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Crítica: A Despedida – Mostra de SP

A Despedida

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #31

A pergunta que não consegui parar de fazer ao sair da sessão de A Despedida é: como é possível que o diretor de um filme tão constrangedor quanto Colegas consiga criar uma obra tão delicada, tocante e complexa quanto esta? Com muito pouco (dois atores no melhor de suas formas e absolutamente à vontade um com o outro, duas ou três locações principais e uma cortina, cuja importância revelarei mais adiante), o cineasta Marcelo Galvão criou um daqueles filmes que funcionam como um verdadeiro teste de caráter para aqueles que não precisarem lutar contra as lágrimas ao longo de sua hora e meia de projeção.

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Escrito pelo próprio Galvão, o roteiro de A Despedida foca em um dia na vida do idoso Almirante (Xavier), que, aos 92 anos de idade, encontra-se extremamente frágil, debilitado e consciente de que seu fim está próximo. Por essa razão, ele decide sair de casa sozinho pela primeira vez em meses, primeiro parando para tomar um café na padaria – e acertando a conta que deixara em aberto -, depois tentando encontrar o neto e, por fim, fazendo uma visita inesperada a Fátima (Paes), sua amente 55 anos mais nova.

Com uma dificuldade extrema de fazer qualquer coisa por si só – e a primeira sequência do longa é magnífica ao demonstrar o esforço quase insuportável que ele precisa fazer para executar tarefas simples como sentar-se e levantar-se da cama, trocar de roupa, tomar banho, escovar os dentes e fazer a barba com suas mãos perigosamente trêmulas -, Almirante traz nos olhos uma sabedoria quase inesgotável, sendo capaz de responder com rapidez às gozações feitas pelos balconistas do boteco e de transmitir de maneira simples e nunca piegas as incontáveis lições que aprendeu durante quase um século de existência terrena –  e se o magnífico Nelson Xavier fosse norte-americano, a Academia de Hollywood poderia cancelar a categoria de Melhor Ator no ano que vem e já entregar-lhe a estatueta por sua atuação minimalista e profundamente sensível.

Juliana Paes, por sua vez, não fica para trás: desarmando o espectador de qualquer tipo de preconceito no momento em que aparece em cena com o rosto lavado e uma expressão doce e desarmada que imediatamente nos convence do amor que sua Fátima nutre por aquele homem, a atriz merece aplausos também pela naturalidade com a qual contracena com Xavier nas cenas mais íntimas, demonstrando uma entrega total à lógica de sua personagem e oferecendo até para o espectador o alívio que Almirante sente ao fugir daquela vida repleta de dor e incapacidades e se recolher em seus braços amorosos.

Mas o mais surpreendente mesmo é perceber o controle total que Galvão demonstra ter sobre sua narrativa, desde os primeiros minutos da projeção, quando imprime uma acertadíssima “subjetividade auditiva” para nos aproximar da realidade de seu protagonista, até o momento em que utiliza, ao lado do diretor de fotografia Eduardo Makino, a cortina vermelha do quarto de Fátima para “libertá-lo” de sua angústia cinzenta e trazê-lo para um ninho de amor avermelhado e cheio de calor.

Com um final lúdico e que se amarra de maneira perfeita com o prólogo da projeção, A Despedida não é apenas um dos melhores filmes desta edição da Mostra, mas também um dos melhores de todo o ano.

A Despedida (Idem, Brasil, 2014). Escrito e dirigido por Marcelo Galvão. Com Nelson Xavier e Juliana Paes.

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