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Crítica: A Ilha dos Milharais – Mostra de SP

A Ilha dos Milharais (Simindis Kundzuli, Geórgia/Alemanha/França/República Tcheca/Cazaquistão/Hungria, 2014). Dirigido por George Ovashvili. Escrito por George Ovashvili, Roelof Jan Minneboo e Nugzar Shataidze. Com Ilyas Salman, Mariam Buturishvili e Tamer Levent.

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #8

A Ilha dos Milharais Crítica Mostra São Paulo Cartaz

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Entre 1992 e 1993, logo após o fim da União Soviética, a república anônima da Abecásia travou uma sangrenta guerra contra a Geórgia, pleiteando por sua própria independência e chegando a executar milhares de georgianos em uma “limpeza étnica” promovida em seu território. E é no meio desse conflito pouco conhecido no mundo ocidental que A Ilha dos Milharais se passa: mudando-se para uma minúscula ilha em plena fronteira onde constroem uma improvisada casa de madeira e iniciam uma plantação de milho a fim de abastecer-se para o inverno, quando o território é anualmente engolido pelas águas do rio que o cerca, um senhor (Salman) e uma adolescente (Buturishvili) que inicialmente tomamos por pai e filha vivem uma vida dura em uma terra sem lei em que o máximo que se pode sonhar é com o almoço do dia seguinte.

Levando vinte minutos até que o espectador ouça seu primeiro diálogo, A Ilha dos Milharais gira em torno de personagens sofridos e calados que abrem a boca apenas para dizer o necessário – e a impressão que temos ao vê-los trabalhar incessantemente, seja debaixo de uma chuva intensa ou de um sol escaldante, é a de que se comunicar sobre qualquer coisa que não seja estritamente necessária para a obra em que estão empenhados representa para os dois a perda de uma refeição futura. Assim, o que fazemos ao longo de boa parte da projeção é acompanhar sua rotina de trabalho e testemunhar a conclusão de cada nova etapa de seu empreendimento: os vemos afofando a terra, voltando ao continente para buscar equipamentos, cavando buracos e fincando estacas para estabelecer a base da cabana em que morarão nos próximos meses e daí por diante – um exercício que, acredite, torna-se cada vez mais interessante à medida em que passamos a nos sentir testemunhas daquele projeto e, consequentemente, parte dele.

É justamente por investir nessa proposta minimalista e não abrir mão dela, afinal (criando uma estética seca que desperta comparações inevitáveis com o trabalho dos cineastas Cristi Puiu e Cristian Mungiu, apesar da falta das grandes discussões morais normalmente presentes na obra dos romenos), que o longa revela-se tão encantador: perceba como a economia narrativa empregada pelo roteirista e diretor George Ovashvili lhe permite comunicar uma série de informações sobre a natureza da relação desenvolvida por aqueles personagens (que são, no final das contas, o principal objeto de preocupação da narrativa), partindo, só para citar um exemplo, de uma cena aparentemente inofensiva em que os dois descansam deitados lado a lado para mostrar o medo que a garota nutre por aquele sujeito de quem pouco sabemos, já que ela desvia o olhar sempre que ele lhe dirige o seu.

Construindo uma atmosfera contemplativa e imersiva basicamente através de sua geografia peculiar, dos sons diegéticos e das expressões sofridas de seus atores amadores (enquanto Ilyas Salman parece sempre exausto e traz um histórico de trabalho árduo através das fortes marcas de seu rosto, a jovem Mariam Buturishvili surge assustada e vulnerável nas transformações físicas e hormonais pelas quais sua personagem está passando), A Ilha dos Milharais ainda traz, em seu pano de fundo, um contexto político complexo em que noções de posse de terra, nacionalidade e direitos civis inexistem da maneira que os conhecemos e o simples fato de você responder a uma pergunta de um soldado na língua “errada” pode lhe render uma imediata saraivada de balas – uma situação que não só aumenta a vulnerabilidade dos personagens como cria uma tensão crescente ao longo a projeção.

Pré-selecionado da Geórgia a uma vaga no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2015, A Ilha dos Milharais é um ótimo exemplo da força que o Cinema pode ter ao tratar, ainda que como plano de fundo, de temas sociais específicos da região em que foi produzido.

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