Connect with us

Críticas de filmes

Crítica: Foxcatcher: Uma História Que Chocou o Mundo

A cobertura da Mostra de SP continua com a crítica do elogiado Foxcatcher, com Channing Tatum e Steve Carell.

Published

on

critica foxcatcher cinema de buteco

BENNETT MILLER É UM DIRETOR CONHECIDO POR CRIAR ATMOSFERAS MELANCÓLICAS e mergulhadas em um outono aparentemente sem fim e por conferir uma veracidade extrema a seus universos, fazendo o espectador esquecer que está diante de atores conhecidos e acreditar que os rostos vistos na tela realmente pertencem a criminosos condenados à espera da execução, empresários, técnicos e estrategistas de baseball ou lutadores de luta-livre. E nesse sentido, Foxcatcher faz jus a sua curta, porém coesa carreira, já que é impossível assistir ao filme sem se sentir completamente sugado para dentro de sua diegese.

Inspirado em uma história real ocorrida entre as Olimpíadas de 1984, em Los Angeles, e 1988, em Seul, o roteiro escrito por E. Max Frye e Dan Futterman gira em torno do wrestler Mark Schultz (Tatum), um sujeito simples e de poucas palavras que sempre foi treinado por seu irmão mais velho, o sereno David (Ruffalo), que o fez campeão olímpico em 84; até que, certo dia, o bilionário John Du Pont (Carell) o procura para lhe fazer uma oferta irrecusável: um salário de 25 mil dólares por ano (o maior valor que o rapaz conseguiu pensar quando perguntado sobre o assunto) e uma preparação intensiva no centro de treinamento de sua fazenda (que dá título ao longa) para torná-lo o maior lutador do mundo. O problema é que a convivência com o magnata revela-se extremamente complicada e a relação de Mark com seu irmão passa a se arranhar com o passar do tempo.

Fotografado com a beleza estética habitualmente conferida por Greig Fraser (Deixa-me Entrar, O Homem da Máfia, A Hora Mais Escura), que nos faz assistir à história de Mark através de um filtro cinzento e entristecido que cria uma angustiante sensação de melancolia e desesperança mesmo quando os primeiros contatos com Du Pont constroem ilusões (que logo se revelarão falsas) na cabeça de Mark, Foxcatcher apresenta seu protagonista como um sujeito solitário (algo que Miller salienta ao constantemente enquadrá-lo sozinho em planos gerais e espaçosos) e facilmente manipulável cuja decadência tem início no momento em que o sonho do sucesso e do glamour o desconectam de sua verdadeira essência como um rapaz simples e próximo da família.

foxcatcher-theatrical-poster

É justamente quando interpreta jovens intelectualmente limitados que se perdem nos caminhos “mais fáceis” de subir na vida, aliás, que Channing Tatum apresenta seus melhores trabalhos – e não é só no fracasso do sonho americano que o Mike de Magic Mike e o Mark de Foxcatcher se cruzam, já que, tanto aqui quanto lá, Tatum compõe seus personagens basicamente através de seu físico (perceba como ele adota aqui uma postura corporal de lutador mesmo nos momentos em que seu personagem encontra-se longe dos ringues, andando sempre com as pernas abertas e a postura encurvada e fazendo tiques com os braços, que parecem estar constantemente tentando se livrar de adversários imaginários).

Ainda assim, é Steve Carell quem provavelmente atrairá mais a atenção dos críticos, sindicalistas e membros da Academia durante a temporada de premiações, já que sua transformação física para se transformar em John Du Pont é muito maior (a mudança mais visível na aparência de Tatum diz respeito à mandíbula saliente): com um nariz ainda mais proeminente que o seu, o rosto artificialmente inchado (algo que até poderia render críticas à maquiagem caso o verdadeiro Du Pont não tivesse o rosto esticado por inúmeras plásticas) e o corpo estranhamente encurvado, Carell transforma o sujeito em uma criatura visualmente esquisita, demonstrando também seu talento dramático ao adotar um tom de voz pausado e um olhar desconfiado que revelam uma alma angustiada cujos métodos de manipulação resultam de um forte complexo de inferioridade.

Trazendo ainda o sempre excepcional Mark Ruffalo em seu elenco principal, o longa escorrega em seu roteiro irregular e cheio de pontas soltas que constantemente oferece pistas que são logo esquecidas e jamais guiam o espectador a qualquer benefício futuro (note, por exemplo, a importância que o longa dá, em uma cena ambientada em um helicóptero, ao ensaio de um discurso que acaba não tendo relevância nenhuma para a narrativa) e pontualmente falha em deixar claros os conflitos enfrentados por seu protagonista, que é visto punindo-se de diversas maneiras sem que nós tenhamos uma ideia muito clara do porquê.

Com um final chocante e brutal, Foxcatcher é um filme menor na carreira do diretor de Capote e O Homem Que Mudou o Jogo – o que não quer dizer que não seja extremamente coerente com sua visão de mundo, do ser humano e de sua Arte.

Confira também o comentário de Larissa Padron sobre o filme durante o Festival de Cannes

Poster Foxcatcher Channing Tatum

Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo (Foxcatcher, EUA, 2014). Dirigido por Bennett Miller. Escrito por E. Max Frye e Dan Futterman. Com Channing Tatum, Steve Carell, Mark Ruffalo, Sienna Miller, Vanessa Redgrave, Brett Rice, Guy Boyd, Samara Lee, Daniel Hilt, Jackson Frazer e Jesse Jantzen.

Continue Reading
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Críticas de filmes

Lightyear: Buzz recruta turma de desajustados em aventura do Comando Estelar

Published

on

A franquia Toy Story é sem dúvidas um dos maiores sucessos da história do cinema, tanto no desempenho nas bilheterias quanto na aclamação da crítica e do público em geral. Um dos motivos que explicam tamanho êxito é o carisma e simpatia de personagens como Woody, Rex, Sr. Cabeça de Batata e Buzz Lightyear. Este último ganhou seu spin-off que estreia dia 16 de junho no Brasil.

Os fãs de Toy Story, provavelmente devem se lembrar que em 1995, Andy  ganhou um exemplar do brinquedo Buzz, personagem principal do seu filme favorito. Assim, Lightyear, como indica o nome, se propõe a contar a história original de como Buzz se tornou o lendário patrulheiro espacial. 

No enredo, Buzz é ainda um jovem astronauta e junto de sua parceira de equipe, Izzy, estão a explorar um planeta desconhecido, porém as coisas se complicam quando plantas hostis atacam a nave de Buzz. A tentativa de escapar do local dá errado e Buzz e a tripulação são forçados a ficar no local e elaborar um plano arriscado de fuga. 

Dessa forma, o filme percorre várias referências e alusões a clássicos da ficção científica. De fato, em sua missão para conseguir retornar à Terra, Buzz precisa encontrar uma maneira de viajar entre o tempo e o espaço.  Assim, em suas tentativas, o patrulheiro envelhece alguns minutos, enquanto seus amigos envelhecem por anos e, a cada falha de Buzz, ele se distancia da idade das pessoas. 

Além disso, esse fato traz diversos conflitos para o protagonista: Buzz se sente muito frustrado por não conseguir cumprir a missão e não consegue se integrar à nova realidade. Dessa maneira, o roteiro usa as investidas que falharam para mostrar características da personalidade de Buzz, ele ainda é muito teimoso e se recusa a aceitar ajuda. 

Todas essas qualidades são acentuadas quando Buzz se junta à uma turma de patrulheiros desajustados. Nesse momento, o protagonista precisa aprender a lidar com seus defeitos e, principalmente, a trabalhar em equipe. Os elementos de nostalgia são explorados na medida mas nunca em exager. Assim, o filme destaca valores de amizade, companheirismo e força de vontade. 

Outro momento especial que acompanhamos são as mudanças de traje do Buzz, que vão evoluindo no decorrer da história. De modo geral, Lightyear é divertido e tem personagens carismáticos que vão agradar a todos os públicos. O enredo se mantém consistente e no terceiro ato traz elementos novos mas sem grandes reviravoltas.  A Pixar trouxe uma experiência cinematográfica depois de dois anos sem lançamentos no cinema e vale a pena conferir. 

Continue Reading

Ação

TOP GUN: Maverick

Published

on

Em entrevista realizada após a exibição de Top Gun: Maverick no Festival de Cinema de Cannes, Tom Cruise disse que valoriza a experiência cinematográfica acima de tudo, enfatizando que ele faz filmes para a telona.  Nesse sentido, Top Gun: Maverick, que estreia no Brasil dia 26 de maio, é o perfeito exemplo de que o astro não mede esforços para proporcionar à audiência umas das melhores experiências nos cinemas que poderíamos pedir.

Top Gun: Maverick traz de volta, o piloto Pete “Maverick” Mitchell, interpretado por Tom Cruise, que após 30 anos servindo a Marinha Americana como piloto de testes, precisa voltar a escola de pilotos de elite Top Gun para treinar um grupo de graduados em uma missão (quase) impossível. Neste momento de sua vida, Maverick se encontra mais maduro ainda que sofra com eventos trágicos do primeiro filme. 

Um dos motivos que deixam Maverick apreensivo com esse treinamento é o piloto Bradley “Rooster” Bradshaw, vivido por Miles Teller de Whiplash: Em Busca da Perfeição, que é filho de seu falecido amigo e co-piloto Goose (Anthony Edwards). Para quem é familiarizado com o primeiro filme, Top Gun: Ases Indomáveis, sabe que apesar de Goose ter morrido em um acidente e que Maverick ainda se sente culpado. Dessa forma, Maverick e Rooster precisam resolver suas mágoas e conflitos para conseguir trabalhar juntos nessa tarefa. 

Além disso, o longa adiciona personagens carismáticos e que se assemelham em algumas características às personalidades dos pilotos de Top Gun. Isto é, em vários momentos o filme presta homenagem a esse universo, com cenas semelhantes e participações especiais. Porém, há uma melhora considerável de um filme para outro, tanto em aspectos técnicos quanto em sua carga dramática.

Top Gun: Maverick poderia ter escolhido o caminho mais fácil e colocar seu herói principal no papel de mentor dos pilotos jovens, seria algo simples e eficiente. Contudo, o roteiro cumpre o que próprio nome do filme já sugere, Maverick é o protagonista e trabalhar essa figura tão intrigante é a prioridade da história. Desse modo, entendemos porque a reputação de Maverick o precede, ele sempre se prova e acima de tudo, se supera. Como ele mesmo cita em uma das linhas de diálogos mais legais do filme, “não é o avião, é o piloto”. 

Assim, a jornada dele é emocionante de se acompanhar. Nas cenas em terra firme, as interações de Maverick e personagens importantes nunca é rasa, embora sejam rápidas, comovem. Há uma cena em especial, que me deixou com os olhos marejados.  E quando vamos para o céu com Maverick e sua turma, viramos seu co-piloto. O trabalho de som realizado aqui é de um nível imersivo que nos deixa arrepiados com todas as acrobacias. Aviso aos cardíacos e aos não cardíacos também, seu coração vai saltar muitas vezes e isso é incrível. 

Conclusão

De maneira geral, Top Gun: Maverick consegue elevar a ação e coração que é a marca registrada do filme. Ademais, reúne tudo que esperamos de um Blockbuster “raiz”, é divertido, é tocante, soube usar a nostalgia a seu favor e não como uma muleta. É possível arriscar que ele irá configurar em listas de melhores da década no futuro. Tom Cruise e sua equipe prepararam o longa para que você tenha a melhor experiência possível ao ir ao cinema. Eles conseguiram, não perca a oportunidade.  

Continue Reading

Terror

Crítica: A Médium (2021)

Published

on

Em 2004, os fãs de terror tiveram uma grata surpresa, o tailandês Espíritos: A morte
está ao seu lado, dirigido pela dupla Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom.
O filme não prometia muita coisa, mas entregou tudo e , dezoito anos após o seu
lançamento, ainda é lembrado e bem comentado. A saga do casal Jane e Tun,
assombrados por uma figura que começa a aparecer em suas fotos, ganhou o remake
norte-americano Imagens do além, em 2008, dirigido pelo japonês Masayuki Ochiai e
não tão bem recebido. Antes, em 2007, veio Espíritos 2: Você nunca está sozinho,
também elogiado e marcou a última colaboração entre os dois cineastas. Depois de anos
longe dos cinemas brasileiros, Banjong Pisanthanakun está de volta com A Médium,
terror que aborda xamanismo, found footage e heranças de família.
A história começa com Nim (Sawanee Utoomma), uma médium que explica como e por
que desenvolveu a sua mediunidade. Ela domina bem o assunto e dá detalhes do que é
permitido, sagrado e que deve ser respeitado. Enquanto isso, sua sobrinha, Mink (Narilya
Gulmongkolpech), passa a se comportar de maneira estranha e dá indícios de que está
sendo possuída. É importante salientar que a mediunidade está presente na família de
Nim há gerações e é sempre “passada” para um dos filhos. Nim, a princípio, não seria
médium, mas a sua irmã, mãe de Mink, não aceitou o dom no passado, então Nim teve
que assumir essa missão.
O que vem a seguir é uma sequência de descobertas acerca da família e de forças
mediúnicas, deixando de lado a já conhecida abordagem de possessões quando a ideia
é baseada no cristianismo. Aqui há muito mais a ser conhecido, e Nim passa a questionar
se o seu conhecimento e sua força serão o suficiente para conter o que, supostamente,
está dominando a sobrinha.
A transformação de Mink acontece aos poucos e Narilya Gulmongkolpech consegue
passar a energia de quem está sendo devorada internamente. Ao mesmo tempo em que
segredos de família são revelados, ela cede ao que quer dominá-la.
A expectativa por um novo filme de Pisanthanakun não era tão alta, mas seu nome
carrega o respeito conquistado pelos trabalhos dos anos 2000. Ele consegue trazer um
pouco do que o público queria, mas o espectador já não é o mesmo de 2004, agora ele
quer mais do que lhe foi dado no passado e Pisanthanakun não consegue sanar essa
ânsia por surpresa.

A Médium consegue, assim, prender a atenção do espectador. Seu horror não surge de
maneira óbvia, mas se rende a alguns momentos tradicionais do gênero. O filme diverte,
porém não atinge o que os filmes anteriores do cineasta atingiram: impacto, debates e
discussões a respeito. Mesmo depois de ficar impressionado no cinema, não vai ser
difícil ter uma noite tranquila de sono.

Continue Reading

Bombando!