aquele planejamento para conquistar um lugar ao sol na internet brasileira e se tornar não apenas o site exclusivamente de cinema mais acessado do país, mas também o melhor, tudo isso começou a ser colocado em prática. Foi aí que o Podcast nasceu. Foi aí que minha coluna “Cineclipado” nasceu. Foi aí que “E aí, meu irmão, Cadê Você?” nasceu. Foi aí que “Que Cinema é Esse?” nasceu. Foi aí que o fucking awesome “Clube dos Cinco” nasceu (E porra, John Hughes é lindo, mas o clube dos cinco a que a coluna se referia era a redação do site). E foi aí que pelo menos o posto de melhor foi atingido.

Existem muitos sites bons de cinema na internet. Esse aqui que você está lendo, por exemplo, é um belo exemplo. Existem alguns outros. Mas eles não têm um Pablo Villaça, um Heitor Valadão, um Renato Silveira, uma Larissa Padron, e pô, why not?, um Tullio Dias. Esse conjunto de pessoas tão diferentes fazia o site fluir. E era foda.

Lembrei-me agora de uma reunião séria com a equipe inteira. No final dela, depois de o assunto ser debatido, o Pablo me perguntou porque eu estava calado e então coloquei para fora toda a minha tristeza por causa da história de uma orangotango fêmea que era usada como diversão sexual para uns pervertidos na Ásia. Enquanto eu quase chorava por revelar a tristeza, os quatro se olharam altamente constrangidos e segundos depois começaram a rir.

Lembrei outra história.

Eu estava solteiro na época, e dizia estar apaixonado pela garota que trabalha numa das mesas mais próximas. Pô. Nem sabia o nome da mulher, mas eu estava numa paixão platônica. Então, num belo dia, e sem nenhum aviso prévio, Larissa me mandou uma mensagem no Gtalk dizendo que havia acabado de descobrir que o nome da minha amada era X. Eu, sem entender porra nenhuma, e perguntei, em voz alta óbvio. “X? Quem diabos é X? Minha amada chama X?”. Larissa ficou vermelha de vergonha, me olhou incrédula e abaixou a cabeça. Nisso, eu percebi que a X estava olhando na minha direção com uma tremenda cara de “WTF?” e finalmente caiu a ficha. Como rir da própria desgraça é algo que sei fazer muito bem, no momento em que o Renato chegou na sala fiz questão de contar a história toda pra ele, que achou tudo tão engraçado (ou ridículo), que teve que sair da sala para rir. É. Era assim.

Nesses dois anos construí muitas amizades. Leonardo Lopes, João Golin, Raphael Katyara, Bruno Costa, Carlos Carvalho, Marcelo Seabra, e um monte de gente foda que chegou até mim por causa do site. E ainda tinham os leitores que ficavam super íntimos (eu esqueci quem foi o rapaz, mas recebi um pôster do Justin Timberlake uma vez e foi lindo), e aqueles que estavam sempre presentes e fazendo a diferença, como o Davi Vilela, Hélio Francis, Isabel Wittmann, Iris Perfetto, e um monte de gente que nos fez rir muito. Então, com tantas lembranças boas, é de dar um aperto no coração imenso saber que o lugar que me proporcionou tanto, pode encerrar suas atividades depois de ter passado quase 20 anos nos acompanhando e ensinando. Como escrevi no Instagram, valeu demais por cada risada e reunião naquela sala de conveniência mágica (e cheia de Danoninho). ”

Tullio Dias

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” Minha avó me fez uma criança apaixonada por cinema. Dormir em sua casa significava assistir sua coleção imensa de VHS’s. Essa paixão fazia com que, além de assistir a muitos filmes, eu quisesse saber tudo sobre o mundo do cinema. Notícias, informações sobre diretores, bastidores, tudo.

Quando optei pelo jornalismo, sabia desde, antes mesmo do vestibular, qual vertente do jornalismo eu iria escolher (naquela época mágica em que eu achava que teria o luxo de escolher para sempre): a editoria de cultura é claro, preferencialmente a de cinema. Sendo assim, quando fui convidada para uma entrevista de estágio para o Cinema em Cena, eu sorria tanto que parecia ter um cabide na boca. Por sorte passei e cheguei ao meu primeiro dia de redação tremendo de medo. Eu nunca tive uma notícia publicada e ali estava eu, tendo a chance de fazer isso com o assunto que eu mais amava. Em um dos sites mais acessados do país. Aprendi a selecionar as melhores fontes.

Fiz minha primeira entrevista com alguém famoso, o Bruno Garcia. Sobrevivi. Na segunda já estava conversando com um dos meus diretores favoritos, o Jorge Furtado, que é uma pessoa incrível. Sempre passava mal, mas o problema não foi nas primeiras entrevistas, e sim ao entrevistar o Lazaro Ramos. Longa e constrangedora história, nem queiram saber.

Sentia que precisava estudar mais A indústria do cinema brasileiro, já que pretendia ser cineasta um dia. Ofereceram-me uma coluna sobre o assunto. A responsabilidade foi tão grande que sentia que estava parindo a cada texto. Literalmente doía. Pesquisava tanto que os textos ficavam gigantes. E nem por isso fui podada.

Depois surgiu o podcast e foi assustador e uma das coisas mais incríveis que me aconteceu ao mesmo tempo. Era divertidíssimo, eu me sentia próxima do público e existiam ouvintes que efetivamente queriam saber minha opinião. Imagina, nem eu mesma sei minha opinião às vezes. Era surreal. Estudava tanto para não falar besteira, tanto. E mesmo assim falava. Às vezes os ouvintes eram maldosos ou muito sinceros nos comentários. E isso sempre era tratado pela equipe (menos eu, que sou chorona) como motivo para encorajar e não para desistir.

O site completou 15 anos, mudou de layout e ganhou um especial sensacional. E eu estava lá, naquele baile de debutante que tirou meu sono por alguns dias, de tanto trabalho, mas que fez toda a família chorar de emoção. Eu gostava tanto, mas tanto de passar minha horas ali que já ocorreu a ocasião de meu marido ter que me ligar para lembrar que eu havia perdido a aula, pois já deveria ter saído da redação havia horas.
Nem tudo era colorido. Como em qualquer trabalho, existiram os momentos de estresse e as pequenas brigas. Mas sempre fui tratada como um profissional, que merecia respeito e valor. Tive que sair do site porque já estava na hora de buscar novas oportunidades, mas a saudade era tanta que até hoje ele está entre os primeiros da minha barra de sites favoritos, para ser acessado diariamente.”

Larissa Padron

*****

Decidimos tornar essa experiência pública aqui, e não colocá-la apenas em nossas páginas pessoais, por alguns motivos.

O PRIMEIRO DELES é porque aqui conseguimos alcançar mais gente e acreditamos que os leitores do CeC merecem saber que, muito além de uma referência no jornalismo e na crítica cinematográfica, o Cinema em Cena é uma escola para seus redatores. Por dois anos trabalhamos em um ambiente de respeito e confiança, com pessoas que faziam questão de passar todo o seu gigantesco conhecimento adiante. Um dia na redação escrevendo notícias, pesquisando para colunas ou dando risada em um podcast nos trouxe aprendizados que nunca obtivemos na Universidade, e que carregamos por toda vida.

O SEGUNDO É AINDA MAIS CLARO: se existe Cinema de Buteco hoje é porque existiu o Cinema em Cena ontem. Em dois anos, tivemos o privilégio de estar entre os melhores e aprender diariamente com uma equipe fantástica e com os melhores leitores (e ouvintes) que existem. E esse aprendizado nos deu vontade de querer continuar nos aprimorando a cada dia. Como comunicadores, nós devemos ao CeC a vontade de querermos ser melhores em tudo. E se alcançarmos um décimo do profissionalismo, qualidade e ética jornalística do CeC, já é um baita motivo para se orgulhar. O CeC nunca foi concorrência: ele é o espelho.

Por fim, seria no mínimo injusto deixar a nossa gratidão apenas no âmbito privado. Nós temos tanto a agradecer que não há possibilidade de caber tudo em um editorial. Mas aqui vai a singela tentativa:

Ao Heitor, por ser um companheiro de trabalho que conseguia nos divertir mesmo falando “você gosta desse filme porque você está errado” e por aumentar consideravelmente nossa coleção cinematográfica e, principalmente, a bagagem de conhecimento.

Ao Pablo. Se vocês leitores sentem que estão absorvendo muito ao ler suas críticas ou ao fazer o curso (recomendadíssimo, by the way), imaginem o que é ter o privilégio de bater um papo sobre cinema com esse cara algumas vezes ao mês. Obrigada, mestre, pelos papos e pela inspiração que representa.

Ao Renato. Vai ser difícil encontrar algum editor nesse mundo jornalístico que confie tanto em sua equipe como você. Talvez quem não estude jornalismo não saiba, mas estagiários dificilmente assinam as suas notícias. Nós éramos estagiários, e não apenas assinávamos as nossas notícias, como éramos colunistas, tínhamos liberdade de pesquisar o assunto que queríamos, participamos ativamente das reuniões de pauta como qualquer outra pessoa e nossa opinião era sempre válida. Participamos do podcast desde sua primeira edição e o público sabia o nosso nome. Podemos garantir que absorvemos muito mais por isso. E tudo porque tínhamos um editor que puxou À sua mãe e era também um professor, sabia explicar o motivo dos puxões de orelha e parabenizar o que dava certo. Que fazia questão que o CeC tivesse também a nossa cara.

E carregaremos eternamente o orgulho de ter “dado cara” ao CeC por dois anos de sua história. Nos esforçaremos ao máximo para que o sentimento seja recíproco e para que um dia vocês possam dizer: “Tá vendo esses dois aí? Eu que ensinei essas coisas pra eles”. E a afirmação será verdadeira.
Como acontece em um grande filme, o impacto nas nossas vidas continuará mesmo após o fim da projeção.

Muito obrigado por tudo e boa sorte a todos nos novos caminhos.

Larissa Padron e Tullio Dias
Editores

PS: O restante da equipe também gostaria de prestar uma homenagem ao CeC, que será publicada em breve.