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Crítica: A Luneta do Tempo – Mostra de SP

A Luneta do Tempo

 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #36

A sequência de abertura de A Luneta do Tempo, filmada com uma câmera na mão cheia de energia e montada com uma segurança digna do mais consciente dos cineastas, já é suficiente para mostrar que o músico Alceu Valença não mente quando diz que se dedicou arduamente à tarefa de estudar a gramática do Cinema antes de começar a rodar seu primeiro filme. E a primeira impressão despertada pelo projeto se mantém ao longo de toda a projeção: imprimindo sua sensibilidade tipicamente nordestina a este épico lúdico do cangaço, Valença mistura Cinema, circo, música e literatura de cordel em um longa belo, poético e recheado de performances inspiradíssimas.

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Recontando parte de história das campanhas sertanejas lideradas por Lampião (Santos) e Maria Bonita (Guedes) pelo nordeste brasileiro durante a década de 30 e o mitológico confronto entre Antero Tenente (Trindade) e Severo Brilhante (Rodrigues), um dos mais famosos de toda a saga do cangaço contra os soldados getulistas durante a Era Vargas, o longa mistura influências que vão de Glauber Rocha a Sam Peckinpah passando por Ariano Suassuna e Chico Science e a Nação Zumbi para, sem jamais ignorar a natureza violenta da história que decidiu contar, explorar a fronteira estreita entre fatos e lenda através de um prisma poético e culturalmente coerente com o imaginário do sertão.

Explorando a iconologia de seus personagens sem jamais disfarçar a brutalidade de suas ações – as rajadas de balas que ferem homens suados em câmera lenta em meio a conflitos desérticos nos faz imediatamente lembrar de Meu Ódio Será a Sua Herança -, Valença demonstra um controle absoluto sobre a narrativa, privilegiando a ação ágil da câmera na mão e da montagem rápida sem deixar de optar por planos mais longos e movimentos de câmera mais clássicos quando necessário (um ótimo exemplo é a cena em que Severo Brilhante tenta se proteger ao contornar uma grande pedra ao mesmo tempo em que busca a melhor posição para o contra-ataque, e que Valença enche de urgência ao rodar quase um plano sequência).

O roteiro escrito pelo próprio Valença (que também monta o filme – e é por isso que elogiei a montagem do longa sem citar o nome de seu montador), aliás, acerta – e encanta os ouvidos – ao criar uma cadência rimada de poesia de cordel mesmo durante as cenas e diálogos mais banais (“É faca por faca, Severo Brilhante”/”É dente por dente Antero Tenente”), mas dando, ao mesmo tempo, liberdade para que os atores improvisem e impeçam o texto de se tornar excessivamente marcado e, por isso, artificial – e por falar em elenco, não são só os hors concours Irandhir Santos e Hermila Guedes que estão maravilhosos aqui, mas todos os coadjuvantes e mesmo os figurantes jamais deixam de soar naturais e extremamente entrosados.

Equilibrando-se de maneira extremamente bem sucedida entre realismo e fantasia – e diferenciando esses dois mundos que convergem na mitologia de Lampião através da belíssima fotografia de Luíz Abramo, que fotografa o agrestern que se mantém no centro da narrativa através de cores quentes e saturadas e o “retiro” (você entenderá) de Lampião e Maria Bonita com um filtro menos carregado e um foco mais suave (e como um filme captado em película é muito mais lindo, mesmo que depois seja exibido em formato digital) -, A Luneta do Tempo é um grande filme, daqueles que os teóricos da nouvelle vague se entusiasmariam em chamar de Cinema de autor.

E que, portanto, deveria servir de exemplo para qualquer um que deseje começar a fazer Cinema – e que tem a obrigação estudar, estudar e estudar antes de resolver dar a cara a tapa.

A Luneta do Tempo (Idem, Brasil, 2014). Escrito e dirigido por Alceu Valença. Com Irandhir Santos, Hermila Guedes, Hélder Vanconcelos, Alceu Valença Aramis Trindade, Ari de Arimateia, Ivair Rodrigues, Mariah Teixeira e José Dumont.