Cinema por quem entende mais de mesa de bar

#ButecoÁrabe: O Dia em que Perdi Minha Sombra

Está no ar a nossa cobertura da Mostra Mundo Árabe de Cinema em Casa 2020.

Leonardo Lopes analisa O Dia em que Perdi Minha Sombra, de Soudade Kaadan. A produção foi exibida e premiada no Festival de Veneza de 2018. Confira!

O CINEMA DE BUTECO INAUGURA HOJE O #ButecoÁrabe, para cobrir a Mostra Mundo Árabe de Cinema em Casa 2020. Dedicada à produção cinematográfica de países árabes, ela é virtual e inteiramente gratuita – basta um cadastro no site para assistir aos filmes e acompanhar entrevistas com seus realizadores. Embora as circunstâncias do mundo atual impeçam a principal marca das coberturas do site – a narração da experiência de estar lá, além da análise das obras – e o próprio formato do evento faça com que o conteúdo seja reduzido – serão duas publicações -, acreditamos ser parte do nosso papel promover e cobrir iniciativas que sustentem a força dos festivais. Afinal, eles são muito importantes para a existência do cinema como o amamos, mesmo diante das adversidades.

- Advertisement -

Análise do filme

O letreiro inicial deixa claro: estamos num cenário de guerra. O Dia em que Perdi Minha Sombra (Síria/Líbano/França/Catar, 2018) não se distancia muito, no pano de fundo, de outros filmes de origem árabe (constantes em festivais nacionais) mais prestigiados. A produção se foca no centro dos conflitos para narrar histórias de quem tem, o tempo todo, a sua vida ameaçada. Ela tem, no medo, o que move as suas personagens, e na triste realidade que ilustra a sua narrativa. Kaadan, então estreante em ficções, escolheu uma “mulher normal”, Reem (Reham Alkassar), para protagonizar a trama.

As palavras são da própria diretora síria, em entrevista concedida à jornalista Flávia Guerra (que já participou do Papo de Buteco) e à professora Esther Império Hamburger, durante uma live que integra as atrações da Mostra. Kaadan considera que a protagonista “não é uma heroína, apenas uma mulher normal, tentando sobreviver. Ela nem sequer é envolvida com política – e nem deseja ser. Ela não tem escolha, senão agir e reagir para sobreviver.” A declaração é importante para fazer uma observação: o fato de tantos filmes do “mundo árabe” (para usar o termo que dá nome ao evento) terem na luta pela vida sob ameaça dos conflitos armamentistas sua trama central não é um clichê, um estigma, mas o puro reflexo da visão de realizadores para uma realidade que, provavelmente, enfrentaram, enfrentam ou enxergam de perto. Não à toa, não são obras de Hollywood, mas das próprias nações agredidas pela situação – neste caso, a Síria.

A guerra persegue todos os cidadãos de um país envolvido no conflito, sejam quais forem as marcas ou representações deixadas para eles. Pode ser isso que se quer dizer ao repeti-la como tema. Reem não está envolvida de forma alguma com o conflito, mas, inevitavelmente, está. Sua jornada, narrada em O Dia em que Perdi Minha Sombra, não é por qualquer razão senão conseguir um botijão de gás para fazer a comida que alimenta seu filho. Nela, encontra medo, violência e morte. E desloca a nossa percepção de uma atividade tão simples.

Também importa que a protagonista seja mulher e mãe. “Quando os homens vão à guerra, eles precisam deixar a casa, e as mulheres assumem o comando. Isso as deixa mais fortes. Isso é o que acontece no filme. Ela [a personagem] é, praticamente, uma mãe sozinha.” Ao apontar isso, a cineasta revela um dos significados essenciais de sua obra: a guerra não fere apenas quem empunha as armas. As mulheres – embora muitas já assumam papéis de liderança militar – são reveladas aqui com a sensibilidade de quem se sacrifica para que outro lute. Em mais de uma cena, a câmera retrata isso. Quando mulheres se dirigem aos militares, eles se retraem, abrem mão da agressividade. A certo ponto, um soldado armado aponta para Reem antes de ser, imediatamente, consumido pela cordialidade ao falar com ela; poucos minutos depois, ele volta a disparar, naturalmente, cego pelo cumprimento da função. Instantes assim engrandecem a produção.

Em outros momentos, a narrativa perde força ao investir em soluções mais óbvias e emocionais, como a exposição do sumiço da sombra quando personagens perdem, para a guerra, alguém que amam – o que não precisava ser encenado. Kaadan pode não ter percebido que as suas maiores virtudes se revelam justamente nas imagens mais sutis, de uma quase aceitação – por necessidade – da dureza, da frieza, da crueldade. Como quando é necessário colocar as roupas para lavar, mesmo que elas estejam sujas de sangue; quando é preciso botar a comida no fogão, não importa o que se tenha passado para arranjar o gás que o faz funcionar. Reem, seu filho e tantos outros ainda precisam comer para sobreviver. Só não têm a certeza de por quanto tempo. Olhar para isso é fazer um cinema sensível.

Veredito final

O Dia em que Perdi Minha Sombra ★★★

(Yom Adaatou Zouli, Síria/França/Líbano/Catar, 2018. De Soudade Kaadan).