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Festival do Rio: Um Guia de Consumo

Começou o Festival do Rio. São 350 obras de 30 países, totalizando 15 dias de muito cinema no Rio de Janeiro. Como o Festival é o momento de conhecer produções antes do lançamento comercial, e em alguns casos é a oportunidade quase única de assistir certos filmes no cinema, convidamos o amigo e futuro cineasta Vírgilio Souza para deixar as suas recomendações para os leitores do Cinema de Buteco. Confira:

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Não irei ao Festival do Rio pela primeira vez em alguns anos, mas o hábito me obriga a consultar a programação e selecionar o que veria se estivesse na capital fluminense para o evento, que começa hoje, 26 de setembro, e se estende até o dia 10 de outubro. O critério é o mesmo de edições anteriores: evito filmes que chegarão aos cinemas brasileiros nos próximos meses e procuro produções elogiadas em outras mostras e circuitos, de diretores consagrados ou não. Por se tratar de um mapeamento feito um pouco às cegas, listo inicialmente os filmes a que já assisti, mas que indicaria para qualquer espectador do festival.

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Blue Jasmine, 2013

Woody Allen abandonou a Europa após um bom período em incursão pelo Velho Continente para construir uma das personagens mais significativas de sua longa carreira. Cate Blanchett entende Jasmine e, entre um gole e outro de vodka (e uma dose e outra de comprimidos), oferece uma das melhores performances da temporada. Allen parece mais confortável em estudar sua criatura do que em oferecer uma comédia de elenco, mas a primeira parte, inspiradíssima, compensa a segunda.

O Ato de Matar (The Act of Killing, 2012)

Realizado na Indonésia e produzido por Errol Morris e Werner Herzog, o documentário pode ser o indicado dinamarquês ao próximo Oscar (e poderá ter como concorrente o brasileiro O Som ao Redor). Joshua Oppenheimer coloca em cena alguns dos responsáveis por esquadrões da morte que perseguiam ditos comunistas nos anos 60 e pede que eles reencenem alguns dos acontecimentos parte do genocídio. A violência dos atos, do discurso e das imagens é devastadora.

Spring Breakers – Garotas Perigosas (Spring Breakers, 2012)

Harmony Korine reúne atrizes do universo adolescente e volta seu olhar para garotas bonitas, (momentaneamente) endinheiradas e imersas em um universo (aparentemente) sedutor, se afastando das figuras miseráveis e dos outsiders apresentados nos longas anteriores. Por um lado, rompe com traços típicos de sua filmografia; por outro, permanece focado em personagens que procuram se encontrar. O resultado, em parte sustentado em ótima performance de James Franco, é tenso e admirável.

A Filha de Ninguém (Nugu-ui ttal-do anin Haewon, 2013)

No primeiro de seus dois longas no ano, Hong Sang-soo permanece confortável em filmar pequenas fatias de vida, mas aqui, diferente de boa parte de sua filmografia, explora a sedução, o flerte e suas consequências sob ponto de vista feminino – o da personagem do título original. Seu talento de observador cuidadoso do cotidiano não deixa de impressionar.

The Canyons (2013)

Paul Schrader (Táxi Driver) dirige texto de Bret Easton Ellis (Psicopata Americano) no que parece ser um dos filmes mais subestimados do ano. Apesar de uma queda no fim, há força no retrato sexualizado do casal formado por Tara e Christian – Lindsay Lohan e James Deen não foram escalados por acaso. Eles traem e são traídos, manipulam e são manipulados, sentem e provocam tédio, e Schrader acompanha estes movimentos com mão firme, sempre atento ao subtexto.

O Imigrante (The Immigrant, 2013)

Nos Estados Unidos, a Weinstein Company decidiu lançar diretamente em home video o novo filme de James Gray (autor de algumas das maiores produções da última década, como Caminho Sem Volta e Amantes). A recepção em Cannes foi contida, mas esta talvez seja uma das poucas oportunidades para acompanhá-lo em tela grande.

Apenas Deus Perdoa (Only God Forgives, 2013)

Mergulhado (e mergulhando cada vez mais) no crime de Bangkok, um matador tenta vingar a morte de seu irmão a pedido da mãe. Em nova parceria com Ryan Gosling, Nicolas Winding Refn aproveita a câmera lenta para pingar sangue gota a gota e demonstrar que a morte é implacável e sempre cobra seu preço.

Abuso de Vulnerável (Abus de Faiblesse, 2013)

Criação autobiográfica focada na etapa mais recente (e turbulenta) da vida de Catherine Breillat, uma das cineastas mais autobiográficas de seu tempo – e também uma das mais competentes diretoras francesas do mesmo período.

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Até que a Loucura nos Separe (Feng Ai, 2013)

Primeiro longa de ficção de Wang Bing desde 2010, muito embora a linha entre documental e fictício em sua obra esteja sempre tremulando, acompanha a rotina de uma centena de pacientes de um hospital psiquiátrico isolado da civilização no sudoeste chinês em quase quatro horas de duração.

TILL MADNESS DO US PART

Bastardos (Les Salauds, 2013)

Claire Denis parece ter se tornado de vez uma favorita da crítica após 35 Doses de Rum e Minha Terra África (reconhecimento amplo porém tardio, é bom dizer), mas ainda carece de espaço nos cinemas daqui. Ótima oportunidade para conferir seu mais recente trabalho, exibido na mostra Um Certo Olhar, de Cannes. A cineasta estará presente na première brasileira.

O Conhecido Desconhecido: A Era Donald Rumsfeld (The Unknown Known, 2013)

O excelente Errol Morris volta a filmar um Secretário de Defesa norte-americano anos após Sob a Névoa da Guerra, que lhe rendeu um Oscar – desta vez, o personagem central é um dos principais responsáveis pela ocupação do Iraque. De acordo com o cineasta, “você faz um filme com o Secretário de Defesa que tem, não com o Secretário de Defesa que gostaria de ter”.

A Garota de Lugar Nenhum (La Fille de nulle part, 2012)

Jean-Claude Brisseau, que recebeu retrospectiva recente no Indie, em Belo Horizonte e São Paulo, estará no Rio para a estreia de seu mais novo trabalho, de que é também protagonista. O longa venceu o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno.

Joe, 2013

A atuação de Nicolas Cage foi apontada por vários veículos como umas das principais atrações do último Festival de Veneza. Tye Sheridan, seu colega em cena, apareceu com qualidade em A Árvore da Vida e Mud. Somando os dois elementos e apostando no texto do elogiado Larry Brown, é possível depositar esperanças em David Gordon Green, dono de uma filmografia recente bem irregular e que também lança Prince Avalanche neste ano.

JOE

Night Moves, 2013

Também exibido em Veneza, o novo longa de Kelly Reichardt (diretor de Meek’s Cutoff, Antiga Alegria e Wendy e Lucy), desembarca no Rio após semanas seguidas de aclamação mundo afora – o filme também passou por Toronto e Deauville. As perfomances de Jesse Eisenberg, Dakota Fanning e Peter Sarsgaard – ativistas que pretendem explodir uma represa – têm sido bastante elogiadas.

Outras recomendações:

Blind Detective, mais recente trabalho de Johnnie To
Corredor da Morte, nova investida de Werner Herzog sobre a pena de morte
Eu e Você, primeiro longa dirigido por Bernardo Bertolucci desde Os Sonhadores
Fruitvale Station, aclamado drama que marca a estreia de Ryan Coogler em longas
Sacro Gra, documentário vencedor da última edição de Veneza
The Zero Theorem, retorno de Terry Gilliam à ficção científica

Para os interessados, cliquem aqui para conferir a programação completa.

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