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Crítica: Jauja – Mostra de SP

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38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #52

Durante boa parte de Jauja, filme que venceu o prêmio da crítica da mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes deste ano, tudo o que vemos é a imagem de Gunnar Dinesen (Mortensen), montado em seu alazão e devidamente trajado como um capitão dinamarquês do século XIX, vagando exausto, sedento e febril por praias, pastagens e montanhas rochosas em uma busca obstinada por sua filha Ingeborg (Agger), que, ao que tudo indica, fugiu com um prisioneiro. Nós não sabemos muito sobre o sujeito nem há um arco dramático sendo desenvolvido, pois o enfoque do roteiro escrito pelo diretor Lisandro Alonso ao lado de Fabian Casas é o El Dorado que lhe dá título, e que, atraindo exploradores do mundo inteiro, os envolve em uma onda de loucura semelhante àquela experimentada por Klauss Kinski em Aguirre: A Cólera dos Deuses.

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Tendo início com letreiros que informam o espectador acerca do paraíso perdido que é, no final das contas, seu protagonista, o longa não poderia ser visto de outra forma a não ser por planos gerais e conjuntos que enquadram seus personagens à distância, jamais permitindo que nos aproximemos de suas emoções e criemos algum tipo de relação com eles, e privilegiam as magníficas paisagens ensolaradas que justificam a fascinação que aquelas bandas despertam em seus visitantes – e se aparentemente não há uma motivação narrativa para que Alonso tenha optado por uma razão de aspecto tão reduzida (que se aproxima muito do 1×1 e ainda traz os cantos levemente arredondados), a beleza meramente estética atingida pelo cineasta é simplesmente inegável.

Respeitando rigorosamente uma soberania do quadro que caiu em desuso há muito tempo, desde o final dos anos 20 e começo dos anos 30 (perceba, por exemplo, que na cena em que uma vítima de Zuluaga, o coronel que surtou e anda aterrorizando a região, agoniza caída sobre a pastagem, uma mão carbonizada entra em campo para retirar seu chapéu e sua arma e a objetiva permanece estática, negando ao espectador a possibilidade de conhecer a identidade de seu dono), Alonso cria em Jauja uma fábula quase muda sobre o despertar da feminilidade (desde o início, o tenente que acompanha Gunnar cobiça Ingeborg sexualmente e o protagonista, ao mergulhar de cabeça em uma caçada descerebrada à garota, busca a qualquer custo impedir a perda de sua inocência) e a intransigência – ou seria relatividade? – do tempo.

O que nos leva, obviamente, ao terceiro ato inesperado, esquisito e aparentemente desconexo que certamente afastará muitos espectadores que desistirão do longa simplesmente por não conseguir compreendê-lo por completo – uma atitude compreensível entre espectadores médios, mas indesculpável entre cinéfilos e críticos. Mas afinal (e eu sugiro que você pare de ler este texto caso ainda não tenha assistido ao filme), aquela senhora é mesmo Ingeborg? É bem provável que sim, e que Gunnar tenha “se perdido” no tempo ao entrar em uma jornada obsessiva e psicologicamente sem volta; mas a pergunta mais difícil de ser respondida é: e no aparente flashforward que fecha a projeção, quem é aquela garota? Ingeborg reencarnada? Transportada no tempo pela caverna em que a vimos se abrigar?

Para ser bem sincero, não tenho uma resposta definitiva; tanto essas duas ou ainda outras alternativas são possíveis – o que não torna o longa desonesto ou “sem sentido”, mas apenas misterioso em suas maneiras de desenvolver a ideia de uma terra ”prometida” e ao mesmo tempo amaldiçoada cuja ação sobre os que se aventuram em encontrá-la excede nossa noção limitada de tempo e espaço. Pois a verdade é que, independentemente de dar ou não todas as respostas a seus enigmas, Jauja cumpre bem o papel que se propõe a desempenhar, funcionando como um conto pós-medieval sobre um homem ainda atrasado em seus paradigmas morais e aprisionado por uma visão mística e supersticiosa de um mundo que logo passaria a ser explicado pelas lentes da ciência.

Jauja (Idem, Argentina/Dinamarca/França/México/EUA/Alemanha/Brasil/Holanda, 2014). Dirigido por Lisandro Alonso. Escrito por Lisandro Alonso e Fabian Casas. Com Viggo Mortensen, Diego Roman, Ghita Nørby, Mariano Arce, Viilbjørk Malling Agger, Misael Saavedra e Andrián Fondari.